    INTRODUO
      
      
    CORAO A CORAO;
    CREBRO A CREBRO
      
      
      
      Todo crebro tem sua histria, e esta  a do meu. H dez anos eu estava na Harvard Medicai School realizando pesquisas e lecionando para jovens profissionais sobre o crebro humano. Porm, em 10 de dezembro de 1996, eu mesma recebi uma lio. Naquela manh, sofri uma forma rara de derrame no hemisfrio esquerdo do crebro. Uma hemorragia importante, devido  m-formao congnita dos vasos sanguneos em minha cabea, aconteceu inesperadamente. No breve espao de quatro horas, sob um olhar de curiosa neuro-anatomista, vi meu crebro deteriorar-se por completo em sua capacidade de processar informao. No final daquela manh, eu no conseguia andar, falar, ler, escrever ou lembrar nenhum dado da minha vida. Encolhida, como se voltasse a ser um feto, senti meu esprito render-se  morte, e  certo que em nenhum momento imaginei que seria capaz de dividir minha histria com algum.
      A cientista que curou seu prprio crebro  uma documentao cronolgica da jornada que realizei para o abismo amorfo de uma mente silenciosa, em que a essncia de meu ser existia envolvida numa profunda paz interior. Este livro  uma trama composta pelo alinhavo de meu treinamento acadmico, experincia pessoal e insights. At onde tenho conhecimento, este  o primeiro relato documentado de uma neuroanatomista que se recuperou por completo de uma severa hemorragia cerebral. Estou eufrica por estas palavras finalmente ganharem o mundo, onde podero ser bastante teis.
      Mais que tudo, sou grata por estar viva, e comemoro o tempo que tenho aqui. Inicialmente, fui motivada a enfrentar a agonia da recuperao graas a muita gente bonita que me estendeu as mos e me ofereceu amor incondicional.
      Ao longo dos anos, mantive-me fiel a esse projeto devido a jovem que me procurou movida pelo desespero, querendo entender por que a me dela, que morrera vtima de um derrame, no havia ligado para a emergncia. Tambm por causa do cavalheiro idoso, que estava sobrecarregado pela apreenso de que a esposa houvesse sofrido muito durante o coma antes de sua morte. Fui praticamente mantida presa ao computador (com meu fiel cachorro Nia no colo) devido a muitos indivduos que cuidavam de seus doentes e me procuravam em busca de orientao e esperana. Persisti nesse trabalho pelas 700 mil pessoas da nossa sociedade (e suas famlias) que ainda sofrero um derrame. Se uma nica pessoa ler "Manh do derrame", reconhecer os sintomas e pedir ajuda  antes tarde do que nunca , ento meu esforo estar mais do que recompensado.
      A cientista que curou seu prprio crebro tem quatro divises naturais. A primeira parte, "A vida de Jill antes do derrame", apresenta ao leitor quem eu era antes de meu crebro ficar "desconectado". Descrevo por que me tornei neurocientista, um pouco da minha jornada acadmica, meus interesses por Direito e minha jornada pessoal. Eu vivia de maneira grandiosa. Era neurocientista em Harvard, integrava o comit nacional da Nami (National Alliance on Mental Illness  Aliana Nacional de Doenas Mentais) e viajava pelo pas como a cientista cantora. Relato essa breve sinopse pessoal em termos cientficos simples, cujo propsito  ajudar o leitor a entender o que ocorria biologicamente no meu crebro na manh do derrame.
      Se voc j se perguntou qual deve ser a sensao de ter um derrame, ento o captulo "Manh do derrame"  para voc. Nele, conduzo o leitor numa jornada muito incomum pelo passo-a-passo da deteriorao das minhas habilidades cognitivas, sob o olhar de um cientista. Na medida em que a hemorragia em meu crebro vai se tornando cada vez maior, relaciono os dficits cognitivos que estava experimentando  biologia subjacente. Como neuroanatomista, devo dizer que aprendi muito durante aquele derrame sobre meu crebro e como ele funciona, tanto quanto havia aprendido em todos os meus anos acadmicos. No final daquela manh, minha conscincia em estado alterado percebeu que eu estava unificada ao Universo. Desde aquele momento, passei a entender como somos capazes de ter uma experincia "mstica" ou "metafsica" em relao  anatomia cerebral.
      Se voc conhece algum que sofreu um derrame ou algum outro tipo de trauma cerebral, os captulos sobre recuperao podem ser um recurso valioso. Neles, compartilho a jornada cronolgica da minha recuperao, incluindo mais de 50 dicas sobre coisas de que eu precisava (ou no precisava) para recuperar-me completamente. Minhas "Recomendaes para recuperao" esto relacionadas no Apndice para sua convenincia. Espero que compartilhem essa informao com quem dela puder se beneficiar.
      Finalmente, "Meu derrame de sabedoria" define o que o derrame me ensinou sobre meu crebro. Nesse ponto, voc vai perceber que este livro no  realmente sobre derrame. Mais precisamente, o derrame foi o evento traumtico pelo qual me chegou o conhecimento. Este livro  sobre a beleza e a resistncia do crebro humano graas a sua capacidade inata de se adaptar constantemente  mudana e recuperar suas funes. Em ltima anlise,  sobre a jornada do meu crebro a caminho da conscincia do meu hemisfrio direito, onde me vi envolvida numa profunda paz interior. Ressuscitei a conscincia do meu hemisfrio esquerdo com a finalidade de ajudar outras pessoas a alcanar aquela mesma paz interior  sem precisar sofrer um derrame!
      Espero que apreciem a jornada.
      
      
      
      
      
    Captulo 1
      
      
    A VIDA DE JILL
    ANTES DO DERRAME
    
      Sou uma neuroanatomista experiente e tenho vrios artigos publicados. Cresci em Terre Haute, Indiana. Um de meus irmos, que  s 18 meses mais velho que eu,  portador de uma desordem mental chamada esquizofrenia. Ele recebeu o diagnstico oficial aos 31 anos, mas exibiu sinais bvios da psicose muitos anos antes disso. Durante nossa infncia, ele era muito diferente de mim no modo como experimentava a realidade e se comportava. O resultado  que fiquei fascinada pelo crebro humano ainda muito jovem. Eu me perguntava como era possvel que meu irmo e eu vivssemos a mesma experincia, mas sassemos da situao com interpretaes completamente diferentes sobre o que havia acontecido. Essa diferena na percepo, no processamento de informao e no resultado final me motivou a ser uma cientista do crebro.
      Minha jornada acadmica comeou na indiana University, em Bloomington, Indiana, no final da dcada de 1970. Por causa da interao com meu irmo, eu estava vida por entender o que era o "normal" em nvel neurolgico. Naquele tempo, o assunto da neurocincia era ainda to novo que no existia nenhum campus da universidade como rea formal de especializao. Estudando psicologia fisiolgica e biologia humana, aprendi tanto quanto possvel sobre o crebro humano.
      Meu primeiro trabalho de verdade no mundo da cincia mdica acabou se tornando uma enorme bno em minha vida. Fui contratada como tcnica de laboratrio no Terre Haute Center for Medical Education (THCME), que  um brao da escola de medicina da Indiana University e funciona no campus da Indiana State University (ISU). Meu tempo era igualmente dividido entre o laboratrio mdico de anatomia humana e o laboratrio de pesquisa em neuroanatomia. Por dois anos, vivi mergulhada no estudo da medicina e, tendo por mentor o Dr. Robert C. Murphy, apaixonei-me pela dissecao do corpo humano.
      Depois da graduao corno mestre, passei os seis anos seguintes envolvida oficialmente no programa de doutorado do Departamento de Cincia da Vida da ISU. Minha carga horria era consumida pelo currculo do primeiro ano da faculdade de medicina e pela especializao em neuroanatomia, sob a orientao do Dr. William J. Anderson. Em 1991, tornei-me doutora e me senti competente para lecionar Anatomia Geral Humana, Neuroanatomia Humana e Histologia no nvel de graduao em medicina. 
      Em 1988, durante meu perodo no THCME e na ISU, meu irmo recebeu o diagnstico oficial de esquizofrenia. Biologicamente, ele  o ser mais prximo de mim no Universo. Eu queria entender por que eu conseguia conectar meus sonhos  realidade e torn-los verdadeiros. O que havia de to diferente no crebro de meu irmo que ele no conseguia conectar os seus com uma realidade comum, de maneira que eles se tornavam, ento, iluses? Estava ansiosa para me dedicar  pesquisa em esquizofrenia.
Depois do comeo na ISU, fui convidada a ocupar uma posio ern pesquisa de ps-doutorado na Harvard Medicai School, no Departamento de Neurocincia. Passei dois anos trabalhando com o Dr. Roger Tootell sobre a localizao da rea MT, que se localiza na parte do crtex visual do crebro que acompanha o movimento. Interessei-me por esse projeto porque uma elevada porcentagem de indivduos com diagnstico de esquizofrenia exibia comportamento ocular anormal quando observava objetos em movimento. Depois de ajudar Roger a identificar anatomicamente a rea MT no crebro humano1, segui meu corao e me transferi para o Departamento de Psiquiatria da Harvard 
      
       1.  R. B, H. Tootell e J. B. Taylor, "Anatomical Evidence for MT/V5 and Additional Cortical Visual reas in Man", em Cerebral Cortex, jan./fev. 1995, p. 39-55.
      
Medical School. Meu objetivo era trabalhar no laboratrio da Dra. Francine M. Benes no McLean Hospital. A Dra. Benes  uma especialista mundialmente renomada na investigao ps-morte do crebro humano em relao  esquizofrenia. Eu acreditava que por esse caminho poderia dar minha contribuio e ajudar as pessoas portadoras da mesma desordem mental de que sofria meu irmo.
      Uma semana antes de comear em minha nova posio no McLean Hospital, meu pai, Hal, e eu fomos a Miami a fim de participar da conferncia anual de 1993 da Nami2. Hal, ministro episcopal aposentado com um doutorado em aconselhamento psicolgico, sempre defendera a causa da justia social. Ns dois queramos participar daquela conveno para aprender mais sobre a Nami e o que poderamos fazer para unir nossa energia  deles. A Nami  a maior organizao civil dedicada a melhorar a vida de pessoas portadoras de srias enfermidades mentais. Naquela poca, a Nami tinha aproximadamente 40 mil famlias associadas, todas com um membro que havia recebido algum tipo de diagnstico psiquitrico. Agora a Nami tem um nmero de aproximadamente 220 mil famlias associadas. A organizao nacional Nami age em nvel de estado. Alm disso, h mais de 1.100 afiliadas locais da Nami espalhadas pelo pas que oferecem apoio e educao, e promovem oportunidades para famlias no mbito da comunidade.
      A viagem para Miami mudou minha vida. Um grupo de cerca de 1.500 pessoas, entre elas pais, irmos, filhos e indivduos com diagnstico de severa doena mental, reuniu-se em busca de apoio, educao e representao, e para abordar assuntos relacionados  pesquisa. At conhecer outros irmos de indivduos portadores de doena mental, no havia percebido o profundo impacto que a enfermidade de meu irmo tivera em minha vida. Ao longo daqueles poucos dias, conheci uma famlia de pessoas que entendiam a angstia que eu sentia por perder meu irmo para sua esquizofrenia. Elas 
         
         2.  Disponvel em; www.nami.org
entendiam o esforo da minha famlia para ajud-lo a ter acesso a tratamento de qualidade. Lutavam juntas como uma voz organizada contra a injustia social e o estigma relacionado  doena mental. Tinham como armas programas educacionais para eles mesmos, bem como para o pblico, sobre a natureza biolgica dessas desordens. Tambm muito importante, aliavam-se aos pesquisadores para ajudar a encontrar uma cura. Tive a sensao de estar no lugar certo na hora certa. Era uma irm, uma cientista e apaixonada pela ideia de ajudar pessoas como meu irmo. Sentia que havia  encontrado no s uma causa digna do meu esforo, mas tambm uma grande famlia.
      Na semana seguinte  conveno de Miami, cheguei ao McLean Hospital cheia de energia e ansiosa para comear meu novo trabalho no Laboratrio para Neurocincia Estrutural, domnio da pesquisa da Dra. Francine Benes. Estava eufrica e entusiasmada para comear as investigaes ps-morte para as bases biolgicas da esquizofrenia. Francine, a quem eu chamava carinhosamente de Rainha da Esquizofrenia,  uma fabulosa cientista pesquisadora. O simples fato de observar como ela pensava, como explorava e como reunia tudo que aprendia com os dados colhidos era um completo fascnio para mim. Era um privilgio testemunhar sua criatividade em projeto experimental e a persistncia, preciso e eficincia com que administrava um laboratrio de pesquisa. Aquele trabalho era um sonho que se realizava. Estudar o crebro de indivduos diagnosticados com esquizofrenia me dava uma sensao de propsito.
      No primeiro dia do meu novo trabalho, porm, Francine causou-me o primeiro desapontamento ao revelar que a pouca frequncia de doaes de crebros de famlias cujos indivduos tinham doena mental provocara em longo prazo uma ampla carncia de tecidos para investigao ps-morte. Eu no conseguia acreditar no que estava ouvindo. Havia passado a maior parte da semana anterior na Nami Nacional com centenas de outras famlias cujos indivduos que a ela pertenciam tinham diagnstico de severa doena mental. O Dr. Lew Judd, ex-diretor do National Institute of Mental Health, havia moderado o plenrio de pesquisa, e vrios cientistas de renome tinham apresentado seus trabalhos. As famlias que integram a Nami gostam de divulgar o que por isso eu considerava surpreendente que pudesse haver falta de doao de tecido. Decidi que a questo era s de divulgao. Precisvamos despertar a conscincia pblica. Acreditava que, assim que soubessem que havia carncia de tecido para pesquisa, as famlias da Nami promoveriam doaes dentro da organizao e resolveriam o dilema.
      No ano seguinte (1994), fui eleita para o Conselho de Diretores da Nami Nacional. Foi uma grande alegria poder servir quela maravilhosa organizao, uma grande honra e responsabilidade.  claro, a base da minha plataforma era a valorizao da doao cerebral mediante a carncia de tecido psiquiatricamente diagnosticado para a realizao de pesquisa cientfica. Chamei o problema de Questo de Tecido*. Na poca, a idade mdia de um membro da Nami era de 67 anos. Eu tinha apenas 35. Sentia-me orgulhosa por ser a mais jovem eleita para aquele conselho. Tinha muita energia e estava ansiosa para comear.
      Com minha nova posio dentro da organizao Nami Nacional, passei imediatamente a determinar a poltica de ao dentro das convenes anuais das Nami Estaduais em todo o pas. Antes de comear essa empreitada, o Harvard Brain Tissue Resource Center (Banco de Crebro3), o banco de tecido cerebral que ficava localizado  esquerda do Laboratrio Benes, recebia menos de trs crebros por ano de indivduos psiquiatricamente diagnosticados. Essa quantidade de tecido mal era su ficiente para a realizao do trabalho no laboratrio de Francine, e o Banco de Crebro no dispunha de material bastante para doar a outros renomados laboratrios que o solicitavam. Poucos meses depois do incio do meu trabalho, que inclua viagens e programas educativos para informar as famlias da Nami sobre a Questo do Tecido, o nmero de doaes de crebro comeou a crescer.
      
         * Tissue /ssue no original em ingls. Na traduo, a sonoridade se perde. (N. da T.)
         3. Disponvel em www.brainbank.mclean.org.
      
Atualmente, o nmero de doaes da populao psiquiatricamente diagnosticada varia entre 25 e 35 doaes anuais. A comunidade cientfica daria boa utilidade a cem doaes anuais.
      Percebi que no incio das minhas apresentaes sobre a Questo do Tecido, o assunto da doao de crebro fazia alguns membros da plateia reagir com desconforto. Havia aquele momento previsvel em que o pblico deduzia: "Oh, meu Deus, ela quer o MEU crebro!" E eu lhe dizia: "Bem, sim, eu quero, mas no se preocupem, no estou com pressa!" Para combater a evidente apreenso, escrevi um jingle para o Banco de Crebro e comecei a viajar com meu violo como a cientista cantora4. Quando me aproximava do assunto da doao de crebro e a tenso na sala comeava a crescer, pegava o violo e cantava para os que me ouviam. O jingle do Banco de Crebro parecia ser suficientemente ingnuo para amenizar a tenso, enternecer coraes e abrir caminho para que eu comunicasse minha mensagem.
      Meus esforos com a Nami deram profundo significado  minha vida, e meu trabalho no laboratrio floresceu. Meu projeto primrio de pesquisa no laboratrio Benes envolvia agir em conjunto com Francine para a criao de um protocolo no qual pudssemos visualizar trs sistemas neurotransmissores na mesma frao de tecido. Neurotransmissores so as substncias qumicas com as quais as clulas do crebro se comunicam. Esse trabalho foi importante, uma vez que os mais novos medicamentos antipsicticos atpicos so formulados para influenciar mltiplos sistemas neurotransmissores, em vez de somente um.
      Nossa habilidade de visualizar trs diferentes sistemas na mesma frao de tecido elevava a capacidade de entendermos a delicada interao dos sistemas. O objetivo era entender melhor o microcircuito do crebro  que clulas em que reas do crebro se comunicavam com que substncias qumicas e em que quantidade dessas substncias.
      
         4. Disponvel em www.drjilltaylor.com.
      
Quanto melhor entendssemos quais eram as diferenas, em mbito celular, entre o crebro de indivduos com diagnstico de severa enfermidade mental e controles cerebrais normais, mais prxima a comunidade mdica estaria de ajudar os necessitados com medicao apropriada. Na primavera de 1995, esse trabalho foi matria de capa do BioTechniques Journal, e em 1996 ele me rendeu o prestigiado Mysell Award, um prmio do Departamento de Psiquiatria da Harvard Medicai School. Eu adorava trabalhar no laboratrio e amava dividir esse trabalho com minha famlia Nami.
      E, ento, o impondervel aconteceu. Estava com trinta e poucos anos, prosperando nos campos profissional e pessoal. Mas, numa descida vertiginosa, meu futuro promissor e minha vida cor-de-rosa evaporaram. Acordei no dia 10 de dezembro de 1996 para descobrir que eu mesma era portadora de uma desordem cerebral. Sofria um derrame. Em quatro horas, vi a deteriorao da capacidade de minha mente em processar todos os estmulos que penetravam pelos sentidos. Essa rara forma de hemorragia deixou-me completamente incapacitada, de forma que no podia andar, falar, ler, escrever ou lembrar aspectos de minha vida.
      Compreendo que o leitor deve estar ansioso para comear a ler o relato pessoal da manh do derrame. Porm, para que seja possvel entender de maneira mais clara o que ocorria no interior do meu crebro, decidi apresentar um pouco de cincia simples nos captulos 19 e 20. Fiz o possvel para torn-los acessveis e teis, para que voc possa entender a anatomia que d suporte s minhas experincias cognitiva, fsica e espiritual. Se for absolutamente indispensvel que voc leia esses captulos depois, ento tenha certeza de que estaro  mo como fonte de referncia. No entanto, insisto que  mais aconselhvel ler antes estas sees, pois acredito que vo simplificar profundamente seu entendimento.
      
      
      
    Captulo 2
      
      
    MANH DO DERRAME
    
      Eram sete horas da manh de 10 de dezembro de 1996. Acordei com o familiar tique-tique-tique do meu CD player porttil se preparando para comear a tocar. Sonolenta, apertei o boto da soneca bem a tempo de pegar de volta a onda mental seguinte para a terra dos sonhos. Ali, naquela terra mgica que chamo de Thetaville  um lugar surreal de conscincia alterada em algum ponto entre os sonhos e a realidade , meu esprito brilhava lindamente, fluido, e livre dos limites impostos pela realidade normal.
      Seis minutos mais tarde, quando o tique-tique-tique do CD player alertou minha memria sobre minha condio de mamfero terrestre, acordei com muita preguia e registrei uma dor aguda no interior da cabea, bem atrs do olho esquerdo. Ofuscada pela luz matinal, desliguei o alarme iminente com a mo direita e pressionei de maneira instintiva a mo esquerda contra a lateral do rosto. Raramente adoecia, e estava achando estranho acordar com uma dor de cabea to aguda. Enquanto meu olho esquerdo pulsava num ritmo lento e deliberado, eu experimentava uma mistura de espanto e irritao. A dor latejante atrs do olho era aguda, como a sensao custica que algumas vezes surge quando fincamos o dente em uma bola de sorvete.
      Ao rolar para fora da minha cama quente, cambaleei para o mundo com a ambivalncia de um soldado ferido. Fechei a janela do quarto para bloquear a luz que fazia arder meus olhos. Decidi que um pouco de exerccio poderia fazer meu sangue fluir e talvez ajudasse a dissipar a dor. Em questo de segundos, subi no meu "cardioglider" fuma mquina que exercita o corpo todo) e comecei a correr no ritmo da cano de Shania TWain, "Whose Bed Have Your Boots Been Under?". Imediatamente, senti uma poderosa e incomum sensao de dissociao me invadir. Sentia-me to peculiar que questionei meu bem-estar. Meus pensamentos pareciam lcidos, mas meu corpo estava estranho, diferente. Eu via minhas mos e meus braos balanando para a frente e para trs, para a frente e para trs, em sincronia oposta ao meu tronco, e me sentia estranhamente desligada das minhas funes cognitivas normais. Era como se a integridade da minha conexo mente-corpo tivesse de alguma maneira sofrido um comprometimento.
      Sentindo-me distante da realidade normal, eu parecia testemunhar minha atividade em vez de senti-la como participante ativa de sua realizao. Era como se me observasse em movimento, como se a memria passasse um videoteipe. Meus dedos agarraram a barra de metal do aparelho, mas pareciam garras primitivas. Por alguns segundos, balancei e vi com surpresa meu corpo balanar de maneira rtmica e mecnica. O tronco se movia para cima e para baixo numa cadncia perfeita com a msica, e minha cabea continuava doendo.
      Sentia-me bizarra, como se minha mente consciente estivesse suspensa em algum lugar entre a realidade normal e algum espao esotrico. Embora essa experincia tivesse uma distante semelhana com aquele momento matinal em Thetaville, tinha certeza de que daquela vez estava acordada. Porm, sentia-me como se estivesse presa no interior da percepo de uma meditao que no podia interromper, de onde no podia fugir. Atordoada, com a frequncia do latejar doloroso alcanando propores assustadoras no interior do meu crebro, percebi que o exerccio no havia sido boa ideia. 
      Um pouco nervosa com minha condio fsica, desci da mquina e cambaleei pela sala a caminho do banheiro. Enquanto caminhava, notei que meus movimentos no eram mais fluidos. Agora eram deliberados, quase estanques. Na ausncia da minha coordenao muscular normal, no havia graa no meu caminhar e o equilbrio estava to prejudicado que a mente se ocupava inteiramente em manter-me ereta.
      Quando levantei a perna para entrar na banheira, segurei-me na parede para no cair. Era estranho que pudesse sentir as atividades internas do meu crebro, os ajustes e reajustes feitos a todos os grupos musculares dos membros inferiores, num esforo para impedir a queda. Minha percepo dessas respostas automticas do corpo no era mais um exerccio de conceituao intelectual. Em vez disso, tinha acesso momentneo a uma compreenso precisa e experimental de como os 50 trilhes de clulas do meu crebro e do meu corpo trabalhavam duro e em perfeita harmonia para manter a flexibilidade e a integridade da minha forma fsica. Sob o olhar de uma vida entusiasta da magnificncia do projeto humano, testemunhei com fascnio o funcionamento autnomo do meu sistema nervoso, que calculava e recalculava cada movimento das articulaes. 
      Ignorando o grau de perigo a que meu corpo estava exposto, apoiei meu peso contra a parede do banheiro. Quando me inclinei para a frente para abrir a torneira, assustei-me com um abrupto e exagerado clamor provocado pela gua que entrava na banheira. Aquela inesperada amplificao de som foi ao mesmo tempo esclarecedora e inquietante. Foi ali que percebi que, alm de ter problemas de coordenao e equilbrio, minha capacidade de processar o som era inadequada.
      Compreendia, sob o ponto de vista neuroanatmico, que coordenao, equilbrio, audio e a ao de inspirar eram processadas pelas pontes do tronco cerebral. Pela primeira vez, considerei a possibilidade de estar, talvez, sofrendo um mau funcionamento neurolgico importante que poderia oferecer risco de morte.
      Enquanto minha mente cognitiva procurava uma explicao para o que acontecia anatomicamente no interior do meu crebro, recuei em resposta ao estrondo ainda maior da gua, um barulho inesperado que penetrava meu crebro delicado e dolorido. Naquele instante, senti-me de repente vulnervel, e notei que o constante papo do crebro com o qual me havia habituado no era mais um previsvel e constante fluxo de conversao. Em vez disso, agora meus pensamentos verbais eram inconsistentes, fragmentados e interrompidos por um silncio intermitente.
      Quando percebi que as sensaes externas ao meu corpo, at mesmo os sons distantes de uma cidade em efervescncia alm das janelas do apartamento, haviam desaparecido, percebi que o amplo alcance da minha observao natural tinha se reduzido. Na medida em que a conversa mental comeava a se desintegrar, experimentei uma estranha sensao de isolamento. A presso sangunea deve ter cado em resultado do sangramento no crebro, porque eu sentia que todos os meus sistemas, incluindo a capacidade da mente de instigar movimento, moviam-se em modo lento de operao. Porm, embora meus pensamentos no fossem mais um fluxo constante de conversao sobre o mundo externo e minha relao com ele, estava consciente e constantemente presente dentro da minha mente.
      Confusa, revistei os bancos de memria do corpo e do crebro, questionando e analisando qualquer coisa que pudesse recordar ter experimentado no passado e que fosse remotamente semelhante quela situao. O que est acontecendo? J me senti assim antes? Isso parece uma enxaqueca. O que est acontecendo no meu crebro? 
      Quanto mais tentava me concentrar, mais minhas ideias pareciam fugir. Em vez de encontrar respostas e informao, encontrei um crescente sentimento de paz. No lugar daquela conversa mental constante que me ligava aos detalhes da minha vida, senti-me envolta por um cobertor de euforia serena. Como tive sorte por aquela poro do meu crebro que registrava o medo, a amgdala cerebral, no ter reagido com alarme quelas circunstncias incomuns e me lanado em estado de pnico.  medida que os centros de linguagem no meu hemisfrio esquerdo foram se tornando progressivamente silenciosos e eu me distanciava das lembranas de minha vida, fui me sentindo confortada por um expansivo sentimento de graa. Naquele vcuo de cognio superior e detalhes pertinentes  minha vida normal, a conscincia flutuou leve para um estado de sabedoria nica, um "ser um s" com o Universo, se preferirem. De maneira convincente, aquilo era como a boa e velha estrada de volta para casa, e eu gostava do que sentia.
      Nesse ponto havia perdido contato com boa parte da dimenso fsica e tridimensional da realidade que me cercava. Meu corpo estava apoiado  parede da rea do chuveiro, e eu achava estranho ter conscincia de que no podia mais discernir com clareza os limites fsicos, ou onde eu comeava e onde terminava. Sentia a composio de meu ser como algo fluido, no slido. J no me percebia mais como um objeto inteiro separado de tudo. Em vez disso, agora me fundia com o espao e flutuava  minha volta. Contemplando um crescente sentimento de ciso entre minha mente cognitiva e a capacidade de controlar e manipular meus dedos de maneira refinada, meu corpo pesava e minha energia se esvaa.
      Quando as gotas de gua do chuveiro bateram em meu peito como balas, fui trazida de sbito e de maneira assustadora de volta  realidade. Ergui as mos diante do meu rosto e movimentei os dedos, e me senti simultaneamente perplexa e intrigada. Uau, que coisa estranha e espantosa eu sou. Que ser vivo bizarro eu sou. Vida! Eu sou vida! Sou um mar de gua contida dentro dessa bolsa membranosa. Aqui, nessa forma, sou uma mente consciente e este corpo  o veculo pelo qual me sinto VIVA! Sou trilhes de clulas partilhando uma mente comum. Estou aqui, agora, florescendo como vida. Uau! Que conceito incrvel! Sou vida celular, no... Sou vida molecular com destreza manual e uma mente cognitiva!
      Nesse estado alterado, minha mente no estava mais preocupada com os bilhes de detalhes que meu crebro usava dia a dia para definir e conduzir minha vida no mundo externo. Aquelas vozes, o papo do crebro, que habitualmente me mantinham  frente de mim mesma em relao ao mundo exterior, estavam deliciosamente caladas. E, em sua ausncia, minhas lembranas do passado e meus sonhos para o futuro evaporaram. Estava sozinha. No momento, estava sozinha, sem nada alm do pulsar rtmico do meu corao.
      Devo admitir que o vcuo progressivo em meu crebro traumatizado era muito sedutor. Recebi com alegria o descanso representado pelo silncio, a ausncia do constante dilogo que me relacionava ao que eu agora percebia como insignificantes assuntos da sociedade. Voltei com avidez meu foco para dentro, para o pulsar cadenciado dos trilhes de clulas brilhantes que funcionavam diligentemente e de maneira sincronizada para manter o estvel estado de homeostase de meu corpo. Enquanto o sangue inundava meu crebro, minha conscincia se resumia a um existir sereno e satisfatrio que abraava o vasto e maravilhoso mundo interior. Sentia-me fascinada e humilde diante do trabalho duro realizado por minhas clulas, momento a momento; do esforo que realizavam s para manter a integridade de minha existncia naquela forma fsica.
      Pela primeira vez, senti-me inteiramente unificada a meu corpo como uma construo complexa de organismos vivos e bem-sucedidos. Orgulhava-me de ver que eu era aquele enxame de vida celular que brotava da inteligncia de um nico gnio molecular! Recebia com alegria a oportunidade de ir alm das minhas percepes normais, para longe da dor perseverante que pulsava invencvel em minha cabea. Minha conscincia resvalava para um estado de graa serena, e eu me sentia etrea. Embora o pulsar da dor na cabea fosse impossvel de evitar ou ignorar, j no era mais debilitante.
      Em p, com a gua batendo sobre meus seios, tomei conhecimento de uma sensao que se espalhava pelo peito e subia para a garganta. Assustada, percebi de imediato que corria grave perigo. Empurrada pelo choque de volta  realidade externa, reavaliei com rapidez as anormalidades dos meus sistemas fsicos. Determinada a compreender o que ocorria, verifiquei com determinao o reservatrio de educao acadmica tentando encontrar um autodiagnstico. O que est acontecendo com meu corpo? O que est errado com meu crebro?
      Embora o fluxo espordico e descontnuo de cognio normal fosse incapacitante, consegui, de alguma forma, manter meu corpo sob controle. Sa do chuveiro sentindo a mente inebriada. Meu corpo era instvel, pesado, e se exauria com o menor movimento. O que estou tentando fazer? Vestir... Vestir-me para ir trabalhar. Estou me vestindo para ir trabalhar. Escolhi de maneira mecnica e com enorme dificuldade as roupas que vestiria, e s 8hl5 da manh estava pronta para a jornada. Andando pelo apartamento, pensei: Muito bem, vou trabalhar. Vou trabalhar. Eu sei como chegar ao meu local de trabalho? Posso dirigir? Enquanto visualizava a estrada para o McLean Hospital, perdi literalmente o equilbrio quando meu brao direito caiu por completo, paralisado ao lado do corpo. Naquele momento eu soube. Oh, meu Deus, estou tendo um derrame! Estou tendo um derrame! E, no instante seguinte, o pensamento cruzou minha mente como um raio: Uau, isso  to legal!
      Sentia-me suspensa em um estupor eufrico peculiar, e fiquei estranhamente animada quando compreendi que aquela inesperada peregrinao para as complexas funes do meu crebro tinha, na verdade, uma base fisiolgica e uma explicao. Continuava pensando: Uau, quantos cientistas tm a oportunidade de estudar as funes do prprio crebro e sua deteriorao mental de dentro para fora? Minha vida inteira havia sido dedicada a compreender como o crebro humano criava a percepo de realidade. E agora eu estava experimentando esse fabuloso derrame de sabedoria!
      Quando meu brao direito ficou paralisado, senti a fora da vida no interior do membro explodir. Quando ele pendeu sem vida contra meu corpo, desequilibrou meu tronco. Foi uma sensao muito estranha. Parecia que meu brao havia sido amputado!
      Compreendia, tendo a neuroanatomia como base, que meu crtex motor havia sido afetado. Em poucos minutos, felizmente, o torpor do meu brao direito cessou. O membro comeou a recuperar a vida, latejando com uma dor formidvel que era ao mesmo tempo formigamento e um pulsar intenso. Sentia-me fraca e ferida. Meu brao estava completamente destitudo de sua fora intrnseca, mas eu podia utiliz-lo como um basto. Pensei que, talvez, ele nunca mais voltasse ao normal. Vi minha cama aconchegante e acolhedora, e me senti atrada por ela naquela fria manh de inverno da Nova Inglaterra. Oh, estou to cansada. To cansada. S quero descansar. Quero me deitar e relaxar um pouco. Mas, reverberando como um trovo nas profundezas de meu ser, uma voz autoritria ordenou com clareza: Se voc se deitar agora, nunca mais se levantar!
      Assustada com esse esclarecimento sinistro, tentei avaliar a gravidade da minha situao imediata. Embora fosse compelida por um sentimento de urgncia a articular meu socorro, outra parte de mim se deliciava com a euforia de minha irracionalidade. Passei pela porta do quarto e, ao observar os olhos do meu reflexo no espelho, parei por um instante, buscando alguma orientao ou insight profundo. Na sabedoria de minha demncia, compreendi que meu corpo era, pela magnitude de seu desenho biolgico, um presente frgil e precioso. Era claro para mim que aquele corpo funcionava como um portal pelo qual a energia de quem eu era podia ser direcionada como um farol para um espao externo tridimensional.
      Aquela massa celular que era meu corpo me havia servido temporariamente como um lar maravilhoso. Aquele crebro fascinante havia sido capaz de integrar literalmente bilhes de trilhes de fragmentos de dados, em cada instante, a fim de criar para mim uma percepo tridimensional desse ambiente que parecia ser, na verdade, no somente sem emendas e verdadeiro, mas tambm seguro. Ali, naquela desiluso, estava hipnotizada pela eficincia dessa matriz biolgica que criava minha forma, e me senti fascinada com a simplicidade de seu desenho. Eu me vi como uma composio complexa de sistemas dinmicos, uma coleo de clulas interligadas capazes de integrar uma mistura de modalidades sensoriais oriundas do mundo externo. E, quando os sistemas funcionavam de maneira apropriada, manifestavam com naturalidade uma conscincia capaz de perceber uma realidade normal. Perguntei-me como podia ter passado tantos anos naquele corpo, naquela forma de vida, e nunca ter realmente entendido que estava ali apenas como uma visita.
      Mesmo naquela condio, a mente egosta do meu hemisfrio esquerdo retinha com arrogncia a crena de que, apesar de eu estar experimentando uma dramtica incapacidade mental, minha vida era invencvel. Otimista, acreditei que me recuperaria completamente dos eventos daquela manh. Sentindo-me um pouco irritada com aquela perturbao inesperada na minha agenda de trabalho, pensei: Tudo bem, estou sofrendo um derrame. Sim, isso  um derrame... mas sou uma mulher muito ocupada! Como no posso impedir esse derrame de acontecer, ento, tudo bem, vou me conformar por uma semana! Aprenderei o que preciso saber sobre como meu crebro cria minha percepo de realidade e depois cumprirei minha agenda, na semana que vem. Agora, o que vou fazer? Pedir ajuda. Preciso me manter focada e pedir ajuda.
      Para o reflexo no espelho, eu pedi: Lembre, por favor, lembre tudo que voc est sentindo! Permita que esse seja meu derrame de sabedoria sobre a desintegrao da minha mente cognitiva.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 3
      
      
    ARTICULAO DO 
    MEU SOCORRO
    
      Eu no sabia exatamente que tipo de derrame sofria, mas a m-formao arteriovenosa congnita que havia explodido em minha cabea espalhava uma grande quantidade de sangue pelo hemisfrio esquerdo do meu crebro. Com o sangue inundando os centros de pensamento superior do meu crtex cerebral esquerdo, comecei a perder a capacidade de cognio superior  uma habilidade preciosa naquele momento. Foi uma sorte eu poder lembrar que o melhor prognstico para algum que tem um derrame  transportar o paciente para o hospital o mais depressa possvel. Mas conseguir ajuda era um desafio, porque descobri que era quase impossvel me concentrar e manter a mente voltada para a tarefa. Surpreendia-me perseguindo pensamentos aleatrios que danavam para dentro e para fora do meu crebro e, infelizmente, tinha plena conscincia de no ser capaz de ater-me a um plano pelo tempo necessrio para execut-lo.
      Os dois hemisfrios do meu crebro haviam trabalhado meticulosamente bem juntos por toda minha vida, capacitando-me a funcionar no mundo. Mas agora, por causa das diferenas normais e da assimetria de funo entre os lados esquerdo e direito, sentia-me alienada das capacidades de clculo e lingustica do lado esquerdo do crebro. Onde estavam os nmeros? Onde estava minha linguagem?... O que havia acontecido com o papo do crebro, agora substitudo por uma envolvente e sedutora paz interior?
      Sem a linearidade associada s constantes diretivas do lado esquerdo do crebro, eu me esforava para manter uma conexo cognitiva com minha realidade externa. Em vez de um contnuo fluxo de experincia que podia ser dividido em passado, presente e futuro, cada momento parecia existir em perfeito isolamento. Nesse vazio de indicaes verbais, senti-me privada da sabedoria mundana e me desesperei, tentando manter um elo cognitivo entre meus momentos. Repetia de maneira obsessiva a nica mensagem que meu crebro podia sustentar: O que estou tentando fazer? Conseguir ajuda. Estou tentando traar um plano e conseguir ajuda.. O que estou fazendo? Preciso de um plano para conseguir ajuda. Tudo bem. Eu tenho de conseguir ajuda.
      Meu processamento de informao para acesso normal  informao do meu crebro antes do episdio daquela manh era mais ou menos assim: Eu me vejo sentada no meio do meu crebro, que est completamente tomado por arquivos. Quando procuro por um pensamento ou uma ideia na memria, examino os arquivos e identifico a gaveta correta. Assim que encontro o arquivo apropriado, tenho ento acesso a todas as informaes daquele arquivo. Se no encontro imediatamente o que procuro, coloco novamente o crebro no modo de busca e acabo tendo acesso aos dados corretos.
      Mas, naquela manh, meu processamento de informaes era completamente bizarro. O crebro permanecia perfeitamente alinhado com os arquivos, mas era como se as gavetas estivessem trancadas, como se o contedo estivesse fora de meu alcance. Eu sabia que conhecia tudo aquilo, que meu crebro guardava uma vasta riqueza de informao. Mas onde ela estava? A informao ainda estava l. Eu apenas no podia recuper-la. Perguntei-me se voltaria a me conectar com o pensamento lingustico, ou se recuperaria as imagens mentais de minha vida. Sentia-me triste por pensar que aquelas pores da minha vida poderiam estar perdidas para sempre.
      Destituda de linguagem e processamento linear, sentia-me desconectada da vida que havia vivido, e, na ausncia de minhas imagens cognitivas e de ideias expansivas, o tempo escapava de mim. As lembranas do passado no estavam mais disponveis para uso, o que me mantinha isolada, bloqueada da imagem mais ampla de quem eu era e o que fazia ali como forma de vida. Focada por completo no presente momento, meu crebro pulsante parecia estar amarrado, preso. E ali, nas profundezas da ausncia da temporalidade terrena, os limites do meu corpo terreno se dissolviam e eu me confundia com o Universo.
      Com a interrupo do funcionamento normal do lado esquerdo do crebro pela hemorragia, minha percepo foi libertada de sua ligao com a categorizao e o detalhe. Quando as fibras dominantes do meu hemisfrio esquerdo se desligaram, elas deixaram de inibir o hemisfrio direito, e minha percepo ficou livre para se alterar, de modo que a conscincia pudesse incorporar a tranquilidade do lado direito de mente. Inundada por um envolvente sentimento de libertao e transformao, a essncia da minha conscincia se alterou para um estado que era espantosamente semelhante  minha experincia em Thetaville. No sou especialista, mas acho que os budistas diriam que entrei no modo de existncia que eles chamam de nirvana.
      Na ausncia do julgamento analtico do hemisfrio esquerdo, fui completamente envolvida pelos sentimentos de tranquilidade, segurana, graa, euforia e oniscincia. Parte de mim queria ser completamente libertada do cativeiro daquela forma fsica, que latejava de dor. Mas, providencialmente, apesar da atrao daquela tentao persistente, algo dentro de mim permanecia comprometido com a tarefa de articular meu socorro, e essa parte perseverava para, em ltima anlise, salvar minha vida.
      Cambaleando, cheguei ao meu escritrio e reduzi a intensidade das luzes, porque o estmulo luminoso fazia meu crebro arder como se fosse realmente queimado por fogo. Quanto mais tentava me concentrar e me manter focada no que estava fazendo, no aqui e agora, mais intensa era a dor na cabea. Era necessrio um grande esforo s para me manter atenta, s para lembrar O que estou fazendo? O que estou fazendo? Providenciando socorro, estou tentando pedir ajuda! Oscilei entre momentos nos quais conseguia pensar com clareza (eu os chamo de "ondas de clareza") e outros de total incapacidade de pensamento.
      Sentindo que havia perdido a sincronia com a vida que conhecia, estava ao mesmo tempo perturbada e fascinada pelo que testemunhava como o sistemtico colapso da minha mente cognitiva. O tempo estava parado, porque o relgio que deveria fazer tique-taque no hemisfrio esquerdo do meu crebro, o relgio que me ajudaria a estabelecer a linearidade de meus pensamentos, agora estava silencioso. Sem o conceito interno de relatividade ou a atividade complementar do crebro que me ajudava a manter aquele movimento linear, eu me via flutuando de momento isolado para momento isolado. "A" no tinha mais nenhuma relao com "B" e "um" no era mais relativo a "dois". Sequncias desse tipo exigiam uma conexo intelectual que minha mente no podia mais estabelecer. At os clculos mais simples, por definio, requerem reconhecimento da relao entre diferentes entidades, e minha mente j no era capaz de criar combinaes. Ento, novamente, fiquei parada e aturdida, esperando pelo prximo pensamento intermitente ou onda de clareza. Antecipando a eventual chegada de uma ideia que me conectaria a alguma coisa na realidade objetiva, minha mente continuava repetindo O que estou tentando fazer?
      Por que no liguei para um nmero de emergncia? A hemorragia que aumentava em meu crnio estava posicionada diretamente sobre a poro de meu hemisfrio esquerdo que entendia o que era um nmero. Os neurnios que codificavam 1-9-3 agora nadavam em uma piscina de sangue, por isso o conceito no existia mais para mim. Por que no desci e pedi ajuda  dona do conjunto de apartamentos onde morava? Ela estava em casa em licena-maternidade e certamente teria me socorrido. Mas o arquivo dela, novamente, um detalhe no grande panorama da minha vida em relao queles que me cercavam, no existia mais. Por que no fui para a rua e no pedi socorro a um desconhecido? Essa ideia nunca passou pela minha cabea. Naquele estado de incapacitao, a nica opo que eu tinha era justamente aquela que eu tentava desesperadamente lembrar: como pedir ajuda?
      Tudo que eu podia fazer era sentar e esperar; sentar pacientemente com o telefone ao meu lado e esperar em silncio. E eu fiquei ali sentada, sozinha em casa com aqueles pensamentos passageiros que fugiam de mim, provocadores em suas idas e vindas. Fiquei sentada esperando por uma onda de clareza que permitiria a minha mente consciente conectar dois pensamentos e me dar uma chance de formar uma ideia, uma chance de executar um plano. Sentei-me em silncio entoando: O que estou fazendo? Pedir ajuda. Pedir ajuda. Estou tentando pedir ajuda.
      Na esperana de poder invocar conscientemente outra onda de clareza, coloquei o telefone sobre a mesa na minha frente e fiquei olhando para as teclas. Tentando lembrar um nmero para discar, meu crebro errante se esvaziou e divagou enquanto eu o forava a se concentrar e a prestar ateno. Pulsando, pulsando, pulsando. Caramba, minha cabea doa. Em um instante um nmero passou como num lampejo brilhante por minha mente. Era o nmero do telefone de minha me. Incrvel que eu conseguisse lembrar! Maravilhoso eu poder no s lembrar um nmero, mas saber de quem era. E como era impressionante, embora lamentvel, que, mesmo naquela condio precria, eu percebesse que minha me morava a milhares de quilmetros de distncia, e quanto seria imprprio ligar para ela. Pensei comigo: De jeito nenhum, no posso telefonar para minha me e dizer a ela que estou tendo um derrame! Isso seria horrvel. Ela ficaria apavorada! Preciso traar um plano!
      Em um momento de clareza, soube que, se telefonasse para o trabalho, meus colegas no Harvard Brain Tissue Resource Center me socorreriam. Se ao menos eu lembrasse o nmero do trabalho. E como era irnico que eu tivesse passado os ltimos dois anos cantando o jingle do Banco de Crebro para plateias de todo o pas, incluindo na letra "Disque 1-800-BrainBank para obter informaes, por favor". Mas, naquela manh, com todas aquelas lembranas alm do meu alcance, eu guardava apenas uma vaga ideia de quem eu era e o que estava tentando fazer. Posicionada na minha mesa numa bizarra neblina mental, continuei estimulando minha mente com a obsessiva repetio: Qual  o nmero do trabalho? Onde eu trabalho? No Banco de Crebros. Eu trabalho no Banco de Crebros. Qual  o nmero do telefone do Banco de Crebros? O que estou fazendo? Estou pedindo ajuda. Estou ligando para o trabalho. Muito bem, qual  o nmero do trabalho?
      Minha percepo normal desse mundo externo tem sido estabelecida de forma bem-sucedida pela troca constante de informao entre meus hemisfrios direito e esquerdo. Por causa da lateralidade cortical, cada metade do meu crebro especializou-se em funes ligeiramente variadas, e, quando reunidos, os hemisfrios podiam promover precisamente uma percepo realista do mundo externo.
      Apesar de ter sido uma criana brilhante com tremendo potencial para o aprendizado, meus dois hemisfrios nunca foram iguais em termos de habilidades naturais. Meu hemisfrio direito excedia em compreender o grande panorama de ideias e conceitos, mas meu hemisfrio esquerdo tinha de trabalhar muito para memorizar fatos e detalhes aleatrios. Como resultado, fui uma dessas pessoas que raramente escolhiam codificar de maneira cognitiva um nmero de telefone como uma sequncia aleatria de nmeros. Em vez disso, minha mente criava automaticamente algum tipo de padro, muito frequentemente um padro visual, ao qual eu associava a sequncia. No caso de nmeros de telefone, em geral eu memorizava o padro do desenho que ele formava no teclado. Em particular, sempre me perguntei como teria sobrevivido em um mundo de telefones de disco giratrio no qual esses truques esquemticos teriam sido muito mais difceis!
      Durante a juventude, minha mente esteve muito mais interessada em como as coisas eram intuitivamente relacionadas (hemisfrio direito) do que em como eram categoricamente diferentes (hemisfrio esquerdo). Minha mente preferia pensar em imagens (hemisfrio direito), em oposio  linguagem (hemisfrio esquerdo). S quando cheguei  graduao e comecei a me sentir fascinada por anatomia minha mente se superou em memorizao e direcionamento de detalhes. Depois de uma infncia processando informao por meio de estratgias de associao sensorial, visual e de padro, a trama do meu conhecimento ficava intimamente interligada. 
      O lado negativo desse tipo de sistema de aprendizado,  claro,  que s funciona quando todas as peas do esquema esto funcionando e interagindo de maneira apropriada. Naquela manh, enquanto eu permanecia ali sentada e tentava lembrar qual era o nmero do telefone do trabalho, recordei que havia algo nico no padro do cdigo de nosso escritrio. Algo como: meu nmero terminava com 1-0; que era o oposto exato do nmero de minha chefe, que terminava em 0-1; e os nmeros dos meus colegas ficavam entre um e outro. Mas meu hemisfrio esquerdo nadava em uma poa de sangue, por isso eu no conseguia ter acesso aos dados especficos do meu inqurito mental, e a linearidade da matemtica me escapava. Eu continuava pensando: O que h no meio, entre 01 e 10? Decidi que olhar para o teclado do telefone poderia ser til.
      Sentada  minha escrivaninha, coloquei o telefone diretamente na minha frente e esperei paciente por alguns momentos, aguardando a nova onda de clareza. Novamente entoei: Qual  o nmero do trabalho? Qual  o nmero do trabalho? Depois de vrios minutos segurando o fone e olhando para o teclado, uma lista de quatro dgitos apareceu repentinamente em minha mente... 2405! 2405! Repeti muitas vezes para mim mesma... 2405! Para no esquecer o nmero, peguei uma caneta e, com minha esquerda no dominante, anotei rapidamente a imagem que via em minha mente. Um "2" no era mais um "2", mas um rabisco que lembrava um "2". Felizmente, o "2" no teclado do telefone era como o "2" na minha mente, por isso rabisquei os garranchos que representavam o que eu via... 2405. De alguma forma, eu entendia que isso era apenas parte do nmero; qual era o restante? Havia um prefixo  alguma coisa antes. Ento, de novo, comecei a entoar: Qual  o prefixo? Qual  o prefixo do trabalho?
      Diante desse dilema, ocorreu-me que no era necessariamente uma vantagem que, quando estvamos no trabalho, s tivssemos de usar os nmeros das extenses. Por causa dessa falta de rotina de uso, o padro para o reconhecimento do meu prefixo no era codificado no mesmo arquivo em meu crebro que o restante dos nmeros de extenso. Assim, l fui eu de volta numa misso de recuperao de informao, e questionei: Qual  o prefixo? Qual  o prefixo do trabalho?
      Durante toda minha vida, eu havia estado exposta a nmeros de telefone com prefixos muito baixos: 232, 234, 332, 335 etc. Mas, agarrando-me a qualquer coisa que passasse por minha mente, qualquer possibilidade, o cdigo 855 cintilou como uma imagem visual. Inicialmente, pensei que esse era o prefixo mais absurdo que eu jamais vira, porque os nmeros pareciam altos demais. Mas, quela altura, qualquer coisa merecia uma tentativa. Antecipando a prxima onda de clareza, limpei a mesa diante de mim. Eram apenas 9hl5 da manh; eu estava somente quinze minutos atrasada para o trabalho, por isso ningum devia ter sentido minha falta. Com um plano em mente, esperei.
      Estava cansada. Sentia-me vulnervel e completamente fragmentada enquanto ficava ali sentada, esperando. Embora fosse distrada vrias vezes por um envolvente sentimento de estar unificada com o Universo, estava desesperada para pr em andamento meu plano e conseguir ajuda. Mentalmente, ensaiava muitas vezes o que tinha de fazer, o que ia dizer. Mas manter a mente sintonizada no que eu tentava fazer era como tentar segurar um peixe escorregadio. Tarefa um, manter o pensamento em mente; tarefa dois, executar a percepo interna no mundo externo. Prestar ateno. Segurar o peixe. Agarrar-se ao conhecimento de que isso  um telefone. Esperar. Esperar pelo prximo momento funcional de clareza! Continuava ensaiando mentalmente: Aqui  Jill Preciso de ajuda! Aqui  Jill. Preciso de ajuda!
      Esse processo j havia levado 45 minutos, tempo em que eu conseguira deduzir quem chamar e como pedir ajuda. Durante a onda seguinte de clareza, disquei o nmero comparando os rabiscos no papel aos nmeros no teclado do telefone. Para minha grande sorte, meu colega e bom amigo, Dr. Stephen Vincent, estava sentado  sua mesa. Ele pegou o fone, eu o ouvi falar, mas minha mente no podia decifrar suas palavras. Pensei: Oh, meu Deus, para mim,  como um golden retriever falando! Percebi que meu hemisfrio esquerdo estava to danificado que no podia mais entender a fala. Porm, estava to aliviada por ter conseguido me conectar a outro ser humano, que balbuciei:
       Aqui  Jill. Preciso de ajuda!
      Bem, pelo menos foi isso que tentei falar. O que saiu da minha boca soou mais parecido com grunhidos e gemidos, mas felizmente Steve reconheceu minha voz. Ficou claro para ele que eu estava com problemas. (Aparentemente, todos aqueles anos resmungando pelos corredores no trabalho me haviam conferido um grunhido reconhecvel.)
      Fiquei chocada, porm, quando percebi que no era capaz de falar de maneira inteligvel. Embora pudesse me ouvir falar com clareza no interior da minha mente  Aqui  Jill, preciso de ajuda! , os sons que brotavam da minha garganta no combinavam com as palavras no meu crebro. Fiquei perturbada por compreender que meu hemisfrio esquerdo estava ainda mais danificado do que eu havia percebido. Embora o hemisfrio esquerdo no conseguisse decifrar o significado das palavras que ele dissera, o hemisfrio direito interpretava os sons suaves em sua voz como uma mensagem que significava que ele mandaria ajuda.
      Finalmente, naquele momento, consegui relaxar. No precisava entender os detalhes do que ele faria. Sabia que havia feito tudo que podia fazer; tudo que algum poderia esperar que eu fizesse para me salvar.
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 4
      
      
    MEU RETORNO  QUIETUDE
    
      Sentada e quieta no silncio de minha mente, satisfeita por saber que Steve mandaria ajuda, me senti aliviada por ter sido capaz de articular com sucesso meu socorro. O brao paralisado estava parcialmente recuperado e, apesar da dor, eu tinha esperana de que a recuperao fosse completa. Porm, mesmo naquele estado prejudicado, sentia que devia entrar em contato com minha mdica. Era evidente que seria necessrio um tratamento de emergncia que, eu tinha quase certeza, seria muito caro, e considero muito triste que, mesmo naquela situao de total incapacidade mental, eu ainda soubesse o suficiente para me preocupar com a burocracia do convnio e saber que os custos poderiam no ser cobertos caso algum me levasse ao hospital errado.
      Ainda sentada diante da mesa no escritrio, com o brao esquerdo funcional, peguei a pilha de cartes que havia colecionado nos ltimos anos. S havia visitado minha atual mdica uma vez, cerca de seis meses antes, mas me lembrava de que o nome dela tinha algo de irlands. St. alguma coisa, St. alguma coisa... Comecei a procurar por minhas associaes. Conseguia ver com o olhar da mente o smbolo do braso de Harvard no centro e no alto do carto. Satisfeita por poder recordar como era exatamente a aparncia do carto, pensei: Muito bem, tudo vai dar certo; s preciso encontrar o carto e dar o telefonema.
      Para meu espanto, porm, enquanto olhava para o carto no alto da pilha, percebi que, embora tivesse uma ntida imagem mental do que estava procurando, no conseguia discriminar nenhuma das informaes contidas no carto diante de meus olhos. Meu crebro no distinguia mais escrita como escrita, ou smbolos como smbolos, ou mesmo fundo como fundo. Em vez disso, o carto era como uma imagem abstraia de pixels. Toda a cena era uma mistura uniforme das peas que a constituam. Os pontos que formavam os smbolos de linguagem se misturavam de maneira homognea com os pontos do fundo. Distines de cores e limites j no eram mais registradas por meu crebro.
      Desanimada, percebi que minha habilidade de interagir com o mundo exterior se havia deteriorado mais do que eu imaginava. Meu contato com a realidade normal deixara de existir como antes. No conseguia mais perceber as indicaes mentais de que dependia para discriminar objetos visualmente. Alm da incapacidade de identificar meus limites fsicos e da ausncia de um relgio interno, agora me percebia como um fluido. Associado  perda da memria de curto e longo prazo, havia o sentimento de que no estava mais presa ao mundo externo, segura nele.
      Que tarefa monumental era simplesmente ficar ali sentada, no centro da minha mente silenciosa, segurando aquele mao de cartes e tentando lembrar: Quem sou eu? O que estou fazendo? Procurando por alguma ligao com a realidade externa, havia perdido todo senso de urgncia. Porm, de maneira surpreendente, meu lobo frontal lutava de modo corajoso para se manter focado na tarefa, e eu ainda tinha uma ou outra onda de clareza que me conduzia de volta ao reino terreno pela dor fsica. Durante os momentos de clareza, era capaz de ver, identificar, lembrar o que estava fazendo, e podia discriminar novamente entre os variados estmulos que me atingiam. Ento, com confiana, eu seguia em frente. No  esse carto, no  esse carto, no  esse carto. Levei mais de 35 minutos para examinar menos de meia dzia de cartes, at finalmente reconhecer o braso de Harvard.
      quela altura, porm, o conceito de um telefone era algo bizarro e interessante para mim. Eu me sentia estranhamente removida da capacidade de compreender o que devia fazer com ele. De alguma maneira, entendia que aquela "coisa" no meu espao me conectaria por meio de um fio a outro espao completamente diferente. E, na outra extremidade do fio, haveria uma pessoa com quem eu falaria e que me entenderia. Uau! Imagine s isso!
      Por temer perder o foco e confundir o carto do mdico com os outros, limpei a superfcie da mesa diante de mim e coloquei o carto bem no centro daquela clareira. Peguei o telefone e posicionei o teclado  direita do carto, bem perto dele. Meu crebro vivia um estvel processo de deteriorao, por isso a aparncia do teclado agora era completamente estranha e desconhecida. Fiquei ali sentada, entrando e saindo do meu insubordinado lado esquerdo da mente, tentando manter a calma. De tempos em tempos, conseguia comparar os rabiscos que formavam o nmero no carto com os rabiscos no teclado do telefone. Para no perder de vista os nmeros que eu j havia teclado, eu cobria o dgito no carto com o indicador esquerdo assim que o introduzia no teclado do telefone, o que fazia usando meu descoordenado e enrijecido indicador direito. Tinha de ser assim, porque, de um momento para o outro, eu no lembrava que nmeros havia teclado. Repeti essa estratgia at todos os nmeros terem sido inseridos no aparelho, e ento pus o fone perto do ouvido e escutei.
      Esgotada e desorientada, tive medo de esquecer o que estava fazendo, por isso continuava repetindo mentalmente: Aqui  Jill Taylor. Estou tendo um derrame. Aqui  Jill Taylor. Estou tendo um derrame. Mas, quando o telefone foi atendido e eu tentei falar, fiquei apavorada ao perceber que, embora pudesse me ouvir falar com clareza dentro da minha mente, nenhum som saa de minha garganta. Nem mesmo os grunhidos que eu havia conseguido produzir antes. Fiquei desesperada. Oh, meu Deus! No posso falar! No posso falar! E foi s nesse momento, quando tentei falar em voz alta, que eu percebi que no podia. Minhas cordas vocais eram inoperantes e nada, nenhum tipo de som, saa de meu corpo.
      Como se fosse uma bomba de oxignio, empurrei o ar com fora para fora do meu peito e inspirei profundamente, repetindo o procedimento vrias vezes, tentando fazer algum rudo ou produzir um som qualquer. Percebendo o que fazia, pensei: Eles vo achar que se trata de um telefonema obsceno! No desligue! Por favor, no desligue! Continuei empurrando o ar para fora, levando-o para dentro, forando peito e garganta a vibrarem, at que finalmente consegui emitir sons como "Uhhhh, uhhhhhh, aaaaaaa... quiiiiiiiiiii". A chamada foi imediatamente transferida para a sala da mdica, que, milagrosamente, estava em seu consultrio aguardando a prxima consulta. Com a pacincia de uma alma boa, ela ficou ouvindo enquanto eu tentava enunciar:
      - Aqui  Jill Taylor. Estou tendo um derrame. 
      Depois de um tempo, minha mdica entendeu o suficiente da mensagem para compreender quem eu era e o que acontecia. Ela me orientou a ir para o hospital Mount Auburn. Porm, enquanto ela falava, eu podia ouvir as palavras, mas no era capaz de apreender seu significado. Desanimada, pensei: Se ela falasse mais devagar, se pronunciasse as palavras de maneira mais clara, talvez eu conseguisse entender. Com esperana, pedi, numa articulao semicompreensvel: 
      - De novo?
      Preocupada, ela repetiu a orientao sobre o hospital para onde eu deveria ir. E, mais uma vez, no consegui compreender. Com pacincia e compaixo genunas por meu evidente colapso neurolgico, ela repetiu a orientao. Mas eu no conseguia atribuir significado aos sons e tirar sentido deles. Irritada com minha incapacidade de entender a linguagem simples, operei novamente minha bomba vocal e consegui comunicar de alguma forma que o socorro estava a caminho, e que voltaramos a telefonar.
      quela altura, no era preciso ser neurocientista para entender o que acontecia em meu crebro. Quanto mais tempo o sangue continuasse jorrando e encharcando o tecido do crtex, maior seria o dano e mais incapacitada eu ficaria. A MAV explodiu perto da poro mdio-posterior do crtex cerebral no hemisfrio esquerdo, mas, naquele ponto, as clulas do meu lobo frontal esquerdo  responsvel pela minha capacidade de gerar linguagem  tambm estavam comprometidas. Era previsvel que, com o sangue interrompendo o fluxo da troca de informaes entre meus dois centros de linguagem (na rea anterior para Broca, e na posterior para Wernicke), eu no pudesse criar ou expressar linguagem, nem entend-la. Naquele momento, porm, minha maior preocupao era que as cordas vocais no respondiam aos sinais mentais. Ainda temia que os centros nas pontes do tronco cerebral, entre eles o da inspirao, estivessem em risco.
      Sentindo-me derrotada e cansada, desliguei o telefone. Levantei-me da cadeira, envolvi a cabea com um leno para impedir que a luz atingisse meus olhos, e, imaginando a maaneta da porta, comandei lentamente meu corpo, passo a passo, manobrando-o pelos degraus da escada e arrastando o traseiro pelos degraus. Ansiosa por companhia, no mais preocupada com o que me sentia compelida a fazer, voltei  sala de estar e me sentei no sof para acalmar minha mente exausta.
      Desanimada e sozinha, senti o desconforto na minha cabea latejante, e comunguei com minha leso enquanto reconhecia a degenerao da minha conexo com essa vida. A cada momento que passava, sentia que a ligao com meu corpo enfraquecia. Sentia que minha energia se esvaa daquele frgil continer, entorpecendo as extremidades distais dos dedos das mos e dos ps. Podia ouvir o maquinrio do meu corpo, as engrenagens rangendo e gemendo enquanto minhas clulas tentavam manter sistematicamente a vida, e temia que minha mente cognitiva estivesse se tornando to incapacitada, to desligada de sua capacidade normal de funcionamento, que a incapacidade fosse permanente. Pela primeira vez na vida, compreendi que no era invencvel. Diferente de um computador, que podia ser desligado e depois reiniciado, a riqueza de minha vida dependia no s da sade da estrutura celular, mas da integridade da capacidade de meu crebro em transmitir por meio de impulsos eltricos e comunicar suas diretivas.
      Pequena diante daquela situao de pavor, lamentei a perda da vida e antecipei a morte e a degenerao da minha matriz celular. Apesar da presena imponente e abenoada do lado direito de minha mente, lutava com desespero para me apegar a quaisquer conexes conscientes que ainda restassem no hemisfrio esquerdo. J entendia claramente que no era mais um ser humano normal. Minha conscincia no retinha mais as funes de discriminao do lado esquerdo do crebro, dominante e analtico. Sem aqueles pensamentos inibidores, havia ido alm da percepo de mim mesma como indivduo. Sem o lado esquerdo do crebro disponvel para me ajudar a me identificar como um organismo complexo feito de mltiplos sistemas interdependentes, ou para me definir como uma distinta coleo de funes fragmentadas, minha conscincia se aventurava livre pela pacfica esfera divina do lado direito de minha mente.
      Sentada ali no silncio, ponderando sobre minhas novas percepes, imaginei quanto poderia ficar incapacitada antes de a perda tornar-se permanente. Contemplei quantos circuitos eu poderia perder e a que distncia poderia ficar de minhas habilidades cognitivas superiores antes de perder a esperana de recuperar o funcionamento normal. No havia chegado to longe para morrer ou me tornar mentalmente vegetativa! Ento, segurei a cabea entre as mos e chorei. Chorando, cerrei os punhos e rezei. Rezei pedindo paz no meu corao. Rezei pedindo paz em minha mente, e rezei: Por favor, Grande Esprito, no apague minha vida. E, no silncio, minha mente implorava: Aguente firme. Fique quieta. Fique calma. Aguente firme.
      Fiquei sentada na minha sala de estar pelo que pareceu uma eternidade. Quando Steve surgiu na porta, no houve uma troca de palavras. Eu lhe entreguei o carto da mdica, e Steve telefonou imediatamente para receber as instrues. Com prontido impecvel, ele me amparou e me levou ao carro dele, onde me acomodou e me prendeu com o cinto de segurana, reclinando o assento. Depois, envolveu minha cabea com o leno para me proteger da luz. Steve falava em voz baixa, dava tapinhas encorajadores no meu joelho, e dirigia para o Mount Auburn Hospital.
      Ao chegarmos l, ainda estava consciente, mas delirante. Eles me puseram em uma cadeira de rodas e me levaram para a sala de espera. Steve estava claramente perturbado com a indiferena da equipe  gravidade da minha situao, mas, obediente, preencheu todos os formulrios e me ajudou a assinar meu nome. Enquanto espervamos pela nossa vez, eu sentia que a energia do meu corpo se deslocava e, como um balo, murchava sobre mim mesma, passando a uma condio de semiconscincia. Steve insistia para que eu recebesse atendimento imediato.
      Fui levada para a sala de tomografia computadorizada. Eles me tiraram da cadeira de rodas e me deitaram sobre a maca. Apesar da dor latejante na cabea, um pulsar que parecia ressoar nos sons abafados do motor da mquina, tinha conscincia suficiente para sentir certa satisfao ao ouvir a confirmao do meu diagnstico. Estava mesmo sofrendo uma forma rara de derrame. Havia uma hemorragia massiva inundando o hemisfrio esquerdo do meu crebro. No me lembro disso, mas os registros mdicos apontam que recebi uma dose inicial de esterides para reduzir a inflamao.
      A ordem era transferir-me de imediato para o Massachusetts General Hospital. A maca onde eu estava foi empurrada para a porta do hospital, de onde foi carregada para o interior de uma ambulncia para a viagem por Boston. Lembro que um paramdico muito gentil me acompanhou na jornada. Ele me envolveu com um cobertor e arranjou uma jaqueta sobre meu rosto para proteger meus olhos. O toque da mo dele em minhas costas era confortante; sua bondade era um tesouro de valor inestimvel.
      Finalmente, estava livre da preocupao. Encolhi-me em posio fetal e fiquei quieta, esperando. Entendia que, naquela manh, havia assistido ao passo-a-passo da deteriorao do meu complexo circuito neurolgico. Sempre havia celebrado minha vida como uma magnfica manifestao fsica do meu DNA, e, oh, que colorida piscina gentica era aquela de onde eu brotara! Por 37 anos, havia sido abenoada por um mosaico gil de bioqumica eletrificada. E, como muitas pessoas, havia fantasiado que queria estar acordada quando morresse, porque queria testemunhar aquela importante transio final.
      Pouco antes do meio-dia, em 10 de dezembro de 1996, a vitalidade eltrica de minha massa molecular se tornou fraca, e, ao sentir o escoamento de minha energia, a mente cognitiva abriu mo de sua conexo e cedeu o comando  mecnica fsica de meu corpo. Isolada no fundo de um casulo com a mente silenciosa e o corao tranquilo, senti que toda minha energia se exauria. O corpo estava adormecido, e a conscincia se elevou para um nvel muito mais calmo de vibrao. Compreendi com clareza que no era mais a coregrafa dessa vida. Na ausncia da viso, da audio, do tato, do olfato, do paladar e do medo, senti meu esprito desistir de sua ligao com este corpo e fui libertada da dor.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 5
      
      
    COMPLETAMENTE EXPOSTA
     
      Quando cheguei  emergncia do Massachusetts General Hospital, fui levada para o centro de uma espiral de energia que s poderia descrever como uma colmeia efervescente. Meu corpo inerte estava pesado, terrivelmente fraco. Destitudo de toda energia, era como um balo que havia murchado com lentido. Mdicos e enfermeiros se moviam em torno de minha maca. As luzes intensas e os sons fortes castigavam meu crebro, exigindo mais ateno do que eu podia dar.
      "Responda, aperte, assine...", eles exigiam da minha semiconscincia, e eu pensava: Que absurdo! Ningum v que estou com um problema aqui? O que acontece com essa gente? Devagar! No consigo entender vocs! Tenham pacincia! Calma! Isso di! Por que toda essa confuso? Quanto mais eles se esforavam para me puxar para fora, maior era minha vontade de mergulhar fundo em busca da minha fonte pessoal de sustentao. Sentia-me acuada pelo toque de tantas mos, pelas luzes, pelos aparelhos frios; como uma lesma salpicada com sal, eu me desmanchava e murchava em resposta. Queria gritar, exigir que me deixassem em paz, mas minha voz permanecia calada. Eles no podiam me ouvir, porque no eram capazes de ler pensamentos. Desfaleci como um animal ferido, desesperada para escapar de toda aquela manipulao.
      Quando acordei pela primeira vez naquela tarde, fiquei chocada ao constatar que ainda estava viva. (Expresso minha profunda gratido aos profissionais que estabilizaram meu corpo e me deram outra chance de vida, embora ningum tivesse a menor ideia do que ou quanto eu poderia recuperar.) Vestia o costumeiro avental hospitalar e descansava em uma rea particular. A cama havia sido parcialmente erguida e minha cabea dolorida repousava sobre um travesseiro um pouco elevado. Destitudo da habitual nascente de energia, meu corpo jazia na cama como um amontoado de peas que eu no conseguia unir para formar um todo. No conseguia determinar em que posio estava, onde comeava e onde terminava. Sem o tradicional sentido dos limites fsicos, tinha a sensao de estar unificada com a vastido do Universo.
      Minha cabea pulsava com o latejar torturante que era como troves retumbantes, enquanto uma tempestade de luz branca se abatia com fora teatral na parte interna das minhas plpebras. Cada pequenina mudana de posio que eu tentava realizar exigia mais energia do que existia em minhas reservas. Inalar fazia arder minhas costelas, e a luz que penetrava em meus olhos queimava como fogo o meu crebro. Incapaz de falar, pedi a diminuio das luzes enterrando o rosto no lenol.
      No conseguia ouvir nada alm do pulsar cadenciado de meu corao, que batia to alto que os ossos vibravam de dor e os msculos se contorciam de angstia. Minha aguada mente cientfica no estava mais disponvel para registrar, relatar, detalhar e categorizar informaes sobre o espao externo tridimensional  minha volta. Queria chorar como um recm-nascido arrancado de sbito do tero e imerso em um ambiente de estimulao catica. Com a mente destituda de sua habilidade de acessar memrias e detalhes de minha vida prvia, ficou claro que agora eu era um beb, um recm-nascido em corpo de mulher. E, oh, sim, o crebro no estava funcionando!
      Ali, naquele cubculo na emergncia, podia sentir sobre meu ombro esquerdo a presena de dois colegas de profisso, que olhavam para uma imagem de tomografia computadorizada posicionada sobre uma caixa iluminada na parede. A imagem exibida continha vrias sees do meu crebro, e, embora no pudesse decifrar as palavras que meus colegas trocavam em voz baixa, a linguagem corporal comunicava a gravidade da situao. No era necessrio ter um Ph.D. em neuroa-natomia para adivinhar que o grande espao branco no meio da imagem do crebro no devia estar ali! Meu hemisfrio esquerdo nadava em uma piscina de sangue, e todo o crebro estava inchado em resposta ao trauma. 
      Numa prece silenciosa, refleti: No tenho mais que estar aqui. Desisto! Minha energia acabou e a essncia de meu ser escapou. Isso no  certo. No perteno mais a este lugar! Grande Esprito, agora estou em unio com o Universo. Uni-me ao fluxo eterno e estou alm do ponto de onde  possvel voltar a esse plano de vida, mas continuo presa aqui. A mente frgil deste continer orgnico se fechou e no est mais disponvel para ocupao inteligente! No h mais lugar para mim aqui. Livre de toda conexo emocional com qualquer um ou qualquer coisa alm de mim mesma, meu esprito estava livre para pegar uma onda no rio de correnteza bem-aventurada. Deixe-me sair! O grito ecoava no interior da minha mente. Desisto! Desisto! Queria escapar daquele recipiente de forma fsica, que s produzia dor e caos. Naqueles breves momentos, senti um enorme desespero por ter sobrevivido.
      Meu corpo estava frio, pesado, e doa muito. Os sinais entre mente e corpo eram to defeituosos que eu no conseguia reconhecer minha forma fsica. Sentia-me como um ser eltrico; uma apario de energia que cintilava em torno de um amontoado orgnico. Tornara-me uma pilha de restos, sobras, mas ainda retinha uma conscincia. Uma conscincia que era diferente daquela que eu havia conhecido antes, porm, porque meu hemisfrio esquerdo fora sobrecarregado com detalhes sobre como tirar algum sentido do mundo externo. Esses detalhes haviam sido organizados e impregnados como circuitos neuronais em meu crebro. Ali, na ausncia daquele circuito, sentia-me inanimada e esquisita. Minha conscincia fora alterada. Ainda estava ali; ainda era eu, mas sem a riqueza das conexes cognitivas e emocionais que minha vida havia conhecido. Ento, eu ainda era eu? Como podia ser a Dra. Jill Bolte Taylor, se no partilhava mais minhas experincias de vida, meus pensamentos e minhas ligaes emocionais?
      
      
      Lembro-me daquele primeiro dia do derrame com incrvel melancolia. Na ausncia do funcionamento normal de minha rea esquerda de associao e orientao, a percepo de meus limites fsicos no se limitava mais a onde minha pele encontrava o ar. Sentia-me como o gnio libertado da lmpada mgica. A energia de meu esprito parecia flutuar como uma enorme baleia que deslizava por um mar de euforia silenciosa. Melhor que o melhor dos prazeres que podemos experimentar como seres fsicos, essa ausncia de limite era uma sensao gloriosa. Enquanto minha conscincia existia em uma corrente de doce tranquilidade, ficava bvio que nunca seria capaz de espremer de volta a grandeza de meu esprito para o interior daquela pequenina matriz celular.
      Minha fuga para essa glria era uma magnfica alternativa ao terrvel sentimento de luto e devastao que eu experimentava cada vez que era trazida de volta em algum tipo de interao com o efervescente mundo a minha volta. Eu existia em algum espao remoto que parecia estar muito longe do meu processamento de informao normal, e era claro que o "eu" que havia me tornado no tinha sobrevivido quela catstrofe neurolgica. Entendia que aquela Dra. Jill Bolte Taylor havia morrido naquela manh, mas, dito isso, o que restara? Ou, com meu hemisfrio esquerdo destrudo, talvez eu devesse perguntar: quem era o hemisfrio direito*?
      Sem um centro de linguagem me dizendo: "Sou a Dra. Jill Bolte Taylor. Sou uma neuroanatomista. Moro nesse endereo e posso ser encontrada nesse nmero de telefone", eu no sentia mais nenhuma obrigao de ser ela. Era uma mudana bizarra na percepo, mas, sem seu circuito emocional me lembrando dos gostos e desgostos daquela mulher, sem seu ego central me lembrando de seus padres de julgamento crtico, eu no pensava mais como ela. De uma perspectiva prtica, considerando a extenso do dano biolgico, ser ela nem era mais uma opo!
      
         * No ingls, who was right? Trata-se de um trocadilho; o trecho poderia ser traduzido tambm como "quem estava certo?". Na traduo, o trocadilho perde o sentido. (N. da T.)
      Todo meu autoconceito se alterava, porque no me percebia mais como um indivduo, uma entidade slida com limites que me separavam das entidades  minha volta. Entendi que, num nvel mais elementar, era um fluido.  claro que era um fluido! Tudo que nos cerca, tudo que nos diz respeito, tudo entre ns, dentro de ns e sobre ns  feito de tomos e molculas que vibram no espao. Embora o ego central do centro de linguagem prefira definir o eu como individual e slido, muitos sabem que somos feitos de trilhes de clulas, gales de gua, e tudo em ns existe em constante e dinmico estado de atividade. Meu hemisfrio esquerdo havia sido treinado para me perceber como algum slido, separado dos outros. Agora, libertado daquele circuito restritivo, meu hemisfrio direito se regozijava em sua ligao com o fluxo eterno. No estava mais isolada e sozinha. Minha alma era to grande quanto o Universo e saltitava de alegria num mar sem limites.
      Para muita gente, pensar em si mesmo como um fluido, ou como almas to grandes quanto o Universo, conectado  energia de tudo que ,  algo que est fora da zona de conforto. Mas, sem o julgamento do meu hemisfrio esquerdo dizendo que eu era algum slido, a percepo de mim mesma retornou a seu estado natural de fluidez.  claro que somos, cada um de ns, trilhes e mais trilhes de partculas em suave vibrao. Existimos como sacos cheios de fluidos em um mundo fluido no qual tudo existe em movimento. Diferentes entidades so compostas de diferentes densidades de molculas, mas, em ltima anlise, cada pixel  composto de eltrons, prtons e nutrons, que executam uma delicada dana. Cada pixel, incluindo cada partcula de voc e de mim, e cada pixel de espao aparentemente entre um e outro,  matria atmica e energia. Meus olhos no podiam mais perceber coisas como coisas que estavam separadas umas das outras. Em vez disso, a energia de tudo se fundia em uma s massa. Meu processamento visual no era mais normal. (Eu comparo essa perspectiva maluca com pinturas impressionistas de pontilhismo.)
      Estava conscientemente alerta, e minha percepo era de que eu estava em movimento. Tudo no meu mundo visual se fundia, e, com cada pixel radiando energia, todos fluamos em massa, juntos como um. Era impossvel distinguir os limites fsicos entre objetos, porque tudo radiava energia semelhante. Isso deve ser comparvel a quando as pessoas tiram os culos ou usam colrio: os limites se suavizam.
      Naquele estado mental, eu no conseguia perceber a tridimemionalidade. Nada se destacava por estar mais perto ou mais longe. Se havia uma pessoa em p na porta, eu no conseguia distinguir sua presena at que ela se movesse. Era necessrio que houvesse alguma atividade para que eu soubesse que devia dar ateno especial a um conjunto particular de molculas. Alm disso, as cores no eram registradas por meu crebro como cores. Simplesmente, no podia distingui-las.
      Antes daquela manh, quando me sentia como algum slido, tinha a capacidade de experimentar a perda  fosse ela fsica, por morte ou ferimento, ou emocional, ou por sofrimento. Mas, naquela percepo alterada, era impossvel perceber perda fsica ou emocional, porque eu no era capaz de sentir separao ou individualidade. Apesar do trauma neurolgico, um inesquecvel sentimento de paz inundava todo meu ser e eu me sentia calma.
      Apesar de ter me alegrado naquela percepo de conexo com tudo que , eu repudiava a ideia de no ser mais um ser humano normal. Como existiria como um membro da raa humana com aquela acentuada percepo de que somos parte de tudo, e de que a energia da vida dentro de ns contm o poder do Universo? Como poderia me ajustar  sociedade se caminhasse na terra sem medo? Pelos padres da maioria, eu no era mais normal.  minha maneira nica, havia desafio e liberdade no reconhecimento de que nossa percepo do mundo externo e nosso relacionamento com ele so produtos do circuito neurolgico. Por todos aqueles anos de vida, havia sido realmente uma farsa, um produto da minha imaginao!
      Quando o guardio do tempo no meu hemisfrio esquerdo se desligou, a cadncia temporal natural da minha vida foi reduzida ao ritmo de uma lesma. Com a alterao da percepo de tempo, sa da sincronia com a colmeia que me cercava. Minha conscincia ficou  deriva numa distoro do tempo, impossibilitando minha comunicao ou meu funcionamento no ritmo habitual ou aceitvel da convivncia social. Passei a existir em um mundo entre mundos. No podia mais me relacionar com as pessoas do mundo exterior, mas minha vida no havia sido extinguida. No era s uma estranheza para os que me cercavam; por dentro, eu era uma estranheza para mim mesma.
      Sentia-me to distante da capacidade de mover meu corpo com algum propsito que realmente acreditava que nunca mais poderia fazer aquele amontoado de clulas realizar algo. No era interessante que, apesar de no poder andar ou falar, entender a linguagem, ler ou escrever, ou mesmo rolar meu corpo, eu soubesse que estava bem? A mente intelectual agora inacessvel do meu hemisfrio esquerdo no inibia mais a conscincia inata do que era a milagrosa fora da vida. Eu sabia que agora era diferente, mas em nenhum momento o lado direito de minha mente indicou que era "menos" do que havia sido antes. Era apenas um ser de luz radiando vida para o mundo. Sem levar em conta o fato de ter ou no um corpo ou um crebro que pudessem me conectar ao mundo dos outros, eu me via como uma obra-prima celular. Na ausncia do julgamento negativo do hemisfrio esquerdo, percebia-me perfeita, inteira e bela exatamente como eu era.
      
      
      Voc pode estar se perguntando como ainda me lembro de tudo que aconteceu. Quero apontar que, embora tenha estado mentalmente incapacitada, no perdi a conscincia. Nossa conscincia  criada por numerosos programas que rodam ao mesmo tempo. Cada programa d uma nova dimenso  capacidade de perceber coisas no mundo tridimensional. Embora eu houvesse perdido a conscincia do hemisfrio esquerdo, onde estava contido meu ego central e a capacidade de ver meu eu como uma entidade nica e slida separada de voc, retive as duas conscincias no hemisfrio direito, e tambm a percepo das clulas que compunham meu corpo. Um conjunto de programas havia deixado de funcionar, aquele que me lembrava momento a momento quem eu era, onde morava etc., mas as outras partes de mim permaneciam alerta e continuavam processando informao de modo instantneo. Na ausncia do tradicional domnio do hemisfrio esquerdo, outras partes do meu crebro emergiram. Programas antes inibidos agora estavam livres para rodar, e eu no estava mais presa  minha interpretao prvia de percepo. Com isso desvio da conscincia do hemisfrio esquerdo e do personagem que eu havia sido, o personagem que existia no hemisfrio direito emergiu com novo conhecimento.
      Quando outros contam a histria, porm, entendo que naquele dia estive muito mal. Era como um recm-nascido incapaz de entender a estimulao sensorial no espao fsico que me cercava. Era bvio que eu percebia o estmulo como doloroso. O som que penetrava nos meus ouvidos explodia no meu crebro, paralisando-o, de forma que, quando as pessoas falavam, eu no conseguia distinguir as vozes do rudo constante do ambiente. Do meu ponto de vista, todos gritavam juntos e ressoavam como um bando de animais selvagens descontrolados. No interior de minha cabea, eu sentia como se meus ouvidos no estivessem mais firmemente ligados ao crebro, e tinha a sensao de que informaes importantes escapavam pelas brechas.
      Queria comunicar que Gritar no me ajuda a entender melhor o que vocs dizem! No tenham medo de mim. Cheguem mais perto. Aproximem seu esprito generoso e bom. Falem mais devagar. Pronunciem com mais clareza. De novo! Por favor, tentem de novo! De-va-gar! Sejam bons comigo. Sejam meu porto seguro. Percebam que sou um animal ferido, no um animal estpido. Estou vulnervel e confusa. Seja qual for minha idade, sejam quais forem minhas credenciais, estendam a mo para mim. Respeitem-me. Estou aqui. Venham me encontrar.
      Antes, naquela manh, no havia pensado em articular meu socorro e salvar minha vida para passar o resto dela incapacitada. Porm, no fundo do meu ser, sentia a mente consciente to distante do corpo fsico que, sendo sincera, acreditava que nunca mais conseguiria recuperar minha energia, nem seria capaz de reengajar as complexas redes da trama celular e molecular do meu corpo. Sentia-me suspensa entre dois mundos, presa entre dois planos opostos de realidade. Para mim, o inferno existia dentro da dor daquele corpo ferido que fracassava miseravelmente em todas as tentativas de interagir com o mundo exterior, enquanto o paraso estava na conscincia que flutuava em eterno jbilo. Porm, dentro de mim, em algum lugar, havia um ser eufrico, extasiado por ter sobrevivido!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 6
      
      
    TERAPIA NEUROLGICA
    INTENSIVA
   
      Assim que a equipe da emergncia decidiu que eu no era mais uma emergncia, fui transferida para a UTI neurolgica. Tudo que eu sabia  que tinha um companheiro de quarto  minha direita, meus ps estavam virados para a porta e meu lado esquerdo estava perto de uma parede. Alm disso, no tinha muita conscincia, exceto de minha cabea e do brao direito, que continuavam doendo.
      Sentia as pessoas como pacotes concentrados de energia. Mdicos e enfermeiros eram conglomerados massivos de poderosos raios de energia que iam e vinham. Sentia-me pressionada por um mundo externo que no entendia como se comunicar comigo. Por no poder falar nem entender a linguagem, ficava sentada em silncio no acostamento da vida. Gostaria de ter recebido um dlar cada vez que fui submetida a um exame neurolgico naquelas primeiras 48 horas. Pessoas emitiam sons, cutucavam, apalpavam e buscavam repetidamente informaes neurolgicas. Minha energia era drenada por essas atividades contnuas. Teria apreciado se eles pudessem consolidar seus esforos e compartilhar a informao.
      Com essa mudana para o hemisfrio direito, tornei-me sensvel ao que os outros sentiam. No conseguia entender as palavras quando as pessoas falavam, mas podia ler muita coisa na expresso de um rosto ou na linguagem corporal. Prestei muita ateno a como a dinmica da energia me afetava. Percebi que algumas pessoas me levavam energia, enquanto outras a drenavam de mim. Uma enfermeira era muito atenciosa com as minhas necessidades: Eu estava aquecida? Precisava de gua? Sentia dor? Claro, eu me sentia segura quando estava sob seus cuidados. Ela estabelecia contato visual e criava um momento de cura. Outra enfermeira, que nunca estabelecia contato visual, arrastava os ps como se sentisse dor. Essa mulher me levou uma bandeja com leite e gelatina, mas no percebeu que minhas mos e meus dedos no conseguiam abrir as embalagens. Queria muito ingerir alguma coisa, mas ela no percebia minhas necessidades. Ela erguia a voz quando falava comigo, sem se dar conta de que eu no era surda. Naquelas circunstncias, sua indisponibilidade para estabelecer contato comigo me apavorava. No me sentia segura sob seus cuidados.
      O Dr. David Greer era um homem bondoso e gentil, um jovem genuinamente solidrio com a minha situao, algum que fazia um intervalo em sua atribulada rotina para se debruar sobre mim e falar com cuidado, em voz baixa. Ele tocava meu brao para me fazer entender que ia ficar bem. No podia entender suas palavras, mas era evidente que o Dr. Greer cuidava de mim. Ele entendia que eu no era estpida, embora estivesse incapacitada. Ele me tratou com respeito. Serei eternamente grata por sua bondade.
      
      
      Naquele primeiro dia, minha condio progrediu com rapidez em algumas reas, mas em outras o progresso foi nulo. A recuperao levaria anos, mas certas partes de meu crebro estavam intactas e avidamente engajadas na tentativa de decifrar os bilhes de fragmentos de dados que compunham o momento presente. A diferena mais notvel entre minha experincia cognitiva antes e depois do derrame foi o silncio dramtico que se instalou no interior de minha cabea. No que eu no pudesse mais pensar; eu simplesmente no pensava mais da mesma maneira. A comunicao com o mundo exterior no existia. A linguagem com processamento linear no existia. Mas pensar em imagens era algo que seguia inalterado. Colher fragmentos de informao, momento a momento, e depois ponderar sem pressa a experincia era algo que eu podia fazer. 
      Um dos mdicos me fez a pergunta:
       Quem  o presidente dos Estados Unidos? 
      Eu devia processar a questo e oferecer uma resposta, mas, para isso, precisava perceber que uma pergunta era feita para mim. Assim que compreendia que algum queria minha ateno, era necessrio que essa pessoa repetisse a questo de forma que eu pudesse focar os sons que eram emitidos, e ento tinha de prestar muita ateno ao movimento dos lbios. Como era muito difcil para os meus ouvidos distinguirem uma nica voz do rudo de fundo, era necessrio que a pergunta fosse repetida lentamente e pronunciada com clareza. Eu precisava de comunicao calma, clara. Podia ter uma expresso facial densa e parecer ignorante, mas minha mente estava muito ocupada concentrando-se na aquisio de novas informaes. As respostas surgiam devagar. Lentamente... Devagar demais para o mundo real.
       Prestar ateno ao que algum estava dizendo exigia grande esforo, e descobri que isso era cansativo. Primeiro, tinha de prestar ateno com os olhos e os ouvidos, e nenhum dos dois estava trabalhando com normalidade. Meu crebro tinha de capturar o som e depois compar-lo com um movimento labial especfico. Em seguida, era preciso tentar determinar se havia algum significado para aquelas combinaes de sons guardadas em algum lugar do meu crebro ferido. Assim que conseguia deduzir uma palavra, era preciso procurar por combinaes de palavras, e uma mente danificada pode levar horas realizando esse processo!
      O esforo necessrio para que eu prestasse ateno ao que algum estava dizendo era como o esforo que se tem de fazer para prestar ateno a algum falando em um telefone celular numa ligao ruim. Voc precisa se esforar tanto para ouvir o que a pessoa est dizendo que vai ficando impaciente, frustrado, e acaba desligando o telefone. Era esse tipo de esforo que eu precisava fazer para ouvir uma voz em um ambiente ruidoso. Disponibilidade e determinao eram os ingredientes com que eu tinha de colaborar em larga escala, e pacincia era o que se exigia daquele que desejava falar comigo.
      Para processar a informao, eu pegava as palavras-chave e as repetia muitas vezes em minha mente para no esquecer o som delas. Ento lanava-me em um processo de explorao para identificar um significado que combinasse com o som daquelas palavras: Presidente, presidente, o que  presidente? O que isso significa? Quando obtinha um conceito (imagem) do que era um presidente, seguia adiante para examinar o som de Estados Unidos. Estados Unidos, Estados Unidos, o que so Estados Unidos? O que isso significa? Assim que encontrava o arquivo que contivesse a pasta Estados Unidos, surgia mais uma imagem em minha mente. Ento, eu precisava unir as duas imagens  a de um presidente e a dos Estados Unidos. Mas o mdico no estava me perguntando nada que fosse realmente sobre os Estados Unidos ou sobre um presidente. Ele me pedia para identificar um homem especfico, e esse era um arquivo completamente diferente. Como meu crebro no conseguia passar de "presidente" e "Estados Unidos" a "Bill Clinton", eu desisti  mas s depois de muitas horas de pesquisa e exaustiva ginstica mental.
      Minha capacidade de estabelecer relaes era avaliada de modo equivocado pela rapidez com que eu conseguia acessar a informao, no por como minha mente agia estrategicamente para recuperar a informao nela contida. Depois de todo esforo que eu havia investido na tarefa de tentar encontrar a resposta para a questo inicial, verifiquei que eram muitas as associaes disponveis para escolha. Como pensava em quadros, era preciso comear com uma nica imagem e depois expandir a partir dela. No podia comear pelo geral para encontrar o especfico sem explorar bilhes de possibilidades  isso era exaustivo. Talvez, se me houvessem feito uma pergunta sobre Bill Clinton especificamente, eu teria encontrado uma imagem de Bill e expandido o raciocnio a partir da. Se me houvessem perguntado: "Com quem Bill Clinton  casado?", eu teria localizado uma imagem de Bill Clinton, uma imagem de matrimnio e, espero, uma imagem de Hillary ao lado do marido. Quando usava imagens para percorrer na contramo o caminho de volta  linguagem, era impossvel partir do geral para um detalhe especfico.
      Para o observador comum, eu poderia parecer menos do que havia sido antes, porque no conseguia processar a informao como uma pessoa normal. Entristecia-me a incapacidade da comunidade mdica para se comunicar com algum na minha condio. O derrame  o principal incapacitante na nossa sociedade, e o nmero de ocorrncias no hemisfrio esquerdo  quatro vezes maior, causando prejuzo  linguagem. Considero de vital importncia que os sobreviventes de um derrame possam se comunicar e compartilhar como a estratgia do crebro se d, para que ocorra a recuperao. Assim, os profissionais da medicina seriam mais eficientes durante as primeiras horas de tratamento e avaliao. Eu queria que meus mdicos compreendessem como meu crebro estava trabalhando, em vez de tentar determinar se ele funcionava de acordo com seus critrios ou cronogramas. Ainda tinha muita informao, e teria simplesmente de encontrar um meio de ter acesso a ela novamente.
      Era realmente fascinante me observar e me sentir durante aqueles estgios iniciais de recuperao. Devido  minha formao acadmica, eu conceitualizava intelectualmente meu corpo como uma compilao de vrios programas neurolgicos, mas s a partir daquela experincia com o derrame entendi realmente que todos temos a possibilidade de perder pedaos de ns mesmos, um programa de cada vez. Nunca havia considerado seriamente a hiptese de perder a cabea, em especial, o hemisfrio esquerdo da cabea. Gostaria de que houvesse uma maneira segura de induzir essa conscincia nas pessoas. Poderia ser esclarecedor.
      
      
      Imagine como seria ter cada uma de suas faculdades naturais sistematicamente removida da conscincia. Primeiro, imagine a perda da capacidade de compreender o som que penetra seus ouvidos. Voc no  surdo, apenas ouve todos os sons de maneira catica e barulhenta. Segundo, remova sua capacidade de ver as formas definidas de qualquer objeto no espao. Voc no  cego, simplesmente no consegue enxergar de maneira tridimensional, ou identificar cores. No consegue acompanhar objetos em movimento ou distinguir limites claros entre eles. Alm disso, cheiros comuns tornam-se to amplificados que o sufocam, dificultando o ato simples de respirar.
      Incapaz agora de perceber temperatura, vibrao, dor ou propriocepo (a posio de seus membros), voc tem alterada a conscincia de suas fronteiras fsicas. A essncia de sua energia se expande e ela se mistura  energia  sua volta, e voc sente que  to grande quanto o Universo. Aquelas pequenas vozes no interior da sua cabea, que lhe lembram sempre quem voc  e onde mora, se calam. Voc perde a conexo da memria com seu velho eu emocional, e a riqueza desse momento, do aqui e agora, cativa sua percepo. Tudo, incluindo a fora de vida que  voc, radia energia pura. Com curiosidade infantil, seu corao flutua no espao e sua mente explora novas formas de nadar em um mar de euforia. Ento, pergunte-se: voc se sentiria motivado para voltar a uma rotina altamente estruturada?
      
      
      Dormi muito naquela tarde do derrame. Ou melhor, dormi tanto quanto algum consegue dormir em um hospital! Quando estava dormindo, era capaz de bloquear o constante fluxo de energia que bombardeava meus sentidos. Fechando os olhos, eu fechava tambm boa parte da mente. A luz era desconfortvel e meu crebro latejava em agonia quando algum apontava aquela caneta-lanterna para examinar meu reflexo pupilar. O IV no dorso da minha mo doa como sal sobre uma ferida aberta, e eu ansiava pela inconscincia, que me livrava daquelas dolorosas manipulaes. Assim, escapulia mergulhando no santurio da minha mente silenciosa... at o prximo exame neurolgico.
      Por trs da cena principal, Steve ligou para minha me G. G. (um apelido que vem de seu nome de solteira, Gladys Gillman) para inform-la sobre os eventos do dia. G. G. e Steve se conheciam havia anos das convenes anuais da Nami Nacional. Havia grande amizade e muito carinho entre eles. Tenho certeza de aquele foi um telefonema muito difcil para ambos. Steve conta que ligou para ela e lhe pediu que sentasse. Ele explicou que eu havia sofrido uma importante hemorragia cerebral no hemisfrio esquerdo, e que estava naquele momento no Massachusetts General Hospital. Ele garantiu que os mdicos haviam estabilizado o quadro clnico e que eu recebia o melhor atendimento possvel.
      Mais tarde, ainda naquele dia, minha chefe Francine ligou para G. G. e a incentivou a ficar por mais alguns dias para tomar todas as providncias a fim de poder viajar para Boston para uma estadia prolongada. Francine sabia que eu provavelmente teria de ser operada, e esperava que G. G. pudesse viajar para cuidar de mim. G. G. no hesitou. Ela havia passado dez anos tentando ajudar a curar a mente de meu irmo, inutilmente. Porm, sentia que podia ajudar a filha a superar o trauma neurolgico. G. G. transformou todos aqueles anos de frustrao por no ser capaz de curar a esquizofrenia de meu irmo em um plano para me ajudar a recuperar minha mente.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 7
      
      
    DIA DOIS: A MANH SEGUINTE
    
      Acordei cedo na manh seguinte, despertada pela entrada de uma jovem estudante de medicina que ia pegar um pronturio. Achei curioso que ela no houvesse sido informada de que eu sobrevivera a um derrame e no podia falar ou compreender a linguagem. Naquela manh percebi que a responsabilidade prioritria de um hospital deve ser a proteo dos nveis de energia de seus pacientes. Aquela jovem era uma vampira energtica. Queria tirar alguma coisa de mim, apesar de minha condio frgil, e no tinha nada para me dar em troca. Ela corria contra um relgio e,  bvio, perdia a corrida. Em sua pressa, era rspida na maneira como me tocava, e eu me sentia como um papel que houvesse cado da pasta de algum. Ela falava alto e depressa, e gritava comigo como se eu fosse surda. Fiquei quieta observando sua ignorncia e o absurdo da situao. Ela tinha pressa, e eu era uma sobrevivente de derrame. Uma associao nada natural! Ela poderia ter conseguido algo mais de mim, se tivesse me abordado com mais delicadeza, pacincia e bondade, mas como insistia que eu me enquadrasse no seu tempo e no seu ritmo, o encontro no foi satisfatrio para nenhuma de ns. Suas exigncias me irritavam e eu me sentia cansada. Percebi que teria de proteger minha preciosa energia com cautela e sabedoria.
      A maior lio que aprendi naquela manh foi que, com relao a minha reabilitao, eu tinha o controle do sucesso ou do fracasso daqueles que lidavam, comigo. Era minha deciso aparecer ou no. Decidi aparecer para os profissionais que me levavam energia, estabelecendo uma conexo, tocando-me com gentileza e de modo apropriado, fazendo contato visual direto, falando com calma. Respondia positivamente ao tratamento positivo. Os profissionais que no estabeleciam essa conexo roubavam minha energia, por isso eu me protegia ignorando as solicitaes que vinham deles.
      Tomar a deciso de me recuperar era uma escolha cognitiva difcil, complicada. Por outro lado, adorava a glria de me deixar levar pela corrente do fluxo eterno. E quem no gostaria? Era lindo ali. Meu esprito flutuava livre, enorme e pacfico. Dominada por uma alegria envolvente e serena, eu tinha de me perguntar o que significava realmente recuperar-me. Era evidente que havia algumas vantagens em ter um hemisfrio cerebral esquerdo funcional. Ele me permitiria recuperar a capacidade de interagir com o mundo externo. Naquele estado de incapacitao, porm, atender ao que eu percebia como caos era puro sofrimento, e o esforo que eu teria de fazer para recuperar-me... Bem, era essa minha prioridade?
      Sendo honesta, havia certos aspectos na minha nova existncia que eu preferia, comparando-os a como havia sido antes. No estava disposta a comprometer meu novo conhecimento em nome da recuperao. Gostava de ter descoberto que era fluida. Adorava saber que meu esprito era unificado com o Universo e acompanhava o fluxo de tudo que me cercava. Considerava fascinante estar em to completa sintonia com as dinmicas de energia e a linguagem corporal. Mas, acima de tudo, adorava o sentimento de profunda paz interior que inundava a essncia do meu ser.
      Ansiava por estar em um lugar no qual as pessoas lossem calmas e valorizassem minha experincia de paz interior. Devido ao aumento de minha empatia, descobri que era muito sensvel ao estresse das outras pessoas. Se recuperao significava que tinha de sentir o que eles sentiam o tempo todo, no estava interessada. Era fcil separar minhas "coisas" e emoes das "coisas" e emoes dos outros, escolhendo observar, mas no me engajar. Como colocou Marianne Williamson*: "Eu poderia me reintegrar  raa dos ratos sem me tornar rato outra vez?".
      
         * Marianne Williamson  autora, espiritualista e ativista em movimentos pela paz. (N. da T.)
      Andrew, outro estudante de medicina, apareceu naquela mesma manh para submeter-me a outro exame neurolgico. Eu estava insegura, fraca, no conseguia me sentar sozinha, muito menos ficar em p. Mas, como ele era gentil em seu toque, embora firme, senti-me segura em sua companhia. Ele falava com calma, me olhava diretamente nos olhos, e repetia o que falava sempre que fosse necessrio. Ele me respeitava como pessoa, mesmo naquela condio. Eu tive certeza de que ele seria um bom mdico. Esperava que fosse.
      A Dra. Anne Young, que naquele tempo era chefe do Departamento de Neurologia do Massachusetts General Hospital (eu a chamo Rainha da Neurologia), era minha neurologista. Tinha ouvido falar sobre a famosa Anne Young por anos quando trabalhava no Banco de Crebros de Harvard. Ela servira no Comit de Aconselhamento para o Banco de Crebros de Harvard e duas semanas antes, apenas, eu tivera o privilgio de me sentar ao lado dela em um almoo do Conselho no Encontro Anual de Neurocincia em Nova Orleans. No almoo, falei sobre a campanha de envolvimento da comunidade a que me dedicava com o objetivo de aumentar o nmero de doao de encfalos para pesquisa voltada  populao psiquiatricamente diagnosticada. A Dra. Young havia conhecido meu "eu profissional" naquele dia, e, quando me encontrou em sua visita matinal, estabelecemos imediatamente uma forte conexo.
      Entre os muitos circuitos que se haviam desligado no meu crebro, perdi a capacidade de sentir constrangimento, o que foi uma bno. Como uma mame ganso seguida pelos filhotinhos, a Dra. Young e seu grupo de estudantes de medicina chegaram a meu quarto para a ronda matinal. Sinto agora um profundo horror quando lembro que estava seminua, com o traseiro para o alto, no meio de um banho de esponja, quando a Rainha da Neurologia chegou acompanhada por seu grupo.
      Os olhos da Dra. Young eram suaves e bondosos, e ela sorriu quando me encarou diretamente. Quando se aproximou, tocou meu p, como um bom cavaleiro toca o traseiro do cavalo ao passar por trs dele. A Dra. Young me ajudou a encontrar uma posio confortvel. Depois, se colocou do meu lado, na altura do ombro, mantendo uma das mos apoiadas em meu brao, falando comigo em tom suave. No com os alunos, mas comigo. Ela se debruou sobre a cama e aproximou o rosto do meu para que eu pudesse ouvi-la. Eu no podia entender completamente suas palavras, mas compreendia sua inteno. Aquela mulher sabia que eu no era estpida, mas que estava ferida, e era claro que ela tinha noo de que era sua obrigao descobrir que circuitos ainda estavam ativos em mim e que partes precisavam de cura.
      A Dra. Young me perguntou respeitosamente se ela podia falar com seus alunos sobre o exame neurolgico, e eu concordei. A neurocientista que eu era falhou em todos os testes propostos naquele exame, mas a Dra. Young permaneceu a meu lado at ter certeza de que eu estava bem, de que no precisava mais dela. Quando j se retirava, ela afagou minha mo, depois meu p. Experimentei um imenso alvio por ela ser minha mdica. Senti que ela me entendia.
      Naquela manh, mais tarde, fui submetida a um angiograma que delimitou os contornos dos vasos no meu crebro. Precisvamos de uma imagem muito boa e exata do tipo de hemorragia que eu sofria, e o angiograma era o melhor exame para isso. Embora julgasse completamente absurdo que algum me pedisse para assinar um formulrio de autorizao naquelas condies, compreendi que poltica  poltica! Alis, como costumamos dizer, "mente s, corpo so", no  mesmo?
      
      
      Notcia ruim chega logo. A notcia sobre meu derrame percorreu os corredores do McLean Hospital e logo chegou s cadeiras da Nami. L estava eu, a mais jovem membro em territrio nacional eleita por eles, sofrendo um derrame aos 37 anos.
      Dois de meus colegas do Banco de Crebros foram me visitar na UTI naquela tarde. Mark e Pam levaram um ursinho de pelcia para eu abraar, e me senti grata pela delicadeza. Pude sentir a trepidao inicial, mas eles me levaram energia positiva e me encheram de confiana com palavras do tipo: "Voc  Jill; vai ficar bem". Essa confiana na minha completa recuperao foi muito importante para mim.
      Mas no final do dia dois eu havia acumulado fora suficiente em meu corpo para rolar para o lado, sentar-me na beirada da cama com ajuda e ficar em p com o apoio de algum. Essa atividade consumiu toda a energia que eu tinha, contudo era bom saber que eu fazia grandes progressos fsicos. Meu brao direito estava muito fraco e continuava doendo, mas eu conseguia moviment-lo usando os msculos do ombro.
      Ao longo do dia, minha energia se esgotou. Com o sono, o reservatrio de foras se encheu novamente, embora s um pouco, e eu usei essa energia tentando fazer ou pensar em alguma coisa. Assim que a reserva se esgotava, tinha de voltar a dormir. Aprendi com rapidez que no dispunha de fora duradoura, e, quando usava a pouca energia que conseguia acumular, caa exausta. Foi assim que descobri que tinha de prestar muita ateno ao ponteiro que indicava o nvel de energia no tanque. Teria de aprender como conserv-la e me dispor a dormir para restaur-la.
      O segundo dia terminou com uma visita de Steve, que trazia boas notcias. G. G. chegaria a Boston na manh seguinte. Inicialmente, no entendi o significado de G. G.  havia perdido o conceito de me. Passei o restante dos meus momentos de viglia naquela noite tentando unir me, me, me e G. G., G. G., G. G. Continuava repetindo as palavras para encontrar aqueles arquivos, abri-los e lembrar. No final, consegui entender o que significava o termo "me" e o que G. G. representava... o suficiente para me sentir animada com a chegada dela na manh seguinte.
      
      
      
    Captulo 8
      
      
    DIA TRS: 
    G. G, CHEGA  CIDADE
    
      Na manh do dia trs, fui transferida da UTI da neurologia para um quarto que dividi com um personagem muito interessante. Aquela mulher sofria surtos epilticos, e os mdicos envolveram sua cabea numa grande toalha branca, com muitos eletrodos e fios que brotavam da cabea em todas as direes. Os fios eram ligados a uma variedade de equipamentos de registro instalados perto da cama dela e, embora pudesse se mover de seu lado do quarto, entre a cama, a cadeira e o  banheiro, ela era uma imagem inesquecvel. Tenho certeza de que todos os meus visitantes se lembraram de Medusa quando a viram. Dominada pelo tdio, ela puxava conversa com todos que apareciam para me examinar ou cuidar de mim. Eu, por outro lado, estava desesperada por silncio e por um mnimo de estimulao sensorial. O barulho da tev do lado dela do quarto era uma dolorosa suco de minha energia. Decidi que aquele ambiente era totalmente contrrio ao que eu considerava intuitivamente provedor de cura.
      Havia muita agitao pairando no ar naquela manh. Meus colegas Francine e Steve j haviam chegado, o vrios mdicos se moviam pela rea imediata. O resultado do angiograma havia ficado pronto, e finalmente era hora de decidir meu plano de tratamento. Eu me lembro claramente do momento em que G. G. apareceu. Ela me olhou diretamente nos olhos e parou ao lado da cama. Era graciosa e calma; cumprimentou todas as pessoas que estavam no quarto e, depois, levantando meu lenol, deitou-se ao meu lado. Ela me abraou, e eu me senti derreter na familiaridade daquela carcia. Foi um momento fabuloso em minha vida. De alguma maneira, ela entendia que eu no era mais sua filha mdica de Harvard, mas voltava a ser seu beb. Ela diz que fez o que qualquer me teria feito, mas eu no tenho tanta certeza disso. Ter nascido de minha me foi minha primeira e maior bno. Nascer dela pela segunda vez tem sido minha maior sorte.
      Eu me sentia muito contente cercada pelo amor de minha me. Ela era bondosa e suave, e estava apavorada, era evidente, mas, no geral, senti-me bem em sua presena e gostei dela. Foi um momento perfeito para mim; quem poderia pedir algo mais? Havia um cateter em mim para que eu no tivesse de sair da cama, e aquela mulher maravilhosa entrava em minha vida e me cercava de amor!
      A conferncia comeou. As apresentaes foram feitas, os relatrios foram apresentados, e todos os principais personagens estavam presentes. A Dra. Young determinou o tom do encontro e se dirigiu a mim como se eu pudesse entender. Eu apreciava que ela no falasse com os outros sobre mim como se eu no estivesse ali. Primeiro, ela apresentou o Dr. Christopher Ogilvy, um neurocirurgio especializado em m-formao arterio-venosa. O Dr. Ogilvy explicou que o angiograma confirmava que meu crebro continha uma MAV, e essa m-formao congnita era responsvel pela hemorragia. Eu tinha um histrico de enxaquecas que nunca respondiam  medicao. Na verdade, os mdicos concluram que eu no sofria de enxaqueca, mas sofrera pequenos sangramentos ao longo dos anos.
      Embora eu no pudesse entender muito do que era dito ali, estava focada no que era transmitido pela linguagem no verbal. As expresses no rosto das pessoas, o tom de voz, como se posicionavam quando trocavam informaes, tudo isso era fascinante para mim. De um jeito engraado, sentia-me confortada por saber que a gravidade da minha situao promovia toda aquela confuso. Ningum criaria tamanha comoo s para descobrir que, no, no era realmente um derrame... eram apenas gases!
      A atmosfera no quarto era tensa quando o Dr. Ogilvy descreveu os problemas com os vasos sanguneos do meu crebro. Quando ele sugeriu que eu fosse submetida a uma craniotomia para remover o que restava da MAV e um cogulo do tamanho de uma bola de golfe, G. G. me soltou e seu nervosismo tornou-se bvio. Dr. Ogilvy continuou explicando que, se a MAV no fosse removida com cirurgia, havia grande chance de ocorrncia de uma nova hemorragia e, na prxima vez, eu poderia no ter tanta sorte, ou no receber ajuda a tempo.
      Sinceramente, no entendia todos os detalhes sobre o que eles pretendiam fazer, em parte porque as clulas do meu crebro que entendiam a linguagem estavam nadando em uma piscina de sangue, em parte porque a conversa se desenvolvia numa velocidade espantosa. Na minha condio, pensei ter entendido que eles planejavam passar um instrumento de suco da artria femoral at o crebro, onde seria removido o excesso de sangue e o ameaador emaranhado de vasos. Fiquei apavorada quando compreendi que, na verdade, a inteno deles era abrir minha cabea! Nenhum neuroanatomista de respeito permitiria que algum abrisse sua cabea. Intuitiva, para no dizer academicamente, compreendia que a dinmica da presso entre as cavidades torcica, abdominal e craniana tem um equilbrio to delicado que qualquer invaso mais importante, como uma craniotomia, com certeza enlouqueceria a dinmica de minha energia. Temia que, se abrissem minha cabea enquanto eu ainda estivesse energeticamente comprometida, nunca seria capaz de recuperar meu corpo ou minha cognio, mesmo que de modo parcial.
      Deixei bem claro para todos ali que jamais concordaria com esse tipo de procedimento. No o autorizaria. Ningum parecia entender que meu corpo ainda estava combalido, e eu no conseguiria sobreviver a outro golpe severo, mesmo que fosse calculado com muito cuidado. Ainda assim, sabia que estava vulnervel e  merc das pessoas naquela sala.
      A reunio acabou com a opo da craniotomia temporariamente adiada, embora fosse claro para todos ali (exceto para mim) que cabia a G. G. convencer-me a permitir a cirurgia. Com tremenda compaixo, G. G. percebeu meus temores e tentou confortar-me.
       Tudo bem, amorzinho, voc no precisa aceitar a cirurgia. Seja como for, vou cuidar de voc. Mas, se no permitir que removam essa MAV, vai haver sempre a possibilidade de outra hemorragia. Nesse caso, voc pode se mudar para a minha casa, e passaremos o resto da vida grudadas uma  outra!
      Minha me  uma mulher maravilhosa, mas passar o resto da vida grudada nela no era o que eu tinha em mente. Dois dias mais tarde, concordei com a cirurgia que removeria a MAV. A partir daquele momento, passou a ser meu dever fortalecer meu corpo para, em poucas semanas, sofrer um novo e duro golpe.
      
      
      Nos dias seguintes ao derrame, minha estamina ia e vinha em proporo direta  quantidade de sono e esforo. Logo aprendi que qualquer esforo era importante. No dia um, por exemplo, tive de balanar, balanar, e balanar ainda mais at conseguir me virar e rolar. Quando estava naquele estgio do balano, tive de reconhecer que balanar era a nica atividade que realmente importava. Focar meu esforo no objetivo final de me sentar no era inteligente, porque ia muito alm de minha capacidade naquele momento. Se eu decidisse que sentar era o objetivo, e depois tentasse e fracassasse repetidamente a cada tentativa, acabaria me desapontando com minha incapacidade e desistiria de tentar. Repartindo o esforo de me sentar em pequenos pedaos de balanar, rolar, erguer o corpo, e assim por diante, eu obtinha sucesso com regularidade ao longo do caminho - e comemorava de maneira apropriada com deliciosos cochiles. Portanto, era minha estratgia balanar e depois balanar um pouco mais. Assim que dominei a arte do balano frequente, tentei balanar com entusiasmo. Quando consegui balanar com facilidade, meu corpo fluiu para o movimento natural seguinte de rolar para cima. Novamente, concentrei meus esforos em rolar para cima, vrias vezes, e depois com vigor entusiasmado. Rolar para cima com entusiasmo me fez sentar, e eu gostei da satisfao contnua do sucesso.
      Essencialmente, tinha de dominar por completo o nvel de habilidade que eu podia desenvolver antes de seguir para o prximo passo. Para adquirir uma nova habilidade, precisava ser capaz de repetir aquele esforo com graa e controle antes de passar para a etapa seguinte. Cada pequena tentativa exigia tempo e energia, e cada esforo era seguido pela necessidade de dormir.
      No dia quatro, eu ainda passava a maior parte do meu tempo dormindo enquanto meu crebro tentava garantir estimulao mnima. No estava deprimida, mas meu crebro sofria uma sobrecarga sensorial e no podia processar a inundao de informaes. G. G. e eu concordamos que meu crebro sabia o que era necessrio para sua recuperao. Infelizmente, no  comum que sobreviventes de derrames possam dormir tanto quanto queiram. Mas, de minha parte, sentamos que dormir era o caminho que meu crebro encontrava para tirar "uma folga" da nova estimulao. Reconhecemos que meu crebro ainda estava fisicamente traumatizado e totalmente confuso com relao s informaes que chegavam pelo sistema sensorial. Concordamos que meu crebro precisava de tempo e quietude para entender o que havia experimentado. Para mim, dormir era preencher o tempo. Voc tem ideia do caos que pode invadir um escritrio quando voc no reserva um tempo para arquivar a papelada? Acontecia o mesmo com meu crebro. Ele precisava de tempo para organizar, processar e arquivar sua carga de hora em hora.
      Tinha de escolher entre esforos fsicos e cognitivos, porque ambos me esgotavam. No aspecto fsico, eu fazia grandes progressos para a recuperao de minha estabilidade bsica. J podia me sentar com facilidade agora, ficar em p e at caminhar um pouco pelo corredor com bastante ajuda. Minha voz, por outro lado, era fraca, j que eu no tinha fora para expelir o ar. O resultado era que eu falava num sussurro fraco e meu discurso era quebrado e difcil. Eu me esforava para encontrar a palavra certa e com frequncia confundia significados. Lembro-me de ter pensado em gua e falado leite.
      No campo cognitivo, eu me esforava para compreender minha existncia. Ainda no conseguia pensar em termos de passado ou futuro, por isso queimava muita energia mental tentando juntar os fragmentos de meu momento presente. Pensar era difcil, mas eu melhorava no aspecto cognitivo. Havia me acostumado ao mdico dizendo que eu tinha de lembrar trs coisas, e depois, no final do nosso tempo juntos, me pedindo para dizer quais eram essas trs coisas. G. G. diz que soube que eu ia ficar bem no dia em que ele me pediu para lembrar de: bombeiro, ma e 33 Whippoorwill Drive. Havia fracassado miseravelmente nessa tarefa naquele momento, mas decidi que naquele dia no prestaria ateno a mais nada do que ele dissesse e s repetiria as palavras em minha mente muitas e muitas vezes, retendo-as na memria at chegar a hora de recit-las. No final da visita, ele me pediu para lembrar os trs itens. Com confiana, eu articulei:
       Bombeiro, ma, e alguma coisa Whippoorwill Drive.
      Depois acrescentei que, embora no pudesse lembrar o endereo exato, eu subiria e desceria a rua batendo em todas as portas at encontrar a casa certa! G. G. suspirou aliviada quando ouviu isso. Para ela, isso indicava que meu crebro cheio de recursos estava de volta, e ela teve certeza de que eu seria novamente capaz de encontrar meu caminho no mundo.
      Naquele mesmo dia, Andrew chegou para sua visita diria, e um dos jogos que ele fazia comigo para avaliar minha aptido cognitiva era pedir para eu contar ao contrrio, partindo do cem, de sete em sete. Essa tarefa era particularmente difcil, porque as clulas do meu crebro que entendiam matemtica haviam sido destrudas de modo permanente. Pedi as primeiras respostas a algum e, quando Andrew repetiu aquela mesma solicitao, consegui fornecer trs ou quatro respostas corretas! Confessei de imediato a trapaa e revelei que no tinha a menor ideia de como solucionar o problema. Mas era importante para mim que Andrew entendesse que, embora certas pores de minha mente no pudessem funcionar, outras partes de meu crebro, nesse caso a parte que planejava e criava esquemas, compensaria as habilidades perdidas.
      No dia cinco, chegou a hora de ir para casa e me fortalecer para enfrentar a cirurgia. Uma fisioterapeuta me ensinou a subir uma escada com apoio, e depois fui deixada aos cuidados de G. G. Senti-me fisicamente em perigo quando minha me saiu dirigindo corno uma provinciana de Indiana no trfego do centro de Boston! Meu rosto estava coberto para bloquear a luz do sol. Eu rezei ao longo de todo o caminho para casa.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 9
    
      
    RECUPERAO E PREPARO 
    PARA CIRURGIA
      
      
      Em 15 de dezembro de 1996, voltei ao meu apartamento em Winchester, onde teria menos de duas semanas para me preparar para a cirurgia. Eu morava no segundo andar de um sobrado para duas famlias, por isso tive de me sentar e subir a escada arrastando o traseiro degraus acima. (No, no foi isso que a fisioterapeuta me ensinou!) Quando consegui chegar ao topo da escada, estava esgotada e meu crebro suplicava pelo sono. Estava em casa. Finalmente. Minha casa, onde eu poderia me enfiar em um buraco e hibernar sem interrupes extenuantes. Tudo em mim clamava pela quietude reparadora. Eu ca sobre minha cama de colcho de gua e apaguei.
      Foi uma bno ter G. G. cuidando de mim. Se voc lhe perguntar, ela vai dizer que no tinha ideia sobre o que precisava fazer, que apenas deixou as coisas acontecerem com naturalidade, passo a passo. Ela entendia intuitivamente que, para ir de A a C, eu precisava aprender A, depois B, e ento C. Era como se eu tivesse novamente o crebro de um beb e precisasse aprender tudo desde o comeo. Estava de volta ao bsico. Como andar. Como falar. Como ler. Como escrever. Como montar um quebra-cabea. O processo da recuperao fsica era como estgios do desenvolvimento normal. Eu tinha de percorrer cada estgio, dominar aquele nvel de habilidade, e depois o passo seguinte se desdobrava espontaneamente. De modo metdico, tinha de aprender a balanar, depois rolar, para ento poder me sentar. Tinha de me sentar e balanar para a frente antes de poder ficar em p. Tinha de ficar em p antes de poder dar o primeiro passo, e precisava estar relativamente estvel sobre os ps antes de poder subir a escada sozinha.
      Mais importante: precisava estar disposta a tentar. A tentativa  tudo. A tentativa sou eu dizendo para o meu crebro: Ei, dou valor a essa conexo e quero que ela acontea. Posso ter de tentar, tentar, e tentar novamente sem nenhum resultado mil vezes antes de ter um esboo de resultado, mas, se eu no tentar,  possvel que jamais acontea.
      G. G. deu incio ao processo de me ensinar a andar me levando para a frente e para trs da cama ao banheiro. Aquilo era exerccio suficiente para um dia! Depois, era voltar a dormir mais seis horas! Os primeiros dias foram assim. Dormir muito, gastar muita energia indo ao banheiro ou me alimentando, talvez um breve perodo para um abrao. Ento, era hora de voltar a dormir at a prxima rodada. Quando consegui dominar o trecho entre a cama e o banheiro, estabeleci como objetivo o sof da sala de estar, onde podia me sentar e comer. Aprender a usar uma colher com um mnimo de graa exigiu muito esforo.
      Uma das chaves para a minha recuperao foi que G. G. e eu ramos muito pacientes comigo. Nenhuma de ns lamentava o que eu no podia fazer; em vez disso, sempre nos alegrvamos com o que eu podia fazer. O lema favorito de minha me em tempos de trauma sempre havia sido "Podia ter sido pior!". E ns duas concordvamos. Por pior que minha situao pudesse parecer, ela poderia ter sido ainda pior. Tenho de reconhecer que G. G. foi maravilhosa durante esse processo. Sou a mais nova de trs filhos, e minha me era uma mulher muito ocupada durante meus primeiros anos. Para mim, foi realmente adorvel ter a chance de ser mimada novamente, de poder viver com aquele grau de dependncia. G. G. era persistente e generosa. Ela nunca erguia a voz ou me criticava. Eu estava doente, e ela entendia isso. Era afetuosa e amorosa, e no importava se eu "conseguia fazer". Ns nos envolvemos no processo de recuperao e cada momento trazia nova esperana e novas possibilidades.
      Para celebrar, mame e eu falvamos sobre minhas habilidades. Ela era generosa em me lembrar o que eu no havia conseguido no dia anterior, mas havia conseguido hoje. Era astuta e atenta para compreender o que eu podia fazer e que obstculo havia em meu caminho para alcanar o nvel seguinte na direo de meu objetivo. Comemorvamos todas as minhas realizaes. Ela me ajudava a definir com clareza qual era o prximo passo e o que eu precisava fazer para chegar l. Ela me mantinha motivada prestando ateno aos detalhes. Muitos sobreviventes de derrame reclamam por no estarem mais se recuperando. Sempre tento determinar se o verdadeiro problema  que ningum est prestando ateno s pequenas realizaes que so conquistadas. Se o limite entre o que voc pode e no pode fazer no  claramente definido, ento voc no sabe o que deve tentar em seguida A recuperao pode ser prejudicada pela falta de esperana.
      
      
*   *   *
      
      Eu tinha um colcho de ar que minha me inflou e usou para construir um pequeno dormitrio para ela mesma no cho da minha sala de estar. Ela cuidava de tudo. A lista de compras, os telefonemas, at as contas. Era atenciosa e me deixava dormir, dormir, e dormir ainda mais. Novamente, ns duas acreditvamos que meu crebro sabia o que era necessrio para sua recuperao. Como eu no estava dormindo devido a uma depresso, respeitvamos o poder de cura do sono.
      Em casa, deixamos meu crebro estabelecer a prpria rotina. Eu dormia por seis horas, e ficava acordada por 20 minutos. Geralmente, a mdia de tempo para um ciclo completo de sono  de 90-110 minutos. Se eu despertasse prematuramente em virtude de foras externas, tinha de voltar a dormir e recomear esse ciclo. Caso contrrio, acordava com uma severa dor de cabea, irritada, e no conseguia lidar com estmulos nem focar a ateno. Para proteger meu sono, eu dormia com fones de ouvido e G. G. mantinha baixo o volume da tev e do telefone.
      Depois de alguns dias dormindo muito, meus reservatrios de energia me permitiam permanecer acordada por perodos mais longos. Mame era muito habilidosa no planejamento e na execuo de todas as tarefas, e no havia desperdcio de tempo ou energia. Quando eu estava acordada, era uma esponja para o aprendizado, e ela punha algo nas minhas mos para eu fazer, ou exercitava meu corpo. Porm, quando eu queria dormir, reconhecamos que meu crebro havia atingido o nvel mximo de estimulao e precisava descansar para integrar os novos dados.
      Explorar a vida e recuperar arquivos com G. G. foi muito divertido. Ela aprendeu rapidamente que no havia utilidade em me fazer perguntas do tipo sim/no se ela quisesse saber em que eu estava pensando. Era muito fcil excluir alguma coisa sobre a qual eu realmente no me interessava e confundi-la. Para ter certeza de que gozava de minha completa ateno e de que eu estava exercitando a mente, ela formulava questes de mltipla escolha.
        Para o almoo  ela anunciava  voc tem sopa minestrone.
      E eu revirava meu crebro tentando determinar o que era uma sopa minestrone. Assim que eu entendia o significado dessa opo, ela continuava propondo outra alternativa:
       Ou voc pode comer sanduche de queijo grelhado. 
      Mais uma vez, eu explorava minha mente em busca do que era um sanduche de queijo grelhado. Assim que a imagem e a compreenso surgiam, ela prosseguia:
        Tem tambm salada de atum.
      Eu me lembro de ponderar atum, atum, atum, sem que nenhuma imagem ou compreenso surgisse. Ento, eu indagava:
       Atum?
      E mame, explicava:
        Atum, peixe do mar, salada de atum, uma carne branca misturada com maionese, cebola e alface.
      Como eu no conseguia encontrar o arquivo para salada de atum, essa era a escolha para o almoo. Essa era nossa estratgia quando eu no conseguia encontrar um antigo arquivo; crivamos um novo.
      O telefone tocava o tempo todo, e G. G. era muito competente em manter todo mundo informado sobre nossos sucessos dirios. Era importante que ela tivesse com quem conversar sobre como as coisas iam bem, e era til que ela pudesse me incentivar com aquela atitude positiva. Dia aps dia, minha me contava histrias que me faziam lembrar quanto j havamos progredido. s vezes um amigo ia me visitar, mas G. G. reconhecia que o intercmbio social esvaziava meu reservatrio de energia e me deixava totalmente esgotada, desinteressada pelo trabalho. Ela decidiu que manter minha mente focada era mais importante que receber visitas, por isso montava guarda em minha porta e limitava com severidade meu tempo social. A televiso tambm era um terrvel dreno de energia, e eu no podia falar ao telefone porque dependia completamente da leitura labial. Ns duas respeitvamos o que eu precisava fazer, ou no fazer, para me recuperar.
      De alguma maneira, entendamos com naturalidade que eu necessitava curar meu crebro e desafiar meus sistemas neurolgicos com rapidez, tanto quanto fosse possvel. Meus neurnios estavam danificados, mas, tecnicamente, poucos haviam morrido realmente. Eu no teria nenhuma terapia ocupacional, fsica ou da fala at algumas semanas depois da cirurgia, no de modo oficial, e, nesse tempo, meus neurnios estavam famintos por aprendizado. Os neurnios desabrocham e prosperam quando conectados em circuito com outros neurnios, mas morrem quando ficam isolados e sem estimulao. G. G. e eu estvamos muito motivadas para recuperar meu crebro, por isso tirvamos proveito de cada momento e de cada preciosa centelha de energia.
      Meu amigo Steve tinha duas filhas pequenas, e ele me emprestou uma coleo de livros e brinquedos. Na maleta havia quebra-cabeas e jogos infantis. G. G. agora (istava munida com um vasto repertrio de coisas com as quais me ocupar, todas apropriadas  faixa etria de meu desenvolvimento, e sua poltica consistia em exercitar-me sempre que eu estivesse acordada e com energia.
      Minha reserva energtica no discriminava entre atividade fsica e cognitiva. Usar energia era usar energia, e assim tivemos de criar uma estratgia equilibrada para recuperar tudo. Assim que me tornei capaz de andar pelo apartamento com alguma ajuda, G. G. me levou para uma turn por minha vida. Comeamos no espao de arte, uma sala preparada para o corte de vitrais. Olhei em volta, e fiquei fascinada. Todos aqueles vidros to lindos! Que delicioso! Eu era uma artista. Depois, ela me levou para minha sala de msica. Quando dedilhei as cordas do violo e do baixo, considerei a magia que existia em minha vida. Queria me recuperar.
      
      
      Abrir os velhos arquivos existentes em minha mente era um processo delicado. Eu me perguntava o que seria necessrio para recuperar todos aqueles arquivos que se alinhavam em meu crebro, que continham os detalhes de minha vida prvia. Sabia que eu conhecia todas aquelas coisas; s precisava descobrir como ter acesso s informaes novamente. Mais de uma semana havia transcorrido desde que meu crebro sofrera o severo trauma da hemorragia, mas as clulas nele ainda no eram capazes de funcionar de modo correto devido ao cogulo de sangue do tamanho de uma bola de golfe. Do meu ponto de vista, sentia que cada momento era rico em experincia e existia em absoluto isolamento. No instante em que eu me virava de costas, porm, estava em um novo momento de riqueza, e os detalhes do passado permaneciam em uma imagem ou em um sentimento, mas desapareciam rapidamente.
      Em uma manh, G. G. decidiu que eu estava pronta para montar um quebra-cabea infantil, por isso ps a caixa em minhas mos e me disse para olhar a figura na tampa. Depois, ela me ajudou a abrir a caixa para que eu pudesse retirar dela as peas. Meus dedos eram fracos e minha destreza era pobre, o que fazia da tarefa um excelente desafio. Eu era muito boa em imitao.
      G. G. me explicou que aquelas peas do quebra-cabea se encaixavam para criar a imagem existente na tampa da caixa. Ela me orientou a virar todas as peas para cima. Eu perguntei:
        O que  para cima?
      Ela ento pegou as peas e me mostrou como distinguir entre frente e verso. Assim que entendi a diferena, passei algum tempo inspecionando cada pea do quebra-cabea, e eventualmente as 112 peas foram postas na posio correta, com o desenho voltado para cima. Uau! Que sensao de realizao! Executar aquela simples tarefa fsica e mental era extremamente difcil, e, embora eu me sentisse exausta por ter sustentado to elevado nvel de concentrao e foco, estava animada e ansiosa para continuar.
      G. G. me orientou:
       Agora, pegue todas as peas que tiverem um lado reto.
      Eu perguntei:
        O que  um lado reto?
      Mais uma vez, ela pegou algumas peas e, com incrvel pacincia, me mostrou o desenho que eu devia procurar. Separei todas as peas que tinham um lado reto. E, uma vez mais, senti-me realizada e mentalmente fatigada.
      G. G. ento me disse:
        Quero que pegue essas peas que tm um lado reto, externas, e as junte com as peas internas. E quero que perceba que h diferenas de tamanho entre elas.
      Minha mo direita estava extremamente fraca, por isso o simples ato de segurar as peas e fazer algumas comparaes exigia muito esforo. Mame me observava com ateno e percebia que eu tentava encaixar peas que, era bvio, no se encaixavam, considerando o desenho de cada uma delas. Em um esforo para me ajudar, G. G. observou:
        Jill, voc pode usar a cor como pista.
      Eu pensei comigo: cor, cor, cor, e, como uma lmpada que se acendeu em minha mente, de repente consegui ver cor! Pensei: Oh, meu Deus, isso certamente tornar tudo mais fcil! Estava to esgotada que precisava dormir. Mas, no dia seguinte, voltei ao quebra-cabea e uni todas as peas usando as cores como indicao. Todos os dias nos alegrvamos com o que eu podia fazer no momento presente, e no havia conseguido no dia anterior.
      Ainda me espanta que eu no pudesse ver cor at ser orientada a us-la como uma ferramenta. Quem teria imaginado que meu hemisfrio esquerdo precisava ser informado sobre cor para registrar esse dado? Descobri que o mesmo processo era vlido para a viso tridimensional. G. G. teve de me ensinar que eu podia ver as coisas em planos diferentes. Ela apontava para mini como alguns objetos eram mais prximos ou mais afastados, e indicava que algumas coisas podiam ser postas na frente de outras. Foi preciso me ensinar que alguns itens, os que so posicionados atrs de outros, podem ter algumas de suas partes ocultas, e que eu podia fazer dedues sobre as formas dos objetos que no conseguia enxergar inteiramente.
      No final da minha primeira semana em casa, eu me movimentava muito bem pelo apartamento e estava bastante motivada a encontrar formas de exercitar meu corpo para torn-lo mais forte. Uma de minhas tarefas favoritas, mesmo antes do derrame, era lavar loua. Porm, naquelas condies, a loua se tornou um de meus maiores desafios. Equilibrar-me diante da pia e lidar com os pratos delicados e as facas perigosas era um avano e tanto, mas quem poderia imaginar que organizar um escorredor de loua exigia a habilidade de calcular? Como se constatou mais tarde, os nicos neurnios que realmente morreram na manh do derrame foram os capazes de compreender a matemtica. (Que ironia minha me ter passado a vida lecionando matemtica!) Eu conseguia lavar pratos, mas calcular como ajeitar toda aquela loua limpa e fazer tudo caber no pequeno espao do escorredor, bem, isso era algo que me espantava! Levei quase um ano para entender como aquilo funcionava.
      Adorava buscar a correspondncia na caixa de correio. Tbdos os dias, durante seis semanas, eu recebia de cinco a quinze cartes de pessoas que torciam por mini. Embora no pudesse ler o que estava escrito, eu me sentava no colcho de ar de G. G. e olhava para as imagens, tocava os cartes, e literalmente sentia o amor que radiava de cada mensagem. G. G. lia as mensagens para mini todas as tardes. Ns pendurvamos os cartes pelo apartamento e eu me via cercada por todo aquele amor nas portas, nas paredes, no banheiro, em todos os lugares. Era realmente maravilhoso receber aqueles cartes com mensagens cuja essncia era algo do tipo: "Dra. Jill, voc no me conhece, mas eu a conheci quando voc deu uma palestra em Phoenix. Por favor, volte para ns. Amamos voc, e seu trabalho  importante para ns", todos os dias eu recebia esse tocante incentivo sobre quem eu havia sido antes do derrame. No tenho dvida de que foi o poder desse apoio e amor incondicionais que me deu foras para enfrentar o desafio da recuperao. Serei sempre grata aos meus amigos e  famlia Nami por terem me ajudado e acreditado em mim.
      Reaprender a ler foi de longe a coisa mais difcil que eu tive de fazer. No sei se aquelas clulas no meu crebro morreram, mas no tinha nenhuma lembrana de ter lido antes, e considerava o conceito ridculo. Ler era uma ideia to abstrata que eu no podia acreditar que algum houvesse pensado nela, muito menos se esforado para conseguir realiz-la. Embora G. G. fosse uma tutora muito gentil e delicada, era persistente quanto ao meu aprendizado e colocou em minhas mos um livro chamado The Puppy Who Wanted a Boy (O Filhote Que Queria am Menino). Juntas, dedicamo-nos  mais rdua tarefa que eu podia imaginar: ensinar-me a tirar sentido da palavra escrita. Espantava-me como ela conseguia pensar que aqueles rabiscos tinham significado. Eu me lembro de minha me me mostrando um "S" e dizendo:
      -  Isso  um "S". 
      Eu respondia:
      -  No, me, isso  um rabisco. 
      E ela dizia:
       O rabisco  um "S" e tem som de "ssssss". 
      Eu pensava que a pobre mulher havia perdido a razo. Um rabisco era s um rabisco, e no tinha nenhum som!
      Meu crebro sofria com a tarefa de aprender a ler, e isso se estendeu por algum tempo. Eu tinha dificuldade para me concentrar em coisas mais complicadas. Pensar de maneira literal era difcil naquele primeiro estgio, mas saltar para algo abstrato era algo praticamente impossvel. Aprender a ler exigiu muito tempo e estmulo. Primeiro, tive de entender que cada rabisco possua um nome, e que cada rabisco tinha um som a ele associado. Depois, combinaes de rabiscos, ou melhor, letras, representavam combinaes especiais de sons (ch, nh etc.). Quando enfileirvamos todas as combinaes de sons, eles formavam um som nico (palavra) que tinha um significado ligado a ele. Caramba! Voc j parou para pensar sobre quantas pequenas tarefas seu crebro realiza nesse instante, s para voc poder ler este livro?
      Eu me empenhei muito para reaprender a ler, e meu crebro fazia progressos evidentes todos os dias. Comemoramos quando eu finalmente conseguia ler os sons (palavras) em voz alta, embora no demonstrasse ter nenhuma compreenso deles. Com o passar dos dias, minha apreenso do contedo geral da histria melhorou muito, e G. G. e eu nos sentimos motivadas a prosseguir.
      O passo seguinte,  claro, foi associar um significado ao som. Isso era particularmente difcil, considerando que eu j enfrentava grandes dificuldades para lembrar meu vocabulrio verbal. O cogulo de sangue pressionava as fibras que corriam entre meus dois centros de linguagem, de maneira que nenhum deles funcionava adequadamente. A rea de Broca na parte frontal do meu crebro tinha problemas para criar sons, enquanto a de Wernicke, na regio posterior, confundia os nomes. Aparentemente, havia um lapso importante no meu processamento de informao, e era comum eu no poder articular o que estava pensando. Embora pensasse que queria beber um copo de gua, e criasse em minha mente a imagem de um copo de gua, a palavra "leite" acabava saindo de minha boca. Era til que as pessoas me corrigissem, mas era de vital importncia que ningum terminasse minhas frases por mim ou me lembrasse sempre. Para que eu recuperasse essas habilidades, eu precisava encontrar esse circuito dentro da minha cabea, no meu tempo, e exercit-lo.
      
      
      Dia a dia, fui ficando mais forte e mais resistente ao exerccio fsico. A primeira vez que G. G. me levou para fora de casa foi uma fascinante experincia de aprendizado. Quando me vi na calada da frente, foi preciso me ensinar que as linhas no cimento do piso no eram relevantes, e que eu podia pisar nelas. Era preciso me dar esse tipo de informao, ou eu no sabia o que fazer. Depois, minha me teve de me explicar que a linha na beirada da calada era importante, porque havia ali um espao e grama, e eu podia torcer o tornozelo ou cair, se no prestasse ateno. Mais uma vez, eu no sabia disso. E havia a grama. Minha me teve de me mostrar que a textura da grama era diferente da textura da calada, e que pisar na grama era inofensivo, mas eu precisava prestar ateno e ajustar o equilbrio. G. G. me deixou sentir como era pisar na neve, e me segurou enquanto meus ps escorregavam no gelo. Se ia me exercitar ao ar livre, tinha de reaprender que cada uma daquelas texturas possua traos diferentes, caractersticas distintas, e oferecia perigos nicos. Ela continuava me lembrando:
       Qual  a primeira coisa que um beb faz com algo que voc lhe d?
      A resposta,  claro,  que ele pe o objeto na boca para senti-lo. G. G. sabia que eu precisava ter contato fsico direto com o mundo para aprender cinestesicamente. Ela era uma professora brilhante.
      A cirurgia seria um grande ataque  minha energia, e eu estava comprometida com a ideia de me tornar fisicamente capaz de suport-la. Sentia que havia perdido meu "brilho" quando a hemorragia aconteceu, e meu corpo parecia estar entorpecido e cansado. Era como se houvesse um vu que me separasse do mundo exterior. A Dra. Young garantiu que a remoo cirrgica do cogulo em meu crebro poderia alterar minha percepo e eu poderia me sentir "brilhar" outra vez. Imaginei que, se pudesse recuperar o brilho de meu esprito, ento no teria muita importncia quanto eu me recuperaria, e poderia me sentir feliz com o que quer que me acontecesse.
      Meu apartamento ficava em uma rua movimentada de Winchester, Massachusetts, e meu quintal dava para um complexo de apartamentos para idosos. A entrada da garagem para esse condomnio fazia uma curva, e G. G. me levava para caminhar por essa trilha. Nos primeiros dias eu no consegui ir muito longe, mas com perseverana finalmente conseguimos percorrer a curva completa. s vezes, quando o tempo permitia, dvamos duas voltas.
      Nos dias realmente frios e nos dias de neve fresca, G. G. me levava ao supermercado local para meu exerccio dirio. Ela fazia as compras, e eu caminhava pelos corredores. Aquele era um ambiente doloroso para mim por vrias razes. Primeiro, a intensidade das luzes fluorescentes era to grande que eu tinha de ficar olhando para baixo. G. G. me incentivava a usar culos escuros para reduzir o brilho, mas eles pouco faziam com relao  vastido do espao. Segundo, havia tanta informao escrita nas embalagens de comida que eu me sentia totalmente bombardeada pelos estmulos. Terceiro, a exposio a desconhecidos era emocionalmente difcil. Todos percebiam com facilidade que eu era uma mulher com algum tipo de problema. Meu rosto tinha aquela expresso parada, e meus movimentos eram muito deliberados e lentos, se comparados aos dos clientes normais. Muitas pessoas passavam por mim empurrando os carrinhos. Algumas reclamavam e resmungavam com o que eu interpretava como descaso. Era difcil me proteger das vibraes negativas do ambiente. Algumas vezes, um esprito bondoso me oferecia ajuda ou um sorriso. Descobri que enfrentar o mundo atribulado era assustador e intimidante.
      Fui apresentada  mecnica da vida diria acompanhando G. G. quando ela precisava fazer alguma coisa. Tornei-me seu filhotinho em treinamento, e, quando tinha energia suficiente, eu a seguia a todos os lugares. Quem poderia imaginar que uma visita  lavanderia automtica podia ser excelente para minha reabilitao? Depois de passar algum tempo no apartamento separando as roupas claras das escuras, embalvamos tudo com cuidado. Na lavanderia, esvazivamos as sacolas nas mquinas de lavar. G. G. punha em minha mo uma moeda de 25 centavos, depois punha outras duas de valores menores e diferentes. Eu no sabia nada sobre dinheiro, por isso aquela era uma excelente oportunidade para ela me ensinar mais uma lio. Outra vez, deparei com a ausncia das clulas de meu crebro que entendiam matemtica, e minha tentativa de lidar com algo to abstrato quanto dinheiro era deplorvel. Quando G. G. perguntou "Quanto  um mais um?", parei por um momento, explorei o contedo da minha mente, e respondi:
       O que  um?
      No entendia o conceito de nmeros, muito menos de dinheiro. Sentia-me como se estivesse em um pas estranho com uma moeda que no entendia.
      Repetidamente, G. G. e eu nos dedicvamos ao comportamento de imitao. As lavadoras terminavam os ciclos quase ao mesmo tempo, e de repente eu passava da desocupao total  atribulao excessiva. Primeiro tnhamos de esvaziar as mquinas. Depois, antes de esvaziarmos as secadoras, tnhamos de separar os itens mais pesados dos mais leves. G. G. explicou nossa estratgia e me mostrou como eu devia fazer. Para o meu nvel de energia, as mquinas de lavar representavam um desafio tolervel, mas, francamente, o grand finale nas secadoras era uma demanda maior do que eu podia atender cognitivamente! Era impossvel realizar a "dana da secadora"  tirar as peas secas e bater a porta com rapidez para manter a mquina girando. Eu me sentia confusa e desesperada, e queria me enfiar em um buraco, esconder a cabea e lamber minhas feridas. Quem poderia imaginar que uma lavanderia causaria tanto pnico em algum?
      O Natal se aproximava rapidamente, e G. G. convidou minha amiga Kelly para passar a data conosco. Juntas, ns trs decoramos meu apartamento. Na vspera de Natal, encontramos uma rvore pequena, e no dia de Natal comemoramos com um jantar no Denny's mais prximo. Foi o Natal mais simples e, ao mesmo tempo, o mais rico que G. G. e eu passamos juntas. Eu estava viva e me recuperava, e isso era tudo que importava.
      O Natal foi uma ocasio para me alegrar, mas dois dias depois eu me internaria no Massachusetts General Hospital para que abrissem minha cabea. Do meu ponto de vista, havia duas coisas que ainda precisava realizar antes da cirurgia. Urna era mental, e outra era fsica. Minha linguagem voltava com lentido, e eu considerava importante agradecer s centenas de pessoas que me mandavam cartes, cartas e flores. Sentia uma enorme vontade de lhes dizer que eu estava bem, agradecer pelas manifestaes amorosas e pedir que rezassem pelo que viria em seguida. Pessoas de todo o pas colocavam meu nome em listas de oraes e em crculos de preces que iam desde as igrejas locais at a lista do papa. Eu sentia muito amor sendo direcionado a mim, e queria compartilhar minha gratido enquanto ainda tinha alguma habilidade lingustica,
      A maior ameaa que a cirurgia oferecia no era somente a perda da linguagem que eu havia recuperado, mas a perda de toda e qualquer capacidade futura de me tornar lingisticamente fluente. Como o cogulo do tamanho da bola de golfe estava muito perto das fibras que corriam entre os dois centros de linguagem no meu hemisfrio esquerdo, era possvel que a linguagem fosse removida durante o processo cirrgico. Se os cirurgies tivessem de remover parte de meu tecido cerebral normal no processo de reparo da MAV, a consequncia poderia ser a perda permanente da fala. Eu havia progredido muito em minha recuperao, e por isso essa possibilidade me enchia de medo, mas, no fundo, sabia que, qualquer que fosse o desfecho do procedimento, com ou sem linguagem, eu ainda seria eu, e poderia recomear.
      Embora fracassasse miseravelmente na tentativa de ler e escrever com uma caneta (hemisfrio esquerdo; mo direita), podia me sentar diante do computador e digitar uma carta simples (dois hemisfrios; duas mos) que seguisse o fluxo do meu pensamento. Demorei muito tempo procurando as teclas, mas, de alguma maneira, minha conexo corpo-mente fez que isso acontecesse. Algo muito interessante nessa experincia foi que, depois de terminar de digitar a carta, eu no era capaz de ler o que havia acabado de redigir (hemisfrio esquerdo)! G. G. editou a carta e a enviou na noite seguinte  minha cirurgia, acompanhada por uma nota manuscrita. Desde a minha recuperao, ouvi falar em muitos sobreviventes de derrames que, mesmo sem poder falar (hemisfrio esquerdo), eram capazes de cantar as mensagens (dois hemisfrios). Fico impressionada com a capacidade de resistncia e a infinidade de recursos desse belo crebro em busca de uma maneira de se comunicar!
      Trabalhava todos os dias para tornar meu corpo suficientemente forte para suportar o golpe calculado da cirurgia. Porm, havia mais uma tarefa que eu queria realizar antes de a serra encontrar minha cabea. Cinco minutos rua acima a partir do meu apartamento havia o Fellsway, um magnfico parque fechado com dois pequenos lagos, como os das montanhas. O Fellsway havia sido um territrio de magia para mim. Em muitos dias, depois do trabalho, eu relaxava caminhando pelas trilhas entre os pinheiros, e raramente via outra alma. Eu cantava e danava e pulava e rezava naquele lugar. Para mim, aquele era um local sagrado, onde podia comungar com a natureza e recarregar minhas energias. 
      Queria desesperadamente subir aquela encosta escorregadia e ngreme para o Fellsway mais uma vez antes da cirurgia. Desejava com ardor chegar ao topo da encosta e abrir os braos para sentir a brisa, e me reabastecer com a fora da vida. No dia anterior  cirurgia, com Kelly a meu lado, subi lentamente a colina e realizei meu sonho. L, no topo da encosta, sobre as luzes de Boston, deixei-me envolver pela brisa e respirei fundo vrias vezes, enchendo os pulmes. Qualquer que fosse o resultado da cirurgia no dia seguinte, meu corpo era a fora de vida de trilhes de clulas saudveis. Pela primeira vez desde o derrame, senti que meu corpo era forte o bastante para suportar a iminente craniotomia.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 10
      
      
    CRANIOTOMIA ESTEREOSTTICA
   
      As seis horas da manh do dia 27 de dezembro de 1996, entre G. G. e Kelly, eu marchei para o Massachusetts General Hospital para que abrissem minha cabea. Quando penso em coragem, penso naquela manh.
      Havia mantido meus cabelos louros e longos desde que era uma menininha. A ltima coisa que me lembro de ter dito ao Dr. Ogilvy antes de receber a anestesia foi:
       Ei, doutor, tenho trinta e sete anos e sou solteira; por favor, no me deixe careca!
      Depois disso, apaguei.
      G. G. e Kelly ficaram muito perturbadas com a durao da cirurgia. A tarde chegava ao fim quando elas foram informadas de que eu havia sido levada para a sala de recuperao. Quando acordei, percebi que me sentia diferente. Havia novamente brilho em meu esprito, e eu me sentia feliz. At aquele ponto, minhas emoes haviam se mantido relativamente mornas. Eu estivera observando o mundo, mas no me engajara emocionalmente nele. No de verdade. Havia perdido meu entusiasmo infantil desde a hemorragia, e era um alvio me sentir novamente "eu". Sabia que, qualquer que fosse o futuro, eu poderia enfrent-lo com alegria no corao, e estaria bem.
      Pouco tempo depois de despertar da cirurgia, descobri que o tero esquerdo de minha cabea havia sido raspado. Uma cicatriz de 22 centmetros em forma de "U" se desenhava cerca de 6 centmetros  frente de minha orelha, de 7 centmetros horizontalmente acima dela a 7 centmetros abaixo e atrs dela. Era recoberta por um enorme pedao de gaze. Quanta gentileza do bom mdico ter deixado a metade direita de minha cabea coberta por cabelo. No momento em que G. G. se aproximou da cama, ela explodiu:
       Diga alguma coisa!
      Seu maior medo,  claro, era que a cirurgia houvesse removido parte de meus centros de linguagem, deixando-me muda. Consegui falar com ela numa voz muito fraca. Ns duas choramos. A cirurgia havia sido um absoluto sucesso.
      
      
      Depois da cirurgia, passei cinco dias no hospital. Nas primeiras 48 horas, supliquei para que aplicassem bolsas de gelo sobre minha cabea. No sei por que, mas tinha a sensao de que meu crebro estava em chamas, e o gelo aliviava o calor intenso e me permitia dormir.
      Minha ltima noite no hospital foi a vspera de Ano-Novo. No meio da noite, eu me sentei  janela, sozinha, e fiquei olhando as luzes do centro de Boston. Imaginava o que o novo ano traria. Refleti sobre a ironia de minha experincia  uma neurocientista que havia sido vtima de um derrame. Celebrei a alegria que sentia e as lies que havia aprendido. Achava-me tocada pela assombrosa realidade: eu era uma sobrevivente de um derrame.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 11
      
      
    DO QUE EU MAIS PRECISAVA
    
      Observe que criei uma lista de "Recomendaes para recuperao".  como uma sinopse dos comentrios e recomendaes deste captulo com relao a como eu precisava ser tratada e o que mais necessitava para me recuperar. Essa lista se encontra no Apndice e est disponvel para seu uso pessoal.
      
      
      Disposio para me recuperar era uma atitude que eu tinha de definir um milho de vezes por dia. Estava disposta a fazer o esforo da tentativa? Estava disposta a deixar momentaneamente o xtase glorioso adquirido havia pouco tempo para tentar entender algo do mundo exterior e me engajar nele? E, o principal: estava disposta a enfrentar a agonia da recuperao? Nesse nvel de processamento de informao, tinha conscincia da diferena entre o que me causava dor e o que me causava prazer. Estar no paraso de meu hemisfrio direito era interessante e maravilhoso. Tentar envolver o lado esquerdo da mente analtica era doloroso. Como tentar era uma deciso de escolha consciente, era de grande importncia que eu me cercasse de pessoas atentas e cuidadosas para me auxiliar. Caso contrrio, francamente, era pouco provvel que me desse ao trabalho de fazer esse esforo.
      Para que eu preferisse o caos da recuperao  tranquilidade pacfica da divina serenidade que encontrei na ausncia de julgamento do lado esquerdo de minha mente, tive de reformular minha perspectiva de "Por que eu tenho de voltar" para "Por que vim para esse lugar de silncio". Percebi que a bno que havia recebido com essa experincia era o conhecimento de que a paz interna est acessvel para qualquer um em qualquer tempo. Creio que a experincia do nirvana existe na conscincia do hemisfrio direito, e que a qualquer momento podemos escolher acionar essa parte de nosso crebro. Com essa conscincia, me entusiasmei pensando na diferena que minha recuperao poderia proporcionar a outras vidas  no s para os que se recuperavam de um trauma cerebral, mas para todos que tivessem um crebro! Imaginei o mundo cheio de pessoas felizes e tranquilas, e me senti motivada a enfrentar a agonia que teria de suportar em nome da recuperao. Meu derrame de sabedoria seria: a paz est s a um pensamento de distncia, e tudo que precisamos fazer para alcan-la  silenciar a voz do lado esquerdo da mente, que  dominante.
      Recuperao, seja qual for sua maneira de defini-la, no  algo que se faz sozinho, e minha recuperao foi completamente influenciada por todos  minha volta. Eu precisava desesperadamente de pessoas que me tratassem como se eu fosse me recuperar por completo. Sem ter em conta o tempo, se levaria trs meses, dois anos, vinte anos, ou a vida inteira, precisava de gente que acreditasse na minha perseverante habilidade de aprender, curar-me e crescer. O crebro  um rgo maravilhosamente dinmico e em constante mudana. Meu crebro se entusiasmava com novos estmulos e, quando equilibrado pela adequada quantidade de sono, era capaz de uma cura milagrosa.
      Ouvi mdicos dizerem: "Se voc no recuperar suas habilidades em at seis meses depois do derrame, no as ter nunca mais!" Acreditem, isso no  verdade. Notei significativa melhora na capacidade de aprendizado de meu crebro e em seu funcionamento por oito anos depois do derrame, quando decidi que minha mente e meu corpo estavam completamente curados. Os cientistas bem sabem que o crebro tem uma tremenda habilidade de mudar suas conexes tendo por base a estimulao que recebe. Essa "plasticidade" do crebro  a base de sua capacidade de recuperar funes perdidas.
      Penso no crebro como um playground cheio de crianas pequenas. Todas elas esto ansiosas para agradar e fazer feliz quem as observa. (O qu? Acha que estou confundindo crianas com filhotinhos de estimao?) Voc olha para o playground e nota um grupo de crianas que brincam de chutar bola, outras agem como macacos nas barras suspensas e outras se divertem na caixa de areia. Cada um desses grupos est fazendo coisas diferentes, embora similares, como os diferentes grupos de clulas do crebro. Se voc remove as barras suspensas, aquelas crianas no vo embora; vo se unir aos outros e fazer o que estiver disponvel. O mesmo vale para os neurnios. Se voc encerra uma funo para a qual um neurnio foi geneticamente programado, aquelas clulas morrem por falta de estmulo ou encontram outra coisa para fazer. Por exemplo, no caso da viso, se voc cobre um olho, bloqueando o estmulo visual que chega s clulas do crtex visual, aquelas clulas vo se voltar para as vizinhas, tentando contribuir para a realizao de alguma nova funo. Eu precisava que as pessoas  minha volta acreditassem nessa plasticidade de meu crebro e em sua habilidade de crescer, aprender e se recuperar.
      Com relao  cura fsica das clulas,  impossvel enfatizar quanto  importante dormir muito. Acredito realmente que o crebro  a autoridade mxima sobre o que  necessrio para a prpria cura. Como mencionei anteriormente, para o meu crebro, dormir era "ocupar o tempo". Na viglia, a energia da estimulao inundava meus sistemas sensoriais e eu era rapidamente exaurida pela luz que estimulava as clulas da minha retina e as ondas sonoras que batiam de forma catica na membrana do tmpano. Meus neurnios no conseguiam acompanhar a demanda e se tornavam rapidamente incapazes de entender a informao que chegava. Em nvel mais elementar do processamento de informao, estimulao  energia, e meu crebro precisava ser protegido e isolado da prejudicial estimulao sensorial, que percebia como caos.
      Ao longo de vrios anos, se no respeitasse a necessidade de sono de meu crebro, meus sistemas sensoriais experimentavam sofrimento intenso e eu me sentia psicolgica e fisicamente debilitada. Acredito que, se houvesse sido posta em um centro de reabilitao convencional, onde teria sido forada a ficar acordada diante de uma televiso ligada, alerta pela administrao de Ritalin, e submetida a uma reabilitao planejada por outra pessoa, teria escolhido me desligar mais e me esforar menos. Para minha recuperao, foi de suma importncia que se respeitasse o poder de cura do sono. Sei que vrias metodologias so praticadas nos diversos centros de reabilitao existentes no pas, mas defendo fielmente os benefcios do sono, sono, sono, e mais sono, intercalado por perodos de aprendizado e desafio cognitivo.
      Desde o incio, foi muito importante que as pessoas que cuidavam de mim me permitissem a liberdade de abrir mo das realizaes do passado para poder identificar novas reas de interesse. Era preciso que as pessoas me amassem, no por quem eu havia sido, mas por quem eu poderia ser agora. Quando meu velho e conhecido lado esquerdo do crebro removeu as inibies sobre o hemisfrio direito, mais artstico e musicalmente criativo, tudo mudou, e eu precisava da famlia, dos amigos e dos colegas me apoiando nesse esforo de me reinventar. Na essncia de meu ser, ainda era aquela mesma criatura que eles amavam. Mas, devido ao trauma, meu circuito cerebral agora era diferente, e com isso vinha uma percepo diferenciada do mundo. Embora eu parecesse a mesma e fosse, em algum momento, andar e falar como havia feito antes do derrame, as ligaes em meu crebro agora eram diferentes, como muitos dos meus interesses, gostos e desgostos.
      Minha mente estava muito prejudicada. Eu me lembro de ter pensado: Eles podem tirar meu Ph.D.? No me lembro de nada sobre anatomia! Sabia que teria de encontrar uma nova carreira, algo mais adequado aos dons recm-encontrados do meu hemisfrio direito. Como sempre havia gostado muito de jardinagem, considerei que essa podia ser uma opo vivel para o futuro. Precisava desesperadamente ser aceita como a pessoa que era naquele momento, e era necessrio que os outros me dessem a liberdade de evoluir como uma personalidade de hemisfrio direito dominante. Era preciso que aqueles que me cercavam fossem encorajadores. Eu precisava saber que ainda tinha valor. Precisava ter sonhos para os quais caminhar.
      Corno coloquei antes, G. G. e eu entendamos de modo inato que era essencial que desafissemos meus sistemas cerebrais imediatamente. As conexes dentro dele haviam sido rompidas e era crucial voltar a estimul-las antes que elas morressem, ou esquecessem completamente como fazer o que haviam sido criadas para fazer. Para a recuperao, o sucesso dependia completamente de tentarmos estabelecer um equilbrio saudvel entre o esforo consciente e o tempo de sono. Por vrios meses aps a cirurgia, fui banida da frente da televiso, do telefone e do rdio. Essas atividades no contavam como relaxamento legtimo, porque roubavam minha energia, deixando-me letrgica e desinteressada pelo aprendizado. Mais uma vez, G. G. logo percebeu que devia fazer apenas questes de mltipla escolha e nunca me propor perguntas cujas respostas fossem do tipo sim/no. A mltipla escolha exigia que eu abrisse velhos arquivos e criasse outros novos. Perguntas do tipo sim/no no exigiam reflexo verdadeira, e G. G. raramente deixava passar uma boa oportunidade de ativar um neurnio.
      Como meu crebro havia perdido a capacidade de pensar com linearidade, tive de reaprender os cuidados pessoais bsicos, entre eles, me vestir. Aprendi a pr as meias antes de calar os sapatos, e por que tinha de ser assim. Embora no pudesse me lembrar do real funcionamento das coisas relacionadas  rotina domstica, era muito criativa no que eu escolhia usar para esse propsito. Esse processo de explorao era excitante. Quem poderia imaginar que um garfo seria to bom para coar as costas?
      Minha energia era limitada, por isso tnhamos de escolher com muito cuidado, todos os dias, para onde eu direcionaria meus esforos. Precisava definir minhas prioridades quanto ao que eu mais queria recuperar, e no desperdiar energia com outras coisas. Nunca pensei que recuperaria intelecto suficiente para voltar a ser cientista e professora, mas percebia que tinha uma histria fabulosa para contar sobre a beleza e a capacidade de resistncia do crebro  desde que conseguisse reativar o meu. Escolhi focar minha reabilitao em um projeto de arte que me ajudaria a recuperar a estamina fsica, a destreza manual e o processamento cognitivo. Para isso, decidi criar um crebro de vidro colorido anatomicamente correto! O primeiro passo era obter um desenho. Como havia perdido todas as lembranas acadmicas, reuni meus livros de neuroanatomia, espalhei-os no cho e consegui montar uma imagem relativamente precisa (e atraente) de um crebro. O projeto exercitava minha coordenao motora grossa, o equilbrio e a coordenao motora fina, porque eu tinha de recortar e manipular o vidro. Levei oito meses para criar aquele primeiro crebro de vidro. Quando terminei, ele era agradvel de se olhar e me motivava a criar outro, um objeto que agora se encontra no Banco de Crebro de Harvard.
      
      
      Vrios meses antes do derrame, eu havia agendado uma apresentao na Fitchburg State College. O evento estava marcado para 10 de abril, quatro meses exatos depois do derrame. Como precisava de um objetivo pelo qual trabalhar, decidi que essa seria minha primeira palestra ps-derrame, o que tornava fundamental que eu recuperasse a fluncia verbal. Tomei a deciso de falar por 20 minutos. Meu objetivo era criar a apresentao de tal forma que a plateia no percebesse que eu era sobrevivente de um derrame. A empreitada era ambiciosa, mas eu a considerava razovel. Dediquei-me a diversas estratgias para realiz-la.
      Primeiro, tinha de fazer alguma coisa com relao ao meu cabelo! Nos primeiros meses aps a cirurgia, criei uma nova moda pessoal. Como os cirurgies haviam raspado apenas a metade esquerda de minha cabea, eu parecia estar torta. Porm, se escovasse o cabelo restante do lado direito para o lado esquerdo, eu conseguia esconder a cicatriz. A parte divertida era tentar disfarar os cabelos que comeavam a crescer e ficavam salientes, ultrapassando os fios longos escovados sobre eles. Era bvio que eu tivera a cabea parcialmente raspada, mas em abril eu j podia exibir um novo penteado. No sei se meu cabelo me delatou naquela tarde, ou se algum estranhou aqueles dois afundamentos estereostticos na minha testa. (O aparato estereosttico  o grande equipamento em forma de halo que os mdicos utilizam para segurar a cabea perfeitamente imobilizada durante a cirurgia.)
      Trabalhei duro para preparar aquela apresentao em Fitchburg. Meu primeiro desafio era falar com clareza e de maneira inteligente para a plateia, e o segundo era ser uma especialista sobre o crebro. Para minha sorte, eu havia feito uma grande apresentao que fora gravada profissionalmente na conveno da Nami Nacional poucos meses antes da hemorragia. Minha estratgia primria para recuperar a capacidade da fala era assistir quele vdeo muitas e muitas vezes. Estudei como aquela mulher (eu) trabalhava com o microfone no palco. Vi como ela sustentava a cabea e o corpo e como se movimentava. Ouvi a voz dela, a melodia formada pelas palavras que encadeava, e como as alteraes no volume de voz afetavam a plateia. Observando-a, aprendi a fazer o que ela fazia. Assistindo quele vdeo, aprendi como ser eu novamente, como agir como eu e caminhar e falar como eu... de novo.
      Quanto  parte sobre o contedo e minha especializao como neurocientista, aprendi muito sobre o crebro com aquela apresentao, mas no era uma perita no assunto! A prpria apresentao gravada em vdeo oferecia informao demais para que minha mente pudesse registrar. Acabei me perguntando se no era isso que as pessoas que me ouviam sentiam tambm. Aprendi, porm, como pronunciar aquelas palavras cientficas, e, depois de muitas repeties, entendi a histria que ela estava contando. Gostei muito de aprender sobre doao de crebro, e fiquei pensando se G. G. teria doado meu crebro para a pesquisa cientfica caso eu houvesse morrido naquela manh do derrame. Ri alto todas as vezes que ouvi o jingle do Banco de Crebro, e senti dor e tristeza por aquela mulher no existir mais.
      No melhor estilo possvel, montei uma apresentao de 20 minutos que ensaiei todos os dias durante um ms. Desde que ningum me interrompesse ou fizesse perguntas sobre o crebro, acreditava que poderia realizar a tarefa sem ningum detectar sinais do meu derrame recente. Embora fosse ainda meio robtica em meus movimentos, no me perdi com os slides e deixei Fitchburg tomada por uma sensao de triunfo.
      No me qualifiquei para a fisioterapia ou para a terapia ocupacional, mas passei muito tempo fazendo terapia de fala, por quatro meses depois da cirurgia. Falar era menos problemtico do que ler. G. G. j havia me ensinado as letras do alfabeto e os sons que acompanhavam cada um daqueles rabiscos, mas junt-los como palavras e depois atribuir-lhes um significado era mais do que meu crebro queria realizar. Ler com o propsito de compreender era desastroso. Na minha primeira consulta com a fonoaudiloga, Amy Rader, eu deveria ler uma histria que continha 23 fatos. Ela me fez ler em voz alta, e depois formulou perguntas. De 23 questes, acertei duas!
      Quando comecei o trabalho com Amy, era capaz de ler as palavras em voz alta, mas no conseguia atribuir nenhum significado aos sons que saam de minha boca. Com o passar do tempo, passei a ser capaz de ler uma palavra de cada vez, atribuir um significado a esse som, e depois passar  palavra seguinte. Acho que boa parte do problema estava na minha incapacidade de ligar um momento ao outro ou pensar com linearidade. Enquanto cada momento existisse isolado, eu no conseguiria unir ideias ou palavras. Era como se a parte do meu crebro responsvel pela leitura estivesse morta, como se no se interessasse por aprender novamente. Com a orientao de Amy e G. G., semana a semana, dei os passos necessrios para alcanar meus objetivos. Era muito excitante, porque recuperar vocabulrio significava recuperar alguns arquivos perdidos no meu crebro. Tentar era suficiente para me deixar esgotada, mas, lentamente, palavra a palavra, conquistada a duras penas, os arquivos foram se abrindo e pude ser reapresentada  vida da mulher que havia sido anteriormente. Com G. G. cuidando do leme, encontrei o caminho de volta para o interior das fendas veladas de minha massa cinzenta.
      
      
      Para uma recuperao bem-sucedida, era importante que nos concentrssemos em minha capacidade, e no em minha incapacidade. Celebrando minhas realizaes todos os dias, eu me mantinha focada em como estava indo bem. Decidi que no importava se eu podia andar, falar, ou at mesmo identificar meu nome. Se tudo que eu fazia era respirar, ento celebraramos por eu estar viva, e respiraramos ainda mais profundamente juntas. Se eu tropeava, podamos comemorar por eu ter estado em p. Se babava, celebrvamos a saliva! Era muito fcil focar minhas incapacidades, porque elas eram vastas. Era preciso que as pessoas comemorassem meus triunfos dirios, porque o sucesso, mesmo que pequeno, me inspirava.
      No meio de janeiro, algumas semanas depois da cirurgia, o centro de linguagem do meu hemisfrio esquerdo comeou a acordar e falar comigo novamente. Embora amasse de verdade a glria de uma mente silenciosa, foi um alvio saber que o lado esquerdo de meu crebro tinha potencial para recuperar seu dilogo interno. At aquele ponto, eu havia me esforado desesperadamente para unir meus pensamentos e organiz-los ao longo do tempo. A linearidade do dilogo interno ajudou a construir a fundao e a estrutura para os meus pensamentos.
      Um dos segredos fundamentais para o meu sucesso foi que eu fiz a escolha cognitiva de ficar fora do meu prprio caminho durante o processo de recuperao. Uma atitude de gratido ajuda muito com relao  cura fsica e emocional. Apreciei boa parte da minha experincia de recuperao enquanto um processo flua naturalmente para outro. Descobri que, com o aumento das minhas capacidades, minha percepo do mundo tambm ia ficando maior. Com o passar do tempo, me sentia como uma criana pequena querendo sair e explorar a vida... desde que mame no estivesse muito longe de mim. Experimentei muitas coisas novas, tive muito sucesso, e tentei algumas coisas para as quais ainda no estava preparada. Mas fiz a escolha de ficar fora do meu caminho, emocionalmente falando, e isso significava ter muito cuidado com essa conversa interior. Teria sido muito fcil, mil vezes por dia, sentir que eu era menos do que havia sido antes. Afinal, havia perdido parte da mente, e por isso tinha uma razo legtima para sentir pena de mim mesma. Mas, felizmente, a alegria e o esprito de celebrao do meu hemisfrio direito eram to fortes que no queriam ser substitudos pelo sentimento que acompanhava a autodepreciao, a autopiedade ou a depresso.
      Ficar fora do meu caminho implicava, em parte, que eu precisava aceitar apoio, amor e ajuda externa. A recuperao  um processo longo, e anos seriam necessrios at que tivssemos alguma ideia sobre o que eu poderia recuperar. Precisava deixar meu crebro se curar e parte disso significava me permitir receber ajuda com tranquilidade. Antes do derrame, sempre havia sido muito independente. Trabalhava durante a semana como cientista pesquisadora, viajava nos finais de semana como a cientista cantora, e cuidava da minha casa e dos meus assuntos pessoais sem nenhuma ajuda. No me sentia confortvel recebendo auxlio, mas, naquele estado de incapacitao mental, precisava deixar as pessoas fazerem coisas por mim. Em muitos sentidos, tive sorte por meu hemisfrio esquerdo ter sido afetado, porque, sem aquela poro de ego do meu centro de linguagem, pude receber ajuda externa sem problemas.
      O sucesso de minha recuperao dependia completamente da capacidade de quebrar cada tarefa em passos e aes menores e mais simples. G. G. era um gnio para identificar o que eu precisava ser capaz de fazer antes de passar ao prximo nvel de complexidade. Se estivesse balanando e rolando com entusiasmo antes de poder me sentar, ou se aprendia que podia pisar nas linhas quando caminhava pela calada, cada um desses pequenos estgios determinava o sucesso final.
      Uma vez que no podia pensar linearmente, eu precisava que todos soubessem de antemo que eu no sabia nada para que pudesse reaprender tudo desde o comeo. Pedaos de informao j no se encaixavam mais em meu crebro. Por exemplo, era possvel que eu no soubesse como usar o garfo e necessitasse de repetidas demonstraes em diversas ocasies diferentes. Era preciso que aqueles que cuidavam de mim me ensinassem com pacincia. s vezes era necessrio que eles me mostrassem certa atividade muitas e muitas vezes, at meu corpo e meu crebro conseguirem entender o que eu estava aprendendo. Se no "entendia", era porque aquela parte de meu crebro tinha um buraco e no podia compreender ou absorver a informao. Quando as pessoas erguiam a voz enquanto me ensinavam alguma coisa, a tendncia era que eu me fechasse. Como um cachorrinho inocente que  agredido por berros, eu passava a sentir medo daquela pessoa, era repelida por sua energia, e no confiava mais nela. Era essencial que aqueles que cuidavam de mim lembrassem que eu no era surda; meu crebro estava enfermo, apenas. Mais importante, era necessrio que as pessoas que cuidavam de mim me ensinassem pela vigsima vez com a mesma pacincia que me haviam ensinado na primeira.
      Eu necessitava que as pessoas se aproximassem e no sentissem medo de mim. Precisava muito de bondade. Precisava ser tocada  gostava de um afago no brao, que segurassem minha mo ou limpassem meu rosto se estivesse babando. Quase todo mundo conhece algum que sofreu um derrame. Se o centro de linguagem foi afetado,  provvel que o sobrevivente no possa conversar com aqueles que o visitam. Sei que pode ser muito desconfortvel para uma pessoa saudvel tentar se comunicar com algum que sofreu um derrame, mas eu necessitava que minhas visitas levassem energia positiva. Como conversar era algo absolutamente fora de questo, apreciava quando as pessoas se aproximavam por alguns minutos, seguravam minha mo e contavam algo em voz baixa e suave, partilhando o que tinham feito, o que estavam pensando e como acreditavam em minha capacidade de recuperao. Era muito difcil lidar com gente que estava envolta em uma energia de ansiedade. Realmente precisava de pessoas que assumissem a responsabilidade pelo tipo de energia que levavam at mim. Encorajvamos todos os visitantes a suavizar uma ruga na testa, abrir o corao e me levar amor. Pessoas muito nervosas, ansiosas ou enraivecidas eram contraproducentes  minha recuperao.
      
      
      Uma das maiores lies que aprendi foi como sentir o componente fsico da emoo. A alegria era um sentimento em meu corpo. A paz era um sentimento em meu corpo. Eu achava interessante que pudesse sentir quando uma nova emoo era desencadeada. Podia sentir novas emoes me inundando e me preenchendo, como ondas. Precisava aprender novas palavras para rotular essas experincias de "sentimento", e, algo ainda mais impressionante, aprendi que podia escolher entre me engajar em um sentimento e prolongar sua permanncia e apenas deix-lo fluir por mim rapidamente at que desaparecesse.
      Tomava minhas decises com base em como senti as coisas dentro de mim. Havia certas emoes, como raiva, frustrao ou medo, que causavam desconforto quando fluam por meu corpo. Por isso eu dizia ao meu crebro que no gostava daquele sentimento e no queria percorrer aquelas voltas neuronais. Aprendi que podia usar o lado esquerdo da mente, por meio da linguagem, para falar diretamente com meu crebro e lhe dizer o que eu queria e o que no queria. A partir dessa constatao, compreendi que nunca mais voltaria a ter a mesma personalidade de antes. De repente, tinha muito mais a dizer sobre o que sentia e por quanto tempo queria sentir, e era absolutamente contrria  ideia de reativar velhos circuitos emocionais dolorosos.
      Prestar ateno a como as emoes eram sentidas em meu corpo foi o que deu formato  minha recuperao. Passei oito anos vendo minha mente analisar tudo que acontecia no meu crebro. Cada novo dia trazia novos desafios e conhecimento. Quanto mais eu recuperava antigos arquivos, mais minha velha bagagem emocional se aproximava da superfcie, e mais eu precisava avaliar a utilidade de preservar o circuito neural que era sua base.
      A cura emocional foi um processo lento e tedioso, mas digno de todo meu esforo. Na medida em que o lado esquerdo de meu crebro foi se fortalecendo, parecia natural que eu quisesse "culpar" outras pessoas ou eventos externos por meus sentimentos ou minhas circunstncias. Mas, na verdade, sabia que ningum tinha o poder de me fazer sentir nada, exceto eu mesma e meu crebro. Nada externo a mim tinha o poder de tirar a paz da minha mente e do meu corao. Isso era algo que cabia inteiramente a mim. Posso no ter o controle total do que acontece em minha vida, mas certamente estou no comando de como escolho perceber minha experincia de vida.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 12
    
    
    MARCOS DA RECUPERAO
    
      A pergunta que mais ouo : "Quanto tempo levou a recuperao?" Minha resposta, especialmente formulada para essa questo, sem ter inteno de parecer banal, : "Recuperao do qu?" Se definirmos recuperao como obter novamente acesso a velhos programas, ento, estou parcialmente recuperada. Tenho sido muito seletiva durante todo esse tempo com relao a que programas emocionais estou interessada em manter, e quais no tenho interesse em manifestar novamente (impacincia, crtica exacerbada, indelicadeza). Que maravilhoso presente havia sido esse derrame por me permitir escolher quem e como eu queria ser no mundo. Antes do derrame, eu acreditava ser um produto desse crebro e ter pouco ou nada a dizer sobre como me sentia ou o que pensava. Desde a hemorragia, contudo, meus olhos haviam sido abertos para quanta escolha eu realmente tinha sobre o que acontece entre minhas orelhas.
       A recuperao fsica da cirurgia no crebro foi mnima comparada  tarefa de reconstruir minha mente e recobrar a conscincia do meu corpo. Depois da cirurgia, G. G. mantinha a rea do corte sempre limpa, e os 35 pontos cicatrizaram perfeitamente. O maior desafio que enfrentei foi o problema com a articulao tempo-romandibular (ATM) esquerda por causa da cirurgia, mas, com o uso de uma tcnica de cura chamada Feldenkrais, tudo se resolveu bem. O local da cicatriz, porm, ficou entorpecido por cinco anos, e acredito que os trs buracos abertos em meu crnio se fecharam completamente no sexto ano.
      Minha me era muito sbia. Por isso, embora me protegesse, ela no se colocava no caminho de meu progresso. No meio de fevereiro, dois meses depois do derrame, realizei minha primeira aventura solo no mundo. Minha linguagem verbal era boa o bastante para me manter fora de confuses (espervamos), e eu passei pouco tempo sozinha e fora de casa. G. G. me levou de carro ao aeroporto e me acompanhou at o assento no avio. Um amigo me pegou do outro lado para que eu no tivesse de navegar pela vida sozinha por muito tempo. Vivi aquele primeiro salto para fora do ninho como um grande salto na minha busca pela independncia. Com base nesse sucesso, fui incentivada a correr riscos ainda maiores.
      No marco dos trs meses, G. G. me ensinou novamente a dirigir. Operar uma enorme caixa de metal sobre rodas em alta velocidade, cercada por outras pessoas que faziam o mesmo enquanto comiam, bebiam, fumavam e, oh, falavam em telefones celulares, lembrava-me de que eu era um ser vivo frgil e a vida era um dom precioso. Meu crebro ainda lutava corajosamente para ler, e a parte mais difcil do aprendizado para voltar a dirigir um carro era recordar os sinais escritos. Era evidente que isso seria um problema. E, mesmo quando eu via o sinal, minha compreenso era dolorosamente lenta. O que aquele grande sinal verde quer dizer? Oh, m*#?! Acabei de passar minha sada!
      No meio de maro, G. G. decidiu que eu estava pronta para tentar morar sozinha novamente. Embora ainda estivesse muito longe de poder realmente voltar  vida normal, ela sentia que, com o apoio dos amigos, eu estava pronta para experimentar abrir as asas. Se precisasse dela, ela garantiu, s precisaria telefonar, e ela viria no primeiro voo. Em parte eu me sentia eufrica com a recuperao da minha independncia, mas, acima de tudo, estava aterrorizada.
      Em poucas semanas, o grande teste da minha prontido para retomar a vida seria Fitchburg. Isso me deu algo em que me concentrar enquanto comeava a cuidar sozinha da minha rotina. Minha amiga Julie me levou de carro para a apresentao, e tudo correu to bem que eu me sentia inebriada com o sucesso. De alguma maneira, conseguia no s sobreviver, mas prosperar novamente. Comecei a passar algum tempo cuidando das minhas responsabilidades no Banco de Crebros usando o computador da minha casa. No incio, duas horas por dia era tudo que eu conseguia tolerar. Com o passar do tempo, comecei a ir e voltar do McLean Hospital, um ou dois dias por semana. Na verdade, a viagem era mais difcil que o trabalho.
      Para complicar as coisas, depois da cirurgia meus mdicos insistiram em que eu tomasse Dilantin, uma medida profiltica para impedir meu crebro de sofrer surtos como os epilticos. Nunca sofri um surto, mas prescrever medicao  uma prtica comum quando a regio temporal do crebro  cirurgicamente violada. Como uma paciente tpica, odiei a medicao, porque ela me deixava cansada e letrgica. Minha maior queixa, porm, era que o remdio mascarava minha capacidade de saber como era ser eu novamente. Eu j era uma estranha para mim mesma devido ao derrame; porm, com o acrscimo desse medicamento, estava ainda mais desorientada. Por causa dessa experincia, acho que sou muito mais sensvel s razes pelas quais as pessoas escolhem a insanidade aos efeitos colaterais da medicao antipsictica. Tive sorte por meus mdicos concordarem em remover completamente a dose noturna, antes de eu ir dormir, de forma que, pela manh, eu me sentia muito mais ativa. Tomei Dilantin por quase dois anos depois da cirurgia.
      No marco dos seis meses, viajei a Indiana, minha terra natal, para participar da vigsima reunio da minha turma de ginsio. Essa foi uma oportunidade perfeita para eu reabrir arquivos do meu passado. Duas das minhas melhores amigas me acompanharam o tempo todo, contando histrias sobre nosso tempo no Terre Haute South Vigo. O momento daquela reunio era ideal. Meu crebro havia se curado o suficiente para absorver novas informaes e abrir velhos arquivos. Participar da reunio me ajudou a reunir memrias da minha juventude. Por outro lado, nessa situao, por eu ser sobrevivente de um derrame, era crucial que no me considerasse menos do que havia sido antes. Amigos do meu passado foram muito generosos comigo e eu acabei me divertindo muito ao recuperar essas memrias.
      Pouco depois da reunio em junho, fui  conveno anual da Nami em julho. Era o final do meu perodo de trs anos no Conselho Nacional de Diretores, e eu estava oficialmente me retirando. Havia preparado um discurso de cinco minutos para apresentar a uma audincia de mais de 2 mil membros da Nami. Com o violo na mo, lgrimas nos olhos e gratido no corao, agradeci quelas pessoas maravilhosas por me darem a coragem de voltar ao mundo. Guardarei com carinho eterno aquela caixa de cartes que elas me mandaram com mensagens de incentivo. Sei que no estaria aqui hoje, nessa condio, sem a ajuda valiosa da minha famlia Nami.
      
       
      Andar tornou-se uma parte muito importante de minha rotina. Quando voc se sente um fluido  impossvel saber onde seus limites fsicos comeam e onde terminam. Andar me ajudou a recuperar a fora, e, ao longo daquele primeiro ano, consegui atingir a mdia de 5 quilmetros por dia vrias vezes por semana. Caminhava carregando pequenos pesos nas mos, balanando os braos, sacudindo-os como se fosse uma criana agitada, mas com ritmo. Exercitava todos os grupos musculares, girando os ombros, articulando-os e dobrando cotovelos e pulsos. Muita gente me olhava como se eu fosse esquisita, mas, tendo perdido o ego central do meu hemisfrio esquerdo, no estava preocupada com aprovao ou falta dela. Caminhar carregando pesos me ajudava a recuperar a fora, o equilbrio e a postura. Alm disso, eu me tratei com uma amiga que, com massagem e acupuntura, me auxiliava a identificar meus limites fsicos.
      No oitavo ms, voltei ao trabalho em tempo integral, mas no tinha total competncia mental ou fsica. Havia uma lentido no meu crebro que eu no conseguia superar. Infelizmente, minha descrio de cargo envolvia responsabilidades relacionadas a complexos bancos de dados armazenados no computador, uma atividade que, eu sabia, minha mente no seria capaz de realizar. Alm do mais, devido ao derrame, tornei-me muito consciente do precioso pouco tempo que eu tinha no planeta. Queria voltar para casa em Indiana. Queria passar um tempo com minha me e meu pai enquanto ainda os tinha por perto, e isso se tornou uma prioridade em minha vida. Felizmente, minha chefe concordou que eu podia viajar pelo Banco de Crebro como porta-voz nacional para os mentalmente enfermos partindo de qualquer lugar, e ela me apoiou nessa volta para Indiana.
      Um ano depois do derrame, voltei para o Meio-Oeste. Meu lugar favorito na terra  Bloomington, Indiana. Trata-se de uma cidade universitria de tamanho ideal, cheia de pessoas interessantes e criativas, e, oh, sim,  o lar da Indiana University. Voltar para casa em Indiana foi como adquirir razes, e eu sabia exatamente onde devia estar quando o nmero do telefone da minha casa era dia, ms e ano do meu nascimento! Foi uma dessas grandes coincidncias da vida, algo que me fez perceber que eu estava no lugar certo na hora certa.
      Passei o segundo ano ps-derrame reconstruindo, da melhor maneira possvel, a manh do derrame. Trabalhava com um terapeuta de Gestalt que me ajudava a verbalizar a experincia que vivi naquela manh com meu hemisfrio direito. Eu acreditava que ajudar as pessoas a entender como foi sentir a deteriorao neurolgica do meu crebro poderia ajudar a melhorar o relacionamento entre sobreviventes de derrame e aqueles que deles cuidam. Alm do mais, se algum lesse o relato e, posteriormente, experimentasse algum daqueles sintomas, poderia pedir ajuda de imediato. Trabalhei com Jane Nevins e Sandra Ackerman da Dana Foundation sobre uma proposta literria para essa histria. Nossos esforos foram prematuros, mas serei sempre grata pelo interesse e pela assistncia dessas duas pessoas que tanto me ajudaram a delinear o que era importante para mim.
      Mais tarde, quando minha mente voltou a ser capaz de aprender grandes volumes de informao, chegou o momento de me reengajar na vida acadmica. No segundo ano ps-derrame, fui contratada pelo Rose Hulman Institute of Technology em Terre Haute, Indiana, para  lecionar nos cursos de Anatomia/Fisiologia e Neurocincia. Do meu ponto de vista, eles estavam me pagando para eu reaprender os detalhes da minha profisso. Descobri que, embora tivesse perdido boa parte da terminologia acadmica (hemisfrio esquerdo), ainda lembrava como tudo parecia e os relacionamentos entre essas coisas (hemisfrio direito). Acabei levando ao limite minha capacidade de aprendizado diria por quatro meses, e senti que meu crebro ia explodir por uso excessivo. Acredito realmente que desafiar meu crebro daquela maneira era o que ele necessitava. Manter-me uma aula  frente dos alunos era um grande esforo. Por doze semanas, equilibrei trabalho e tempo apropriado de sono, e meu crebro teve um timo desempenho. Serei sempre grata ao Departamento de Biologia Aplicada e de Engenharia Bioqumica do Rose Hulman por readquirir minha capacidade de lecionar.
      
      
      Para dar uma ideia da cronologia de minha recuperao, aqui vai um breve resumo dos pontos altos do meu progresso ano a ano. Antes do derrame, havia sido uma vida jogadora de pacincia, mas trs anos se passaram antes que eu conseguisse manobrar minha mente pelos caminhos daquele jogo de cartas novamente. No plano fsico, foram quatro anos andando com os pesos nas mos, 5 quilmetros por dia, vrias vezes por semana, antes de poder caminhar em ritmo estvel. Durante o quarto ano, minha mente se tornou capaz de executar tarefas simultneas, coisas simples, como falar ao telefone e cozinhar macarro ao mesmo tempo. At aquele ponto, eu tinha de fazer uma coisa de cada vez, o que significava que tudo exigia minha total ateno. E, ao longo da jornada, no era meu estilo reclamar. Sempre lembrava como havia sido logo aps o derrame, e me considerava abenoada e agradecia mil vezes a meu crebro por responder to bem a minhas tentativas de reviv-lo. Depois de ter experimentado outras alternativas, passei muito tempo me sentindo grata por estar viva.
      A nica coisa que acreditava ter perdido para sempre era a habilidade de entender qualquer coisa a respeito de matemtica. Para meu espanto, porm, no quarto ano ps-derrame, meu crebro se mostrou apto a realizar somas de novo. Subtrao e multiplicao foram reativadas depois de quatro anos e meio, mas a diviso s reapareceu bem depois do quinto aniversrio do derrame. Trabalhar com flash cards me ajudou a devolver ao crebro o bsico da matemtica. Agora trabalho com os programas Brain Training e Big Brain Academy da Nintendo. Acho que todos com mais de quarenta anos de idade, bem como todos os sobreviventes de derrame, se beneficiariam da utilizao desse tipo de ferramenta de treinamento cerebral.
      No final do quinto ano, pude pular de pedra em pedra nas praias de Cancun sem olhar para onde meus ps aterrissavam. Essa foi uma realizao importante, porque, at aquele ponto, eu tinha de manter os olhos fixos no cho. O ponto alto do sexto ano ps-derrame foi a realizao de um sonho: ter energia suficiente para subir os degraus de dois em dois. O imaginrio foi um instrumento eficiente para a recuperao das funes fsicas. Estou convencida de que me concentrar na sensao de realizar tarefas especficas me ajudou a recuper-las com maior rapidez. Sonhei pular degraus todos os dias desde o derrame. Retive a memria de como era correr pela escada com abandono. Revendo essa cena muitas vezes, mentalmente mantive esse circuito vivo at poder coordenar mente e corpo outra vez para torn-la realidade.
      Ao longo dos anos, as pessoas no meu mundo profissional foram muito generosas e bondosas comigo. Inicialmente, temi que meus colegas pudessem ver minha personalidade ps-derrame como menos valorosa e, por isso, me tratassem de maneira paternalista, talvez at me discriminassem. Felizmente, nada disso aconteceu. O derrame no s abriu meus olhos para a beleza e a capacidade de resistncia do crebro humano, mas tambm para a generosidade do esprito humano. Muita gente bonita nutriu meu corao, e sou grata por toda a bondade que recebi.
      Embora tenha viajado como a cientista cantora pelo Banco de Crebro de Harvard desde o segundo ano ps-derrame, durante meu stimo ano aceitei uma posio de professora adjunta no Departamento de Cinesiologia da Universidade de Indiana. Alm disso, ensinar anatomia sempre foi minha maior alegria, e comecei a trabalhar como voluntria no laboratrio de Anatomia da Escola de Medicina da IU. Rever o corpo e ensinar futuros mdicos sobre seu desenho milagroso tem sido um privilgio estimulante para mim.
      Tambm naquele stimo ano ps-derrame, minha necessidade de dormir  noite havia se reduzido de onze para nove horas e meia. At aquele ponto, alm de uma noite inteira de sono, eu tambm cochilava sempre que podia. Nos primeiros sete anos, meus sonhos foram um bizarro reflexo do que acontecia em meu crebro. Em vez de ter sonhos com pessoas e um enredo, minha mente revia fragmentos de dados sem relao. Presumo que isso refletisse como meu crebro reunia informao em pixels para formar uma imagem completa. Foi chocante quando meus sonhos comearam a focar pessoas e apresentar histrias de novo. No incio, as cenas eram entrecortadas e sem sentido. No final daquele stimo ano, porm, minha mente estava to ocupada durante a noite que eu me sentia pouco descansada ao acordar.
      Durante o oitavo ano de recuperao, a percepo de mim mesma mudou: de algum fluido, voltei a me perceber como algum slido. Comecei a praticar esqui aqutico sempre que podia, e acredito que exigir o mximo de meu corpo ajudou a solidificar minhas conexes crebro-corpo. Confesso que, embora tenha comemorado voltar a ser algum slido, senti falta de me perceber como fluido. Sinto falta da lembrana constante de que somos todos um.
      Agora vivo o que descreveria como a vida perfeita. Ainda viajo pelo Banco de Crebro de Harvard como a cientista cantora. Ensino algo que amo: Neuroanatomia e Anatomia para alunos de medicina na Escola de Medicina da IU. Passo um tempo regularmente como consultora em neuroanatomia no Midwest Proton Radiotherapy Institute (MPRI), que funciona no Ciclotron da IU, onde usamos um raio de prton guiado de maneira precisa para lutar contra o cncer. Para ajudar outros sobreviventes de derrame, trabalho na criao de um sistema de realidade virtual com o qual indivduos possam se reabilitar, da perspectiva neurolgica, pelo que chamo de "inteno dirigida visualmente".
      Falando da parte fsica, adoro esquiar pelo lago Monroe no incio da manh, e caminho pelo bairro  noite. Em relao  criatividade, atuo no meu espao de arte criando maravilhas com vidro pintado (principalmente crebros), e meu violo  uma constante fonte de prazer. Ainda falo com minha me todos os dias, e, como presidente da filial Nami para a rea de Bloomington, permaneo ativa na defesa dos mentalmente doentes. Ajudar as pessoas a liberar paz interior, alegria e sua magnfica beleza tornou-se meu objetivo pessoal.
      Ao longo dos anos, tenho tido a oportunidade de dividir minha histria com plateias como os leitores da Discover Magazine; de O Magazine, de Oprah Winfrey; da Stroke Connection Magazine, da American Stroke Association (ASA); e da Stroke Smart Magazine, da National Stroke Association (NSA). A histria de minha recuperao foi publicada na Infinite Mind da PBS e ainda pode ser lida no programa Profiles da WFIU1. H tambm um maravilhoso programa da PBS chamado Understanding: The Amazing Brain, transmitido internacionalmente. Incentivo o leitor a assistir a esse programa. Foi feito um excelente trabalho que ensina sobre a plasticidade do crebro.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
1. Disponvel em www.indiana.edu/ ~wfiu/ profiles.htm.
    Captulo 13
    
    
    MEU DERRAME DE SABEDORIA
      
      
      Tendo feito essa inesperada jornada ao interior do meu crebro, sinto-me grata e fascinada por ter me recuperado por completo fsica, cognitiva, emocional e espiritualmente. Ao longo dos anos, a recuperao das habilidades de meu hemisfrio esquerdo tem sido um grande desafio por razes diferentes. Quando perdi a funo das redes neurolgicas no lado esquerdo do crebro, perdi no s a funo, mas tambm uma variedade de caractersticas de personalidade que eram aparentemente associadas queles circuitos de aptido. Recuperar clulas de aptido que estavam ligadas, do ponto de vista anatmico, a uma vida inteira de reatividade emocional e pensamento negativo tem sido uma experincia de expanso da mente. Eu queria recuperar as habilidades do hemisfrio esquerdo, mas devo dizer que havia traos de personalidade que tentavam ressurgir das cinzas do lado esquerdo de minha mente que, na verdade, no eram mais aceitveis levando em conta a percepo do hemisfrio direito sobre quem eu queria ser agora. Das perspectivas neuroanatmica e psicolgica, vivi anos fascinantes.
      A questo com que me deparava muitas e muitas vezes era: Preciso recuperar o trao de afeto, emoo ou personalidade que era neurologicamente ligado  memria ou habilidade que eu queria recuperar? Por exemplo, seria possvel recuperar a percepo do meu eu, sob a qual eu existia como algum singular, slido, separado do todo, sem recuperar as clulas associadas ao meu egosmo, meu intenso desejo de ser argumentativa, minha necessidade de estar certa, ou o medo da separao e da morte? Poderia valorizar o dinheiro sem me deixar prender pelos elos neurolgicos da carncia, da ganncia ou do egosmo? Poderia recuperar meu poder pessoal no mundo, fazer o jogo da hierarquia e no perder o sentimento de compaixo ou a percepo de igualdade entre todas as pessoas? Poderia me reengajar com a famlia sem esbarrar nas questes relacionadas a ser uma irm caula? Mais importante: poderia manter meu recm-encontrado senso de conexo com o Universo na presena da individualidade do meu hemisfrio esquerdo?
      Imaginava quanto das minhas recentes descobertas  conscincia do hemisfrio direito, conjunto de valores e resultante personalidade  eu teria de sacrificar para recuperar as habilidades do lado esquerdo de minha mente. No queria perder minha conexo com o Universo. No queria me sentir como algum slido, separado de tudo. No queria que minha mente girasse to rpido que no estivesse mais em contato com meu autntico eu. Com franqueza, no queria abrir mo do nirvana. Que preo a conscincia de meu hemisfrio direito teria de pagar para que eu pudesse ser considerada normal outra vez?
      Modernos neurocientistas parecem estar satisfeitos intelectualizando a discusso sobre as assimetrias funcionais dos dois hemisfrios cerebrais da perspectiva neurolgica, mas tem havido pouca conversa sobre as diferenas psicolgicas ou de personalidade contidas nessas duas estruturas. De maneira muito comum, o carter do lado direito de nossa mente tem sido ridicularizado e retratado de um jeito negativo, apenas porque ele no entende a linguagem verbal e no compreende o pensamento linear. No caso da analogia com O Mdico e o Monstro, a personalidade do hemisfrio direito  rotulada como incontrolvel, potencialmente violenta, imbecil, desprezvel e ignorante, que sequer  consciente, e cuja ausncia s nos beneficiaria! Em amplo contraste, o hemisfrio esquerdo tem sido considerado lingustico, sequencial, metdico, racional, sagaz, e o assento da conscincia.
      Antes dessa experincia com o derrame, as clulas do meu hemisfrio esquerdo eram capazes de dominar as clulas do meu hemisfrio direito. O carter julgador e analista do lado esquerdo da mente dominava minha personalidade. Quando sofri a hemorragia e perdi as clulas do centro de linguagem do hemisfrio esquerdo, que definiam meu eu, aquelas clulas no podiam mais inibir as clulas do hemisfrio direito. Como resultado disso, ganhei uma delineao clara dos dois personagens muito diferentes que habitam meu crnio. As duas metades do meu crebro no s percebem e sentem de maneira diferente num nvel neurolgico, mas demonstram valores muito distintos com base nos tipos de informao que percebem, e por isso exibem personalidades muito diferentes. Meu derrame de sabedoria foi a descoberta de que, na essncia da conscincia de meu hemisfrio direito, h um personagem que est diretamente ligado a meu sentimento de profunda paz interior. Ele  completamente comprometido com a expresso de paz, amor, alegria e compaixo no mundo.
      Isso no equivale a dizer,  claro, que acredito ser portadora de uma desordem de mltiplas personalidades. Se fosse esse o caso, a definio seria muito mais complicada do que observei. Tradicionalmente, tem sido difcil, se no impossvel, distinguirmos entre os personagens do lado esquerdo e do lado direito da mente, to somente porque nos experimentamos como uma nica pessoa, com uma nica conscincia. Porm, com pouca orientao, muitas pessoas consideram fcil identificar esses mesmos dois personagens, se no dentro de si mesmas, pelos menos nos pais ou em algum prximo.  meu objetivo ajudar o leitor a encontrar um lar hemisfrico para cada um de seus personagens a fim de que possamos honrar a identidade deles e talvez termos mais a dizer sobre quem queremos ser no mundo. Reconhecendo quem  quem dentro do crnio, podemos adotar uma abordagem mais "crebro-equilibrada" com relao a como levamos a vida.
      Parece que muitos lidam com regularidade e grande esforo com personagens opostos abrigados dentro do crebro. De fato, quase todos com quem converso percebem que tm partes conflitantes de personalidade. Muitos falam sobre como a cabea (hemisfrio esquerdo) diz uma coisa, enquanto o corao (hemisfrio direito) diz o exato oposto. Alguns distinguem entre o que pensam (hemisfrio esquerdo) e o que sentem (hemisfrio direito). Outros explicam ter a conscincia da mente (hemisfrio esquerdo) e a conscincia instintiva do corpo (hemisfrio direito). Alguns falam sobre a pequena mente-ego (hemisfrio esquerdo) comparada  grande mente-ego (hemisfrio direito), ou sobre o pequeno eu (hemisfrio esquerdo) e o eu interno ou autntico (hemisfrio direito). Outros delineiam a mente do trabalho (hemisfrio esquerdo) e a mente das frias (hemisfrio direito), enquanto alguns se referem  mente pesquisadora (hemisfrio esquerdo) em oposio  mente diplomtica (hemisfrio direito).
      Claro, h mais: existe a mente masculina (hemisfrio esquerdo) e a mente feminina (hemisfrio direito), a conscincia yang (hemisfrio esquerdo) e a conscincia ying (hemisfrio direito). E, se voc  f de Cari Jung, temos a mente sensorial (hemisfrio esquerdo) e a mente intuitiva (hemisfrio direito), bem como a mente julgadora (hemisfrio esquerdo) e a mente perceptiva (hemisfrio direito). Seja qual for a linguagem que voc utilize para descrever as duas partes, considerando minha experincia, acredito que elas brotam anatomicamente dos dois hemisfrios muito distintos que voc tem dentro da cabea.
      Meu objetivo durante esse processo de recuperao tem sido no s encontrar um equilbrio saudvel entre as habilidades funcionais dos dois hemisfrios, mas tambm ter mais a dizer sobre que personagem domina minha perspectiva em qualquer momento. Considero isso importante porque as caractersticas mais fundamentais de minha personalidade do hemisfrio direito so profunda paz interior e compaixo amorosa. Acredito que, quanto mais tempo passamos induzindo o funcionamento desse circuito de paz interior e compaixo, mais paz e compaixo vamos projetar no mundo, e, em ltima anlise, mais paz e compaixo teremos no planeta. Como resultado, quanto mais claro for para ns que lado do crebro est processando determinado tipo de informao, mais chance teremos de participar de como pensamos, sentimos e nos comportamos, no s como indivduos, mas como membros colaboradores da famlia humana.
      Do mbito neuroanatmico, tive acesso  experincia de profunda paz interior na conscincia do lado direito de minha mente quando as reas de linguagem e  de associao e orientao do hemisfrio esquerdo do meu crebro tornaram-se no funcionais. A pesquisa do crebro realizada pelos Drs. Andrew Newberg e a falecida Eugene 0'Aquili1 no incio dessa dcada me ajudou a entender exatamente o que aconteceu com meu crebro. Usando tecnologia Spect (single photon emission computed tomography, ou tomografia computadoriza por emisso de fton nico), esses cientistas identificaram a neuroanatomia que d base  capacidade de se ter uma experincia religiosa ou espiritual (mstica). Eles queriam entender que regies do crebro estavam envolvidas em nossa capacidade de suportar uma alterao de conscincia  uma percepo alterada de ser um indivduo para se sentir um com o Universo (Deus, nirvana, euforia).
      Praticantes de meditao no Tibete e freiras franciscanas foram convidados a meditar ou orar no interior de uma mquina Spect. Eles foram instrudos a puxar uma corda de algodo quando atingissem o clmax meditativo ou se sentissem unificados com Deus. Esses experimentos identificaram mudanas na atividade neurolgica em regies muito especficas do crebro. Primeiro, houve uma reduo na atividade dos centros de linguagem do hemisfrio esquerdo, resultando em silncio da conversa interna. Segundo, houve reduo de atividade na rea de associao e orientao, localizada no giro parietal posterior do hemisfrio esquerdo. Essa regio do lado esquerdo do crebro nos ajuda a identificar os limites fsicos pessoais. Quando essa rea  inibida ou exibe reduzida implementao de nossos sistemas sensoriais, perdemos de vista onde comeamos e terminamos com relao ao espao que nos cerca.
      Graas a essa pesquisa, entendi que faz sentido, do ponto de vista neurolgico, que quando meus centros de linguagem do hemisfrio esquerdo foram silenciados e minha rea de associao e orientao do 

1. Why God Wont Go Away, cit.
lado esquerdo foi interrompida com relao ao estmulo sensorial normal, minha conscincia de sentir-me como algum slido se alterou para outra percepo, e eu me senti ento como um ser fluido, uno com o Universo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 14
    
    
    LADOS DIREITO E ESQUERDO
    DO CREBRO
    
      Entendo que qualquer que seja a informao processada (ou no processada) nos meus dois hemisfrios, ainda experimento o coletivo de mim mesma como uma entidade nica, com mente nica. Acredito que a conscincia que exibimos  a conscincia coletiva das clulas em funcionamento, e que os dois hemisfrios se complementam enquanto criam uma percepo do mundo nica e sem emendas. Se as clulas e os circuitos que reconhecem rostos esto funcionando corretamente, sou capaz de reconhecer uma pessoa pelo rosto. Se no, uso outras informaes para identificar essa pessoa, como a voz, os gestos, ou o jeito de andar. Se o circuito celular que entende a linguagem est intacto, posso ento entender quando algum fala. Se as clulas e o circuito que me lembram continuadamente quem sou e onde vivo so destrudos, meu conceito de mim mesma ser alterado de modo permanente. Isto , a menos que outras clulas no meu crebro aprendam a desenvolver essas funes especficas. Como um computador, se no tenho um programa para processamento de texto, no posso executar essa funo.
      Quando avaliamos as caractersticas nicas dos dois hemisfrios cerebrais e como eles processam informao de maneira diferente, parece bvio que manifestem sistemas de valor nico que, em decorrncia, resultariam em personalidades muito diferentes. Algumas pessoas desenvolvem esses dois personagens e so muito competentes na utilizao de capacidades e personalidades dos dois lados do crebro, permitindo que se apoiem, se influenciem e se mesclem mutuamente enquanto o indivduo leva a vida. Outras, porm, so unilaterais no pensamento, exibindo padres de pensamento extremamente rgidos que so analiticamente crticos (lado esquerdo extremo do crebro), ou raramente se conectando com uma realidade comum, passando a maior parte do tempo "com a cabea nas nuvens" (lado direito extremo do crebro).
      Criar um equilbrio saudvel entre os dois personagens que existem em ns nos permite continuar cognitivamente flexveis, o suficiente para receber bem a mudana (hemisfrio direito) e ainda permanecer objetivos o bastante para manter um percurso estabelecido (hemisfrio esquerdo). Aprender a valorizar e utilizar todos os dons cognitivos abre nossa existncia para a obra-prima de vida que realmente somos. Imagine o mundo de considerao e compaixo que poderamos criar se assim decidssemos.
      Infelizmente, a expresso da compaixo  sempre uma raridade em nossa sociedade. Muitos investem quantidade extraordinria de tempo e energia degradando, insultando e criticando a si prprios (e os outros) por terem tomado uma deciso "errada" ou "ruim". Quando voc se critica duramente, alguma vez j se perguntou: Quem dentro de mim est promovendo a gritaria, e com quem estou gritando? J notou como esses padres internos de pensamento negativo tm a tendncia de gerar nveis mais elevados de hostilidade interior e/ou nveis exacerbados de ansiedade? E, para complicar ainda mais as coisas, j notou como o dilogo interno negativo pode influenciar negativamente como voc trata os outros e, portanto, o que atrai?
      Como criaturas biolgicas, somos indivduos profundamente poderosos. Uma vez que as redes neuronais so feitas de neurnios que se comunicam com outros neurnios no circuito, o comportamento dessas redes se torna bastante previsvel. Quanto mais ateno consciente conferimos a qualquer circuito especfico, ou quanto mais tempo passamos nos voltando a pensamentos especficos, mais mpeto esse circuito ou esses padres de pensamento tm para funcionar novamente com mnimo estmulo externo.
      Alm disso, a mente humana  um instrumento altamente sofisticado de busca. Somos projetados para focar o que quer que estejamos procurando. Se busco vermelho no mundo, vou encontr-lo em todos os lugares. Talvez s um pouco no incio, mas, quanto mais tempo passar focada em encontrar o vermelho, mais verei o vermelho em todos os lugares.
      Minhas duas personalidades hemisfricas no s pensam nas coisas de maneira diferente, mas processam emoes e sustentam meu corpo de maneiras facilmente distinguveis. Nesse ponto, at meus amigos so capazes de reconhecer quem est entrando na sala pela maneira como sustento os ombros, e adivinham o que est acontecendo pela ruga existente em minha testa. Meu hemisfrio direito  todo sobre aqui, agora. Ele se movimenta com incontrolvel entusiasmo e no tem nenhuma preocupao no mundo. Ele sorri muito e  extremamente amistoso. Em oposio, meu hemisfrio esquerdo se preocupa com detalhes e administra minha vida com um cronograma rgido. Ele  meu lado mais srio. Ele enrijece minha mandbula e toma decises com base no que aprendeu no passado. Define limites e julga tudo como certo/errado ou bom/mau. E, oh, sim, ele faz aquela ruga na minha testa.
      O lado direito de minha mente trata da riqueza do momento presente. Ele  cheio de gratido por minha vida e por tudo e todos que existem nela.  contente, cheio de compaixo, protetor e um eterno otimista. Para o personagem do lado direito de minha mente, no h julgamento de bom/mau ou certo/errado, por isso tudo existe em um continuum de relatividade. Ele toma as coisas como so e reconhece o que h no presente. A temperatura  hoje mais baixa que ontem. No importa. Hoje vai chover. No faz diferena. Ele pode observar que uma pessoa  mais alta que outra, ou que essa pessoa tem mais dinheiro que aquela, mas essas observaes so feitas sem julgamento. Para o lado direito de minha mente, somos todos membros iguais da famlia humana. Esse lado no percebe ou confere importncia a limites territoriais ou artificiais como raa ou religio.
      Uma das maiores bnos que recebi como resultado dessa hemorragia foi ter a chance de rejuvenescer e fortalecer meus circuitos de inocncia e alegria interior. Graas a esse derrame, tornei-me livre para explorar de novo o mundo com curiosidade infantil. Na ausncia de perigo bvio e imediato, eu me sinto segura no mundo e caminho pela terra como se estivesse no meu quintal. Na conscincia do lado direito de minha mente, somos todos unidos como a trama universal do potencial humano, e a vida  boa e somos todos belos, exatamente como somos.
      O personagem do lado direito de minha mente  aventureiro, gosta de celebrar a abundncia e  socialmente adepto. Ele  sensvel  comunicao no verbal, emptico, e decodifica emoo com preciso. O lado direito de minha mente  aberto ao fluxo eterno que me faz existir como um ser unificado ao Universo.  o assento de minha mente divina, o conhecedor, a mulher sbia, o observador.  minha intuio e minha conscincia mais elevada. O lado direito de minha mente  sempre presente e se perde no tempo.
      Uma das funes naturais do lado direito  trazer-me novo conhecimento nesse momento, de forma que eu possa atualizar velhos arquivos que contm informaes desatualizadas. Por exemplo, quando eu era criana, no comia abbora. Graas a meu hemisfrio direito, dei uma segunda chance  abbora e agora adoro esse alimento. Muitos fazem julgamentos com o hemisfrio esquerdo e depois no se dispem a passar pela sensao ao lado direito (isto , para a conscincia do hemisfrio direito) para uma atualizao de arquivo. Para muitos, uma vez tomada a deciso, o indivduo fica ligado a ela para sempre. lenho constatado que a ltima coisa que um hemisfrio esquerdo realmente dominante quer  dividir seu limitado espao craniano com uma contraparte direita de mente aberta!
      O lado direito da mente  aberto a novas possibilidades e pensa para alm dos limites. Ele no  limitado por regras e regulamentaes estabelecidas pelo lado esquerdo, que cria os limites. Em consequncia, o lado direito de minha mente  altamente capaz em sua disponibilidade de experimentar algo novo. Ele reconhece que o caos  o primeiro passo do processo criativo.  cinestsico, gil, e adora a capacidade de meu corpo mover-se no mundo de maneira fluida.  sintonizado com as mensagens sutis que minhas clulas comunicam atravs de sentimentos viscerais, e aprende pelo toque e pela experincia.
      O lado direito de minha mente celebra sua liberdade no Universo e no  cativo do meu passado, nem teme o que o futuro pode ou no trazer. Ele honra minha vida e a sade das minhas clulas. E no se preocupa apenas com o corpo; preocupa-se com a forma fsica do corpo e com a sade mental como uma sociedade, e tambm com o relacionamento com a Me-Terra.
      A conscincia do lado direito da mente aprecia que cada clula do corpo (exceto as clulas vermelhas do sangue) contenha exatamente o mesmo gnio molecular do zigoto original que foi criado quando a clula-ovo de nossa me se combinou  clula-espermatozide de nosso pai. Esse lado entende que sou o poder da fora da vida de 50 trilhes de gnios moleculares que esculpem minha forma! (E ele canta sobre isso regularmente!) Ele entende que somos todos ligados uns aos outros num complexo tecido do cosmos, e marcha com entusiasmo no ritmo do prprio tambor.
      Livre de toda percepo de limites, o lado direito de minha mente proclama: "Sou parte disso tudo. Somos irmos e irms neste planeta. Estamos aqui para ajudar a fazer desse mundo um lugar mais pacfico e bom". O lado direito v unidade entre todas as entidades vivas, e espero que voc conhea intimamente esse trao dentro de voc.
      
      
      Por mais que adore a atitude, a abertura, o entusiasmo com que o lado direito de minha mente abraa a vida,  claro, o lado esquerdo  tambm fabuloso. Por favor, lembre que esse  o personagem que reconstru durante a maior parte da ltima dcada. O lado esquerdo de minha mente  responsvel por pegar toda aquela energia, toda aquela informao sobre o momento presente e todas aquelas magnficas personalidades percebidas pelo lado direito, e torn-las algo administrvel.
      O lado esquerdo de minha mente  o instrumento que uso para me comunicar com o mundo externo. Como o lado direito pensa em painis de imagens, o lado esquerdo pensa em linguagem e fala comigo sempre. Usando o papo do crebro, ele no s me mantm  frente da minha vida, mas tambm manifesta minha identidade. Pela capacidade que o centro de linguagem do lado esquerdo tem de dizer "eu sou", eu me torno uma entidade independente e separada do fluxo eterno. Como tal, torno-me algum slido, singular, separado do todo.
      Nosso lado esquerdo do crebro  realmente uma das melhores ferramentas do Universo quando se trata de organizar informao. A personalidade de meu hemisfrio esquerdo se orgulha de sua capacidade de categorizar, organizar, descrever, julgar e analisar de maneira crtica absolutamente tudo. Ela prospera em sua constante contemplao e clculo. Independentemente de minha boca estar se movendo ou no, o lado esquerdo da mente permanece ocupado teorizando, racionalizando e memorizando. Ele  um perfeccionista e um fabuloso administrador, seja de uma corporao ou de uma casa. Ele diz constantemente: "Tudo tem um lugar e tudo pertence a seu lugar". O personagem do lado direito da mente valoriza a humanidade, enquanto o do lado esquerdo se preocupa com finanas e economia.
      Na escala do fazer, o lado esquerdo  multitarefa e adora desempenhar tantas funes quantas forem possveis ao mesmo tempo.  uma abelha realmente ocupada e mede parcialmente seu valor por quantos itens consegue riscar da lista de afazeres dirios. Por pensar em sequncia, ele  excelente em manipulao mecnica. Sua habilidade para focar diferenas e distinguir caractersticas faz dele um construtor natural.
      Meu lado esquerdo do crebro  particularmente dotado para a identificao de padres. Como resultado,  perito no processamento rpido de grandes volumes de informao. Para acompanhar as experincias da vida no mundo externo, esse lado processa informao com rapidez impressionante  muito mais depressa do que o hemisfrio direito, que, em comparao, tende a ir atrs de sua contraparte. Em alguns momentos, o lado esquerdo de minha mente pode tornar-se manaco, enquanto o direito tem potencial para ser preguioso.
      Essa diferena na velocidade do pensamento, no processamento de informao e na expresso do pensamento, palavra ou ato entre os dois hemisfrios est em parte ligada a suas habilidades nicas de processar diferentes tipos de informao sensorial. Nosso lado direito do crebro percebe os comprimentos de onda de luz mais longos. Como resultado, a percepo visual do lado direito  de alguma forma difusa ou suavizada. Essa ausncia de percepo de limites nos permite focar a cena mais ampla de como as coisas se relacionam umas com as outras. De maneira similar, o lado direito da mente se sintoniza com as frequncias mais baixas de som, que so prontamente geradas pelos sons internos corporais e outros tons naturais. Em decorrncia, o lado direito  biologicamente projetado para sintonizar com prontido nossa fisiologia.
      Ao contrrio, o lado esquerdo do crebro percebe as ondas de luz mais curtas, o que aumenta sua capacidade de delinear claramente limites. Sendo assim, esse lado  biologicamente perito na identificao de linhas de separao entre entidades adjacentes. Ao mesmo tempo, os centros de linguagem do hemisfrio esquerdo entram em sintonia com as frequncias mais altas de som, o que os ajuda a detectar, discriminar e interpretar tons comumente associados  linguagem verbal.
      Uma das caractersticas mais proeminentes do lado esquerdo do crebro  sua habilidade de tecer histrias. Essa poro de contador de histrias do centro de linguagem  especialmente projetada para dar sentido ao mundo que nos rodeia, tendo por base quantidades mnimas de informao. Ela funciona valendo-se de quaisquer detalhes disponveis e trabalhando com eles, e depois os urde em formato de histria. O mais impressionante  que o lado esquerdo do crebro  brilhante em sua capacidade de criar coisas e preencher as lacunas existentes entre os dados factuais. Alm disso, durante o processo de gerar uma histria, o hemisfrio esquerdo  genial em sua habilidade de forjar cenrios alternativos. E, se o assunto desperta em voc um interesse realmente passional, seja esse sentimento positivo ou negativo, ele  particularmente eficiente em se ligar queles circuitos de emoo e esgotar todas as possibilidades do tipo "e se".
      Quando os centros de linguagem de meu hemisfrio esquerdo se recuperaram e se tornaram novamente funcionais, passei a dedicar muito tempo  observao de como meu contador de histrias tirava concluses tendo por base informao mnima. Por muito tempo, considerei cmicas essas tticas do meu contador de histrias. Pelo menos at perceber que o lado esquerdo de minha mente realmente esperava que o restante de meu crebro acreditasse nas histrias que ele criava! Durante essa ressurreio do personagem e das habilidades do lado esquerdo, tem sido extremamente importante que eu retenha a compreenso de que esse lado de meu crebro est fazendo o melhor que pode com a informao de que dispe para trabalhar. Preciso lembrar, porm, que h enormes lacunas entre o que sei e o que penso saber. Aprendi que tenho de ser muito cautelosa com o potencial do meu contador de histrias para formular drama e trauma.
      Nessa mesma linha, enquanto o lado esquerdo do crebro produzia de maneira entusiasmada histrias que ele promovia como verdades, ele tinha tendncia a ser redundante, manifestando grupos de padres de pensamento que reverberavam por minha mente, muitas e muitas vezes. Para muitos, esses grupos de pensamentos correm desenfreados e nos encontramos habitualmente imaginando possibilidades devastadoras. Infelizmente, como sociedade, no ensinamos s crianas que elas precisam cuidar do jardim da mente. Sem estrutura, censura ou disciplina, nossos pensamentos rodam no automtico. Por no termos aprendido como administrar com mais cuidado o que acontece no interior da cabea, continuamos vulnerveis no s ao que outras pessoas pensam sobre ns, mas tambm  manipulao publicitria e/ou poltica.
      A poro do meu crebro esquerdo que escolhi no recuperar foi a poro desse carter que tinha o potencial para ser cruel, preocupar-se sem cessar ou ser verbalmente abusivo com relao aos outros ou a mim mesma. Para ser sincera, eu apenas no gostava de como essas atitudes eram sentidas fisiologicamente no interior do meu corpo. Meu peito ficava oprimido, eu podia sentir minha presso subindo e a tenso na testa me dava dor de cabea. Alm disso, eu queria deixar para trs todos os meus antigos circuitos emocionais que estimulavam automaticamente a resposta de replay instantneo de memrias dolorosas. Descobri que a vida  muito curta para ser infestada com sofrimento do passado.
      Durante o processo de recuperao, descobri que a poro de meu carter que era teimosa, arrogante, sarcstica e/ou invejosa residia no ego central daquele lado esquerdo danificado do crebro. Essa poro de minha mente-ego tinha a capacidade de me fazer lidar mal com a perda, guardar ressentimentos, contar mentiras e at buscar vingana. Redespertar esses traos de personalidade era muito perturbador para a inocncia recm-descoberta do lado direito de minha mente. Com muito esforo, escolhi conscientemente recuperar o ego central do lado esquerdo de minha mente sem dar vida renovada queles velhos circuitos.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 15
    
    
    ASSUMA o COMANDO
      
      
      Defino responsabilidade (resposta-habilidade) como a capacidade de escolher como vamos responder ao estmulo que chega pelo sistema sensorial em dado momento no tempo. Embora existam certos programas do sistema lmbico (emocional) que podem ser acionados de maneira automtica, so necessrios menos que 90 segundos para um desses programas ser acionado, percorrer nosso corpo, e depois ser completamente banido da corrente sangunea. Minha resposta de raiva, por exemplo,  uma resposta programada que pode ser disparada automaticamente. Uma vez desencadeada, a qumica liberada por meu crebro percorre meu corpo e tenho a experincia fisiolgica. Noventa segundos depois do disparo inicial, o componente qumico da raiva dissipou-se completamente do meu sangue e minha resposta automtica est encerrada. Se, porm, me mantenho zangada depois desses 90 segundos,  porque escolhi manter o circuito rodando. Momento a momento, fao a escolha de me ligar ao neurocircuito ou recuar para o momento presente, permitindo que aquela reao desaparea de minha fisiologia.
      A novidade realmente excitante sobre reconhecer meus personagens do lado direito e do lado esquerdo  que tenho sempre uma forma alternativa de olhar para qualquer situao. Meu copo est meio cheio ou meio vazio? Se voc me aborda com raiva e frustrao, fao a escolha de refletir sua raiva e me envolver na discusso (crebro esquerdo) ou ser emptica e responder com um corao compreensivo (crebro direito). O que muitos no percebem  que estamos fazendo escolhas inconscientes sobre como respondemos o tempo todo.  to fcil se deixar prender pelos fios da nossa reatividade pr-programada (sistema lmbico) que vivemos navegando no piloto automtico. Aprendi que, quanto mais ateno minhas clulas corticais superiores do ao que est acontecendo no interior do meu sistema lmbico, mais eu posso decidir sobre o que estou pensando e sentindo. Prestando ateno s escolhas que meu circuito automtico est fazendo, apodero-me da minha fora e fao escolhas de maneira consciente. No final assumo a responsabilidade pelo que atraio para minha vida.
      Hoje em dia, passo muito tempo pensando sobre pensar, simplesmente porque considero meu crebro fascinante. Como disse Scrates: "Uma vida sem reflexo no merece ser vivida". No h nada mais fortalecedor do que perceber que no preciso pensar em coisas que me causam dor.  claro que no h nada de errado em pensar sobre essas coisas, desde que eu tenha conscincia de que estou escolhendo me envolver nesse circuito emocional. Ao mesmo tempo,  libertador saber que tenho o poder consciente de parar de ter esses pensamentos quando estou saciada deles.  libertador saber que tenho a habilidade de escolher uma mente pacfica e amorosa (a do lado direito), sejam quais forem minhas circunstncias fsicas ou mentais, decidindo dar um passo  direita e trazer meus pensamentos de volta ao momento presente.
       mais comum que eu escolha observar o ambiente com olhos que no julgam, os do lado direito da mente, que me permitem conservar minha alegria interior e permanecer distante daquele circuito emocional carregado. S eu decido se alguma coisa vai ter uma influncia positiva ou negativa sobre minha psique. Recentemente, estava dirigindo pela estrada e cantando em voz alta, acompanhando meu CD favorito de Ginger Curry1, entoando "ALEGRIIIIIA em meu corao". Para meu espanto, fui parada por excesso de velocidade (aparentemente, havia excesso de entusiasmo ao volante). Desde que fui multada, tive de repetir pelo menos cem vezes a deciso de no ficar triste com isso. 

1. Disponvel em www.gingercurry.com.
      Aquela voz da negatividade estava sempre tentando se erguer e me deprimir. Eu queria rever o drama muitas vezes, repeti-lo sem parar em minha cabea, de todos os ngulos, mas, independentemente de minha contemplao, a situao teria sempre o mesmo desfecho. Com honestidade, considero essa obsesso do lado esquerdo de minha mente contadora de histrias uma perda de tempo e um dreno emocional. Graas a meu derrame, aprendi que tenho o controle e paro de pensar sobre os eventos passados, realinhando-me conscientemente com o presente.
      Apesar de tudo isso, h algumas ocasies em que escolho me colocar no mundo como um ego central slido, nico, separado de voc. s vezes  s uma grande satisfao contrapor minhas coisas do hemisfrio esquerdo s suas coisas do hemisfrio esquerdo, seja em conversa ou debate acalorado. Normalmente, no gosto de sentir a agressividade no interior do meu corpo, por isso evito o confronto hostil e escolho a compaixo.
      Para mim,  realmente fcil ser bondosa com os outros quando me lembro de que nenhum de ns veio ao mundo com um manual sobre como fazer tudo correta-mente. Somos, em ltima anlise, um produto de nossa biologia e do ambiente. Em decorrncia, escolho ter compaixo com os outros quando considero quanta bagagem emocional dolorosa somos biologicamente programados para carregar por a. Reconheo que erros sero cometidos, mas isso no significa que preciso me tornar vtima ou considerar aes e erros de forma pessoal. Suas coisas so suas coisas, e minhas coisas so minhas coisas. Sentir profunda paz interior e partilhar bondade  sempre uma escolha para cada um de ns. Perdoar os outros e eu mesma  sempre uma escolha. Ver esse momento como um momento perfeito  sempre uma escolha.
      
      
      
      
      
    Captulo 16
    
    
    CLULAS E CIRCUITO
    MULTIDIMENSIONAL
      
      
      Meu bom amigo, Dr. Jerry Jesseph, vive segundo a filosofia: "Paz deve ser o lugar de onde partimos, no o lugar que tentamos conquistar". Interpreto essa colocao como uma indicao de que devemos partir da conscincia pacfica do hemisfrio direito e usar as habilidades do lado esquerdo de nossa mente para interagir com o mundo exterior. Ele tambm cunhou a expresso "conscincia dupla interpenetrante" para descrever o relacionamento entre as duas metades do crebro. Creio que essa  uma perspectiva profunda e precisa. Graas ao corpo caloso, os dois hemisfrios so to intrinsecamente interligados que nos percebemos como um indivduo nico. Porm, pela compreenso de que somos duas distintas manifestaes no mundo, podemos escolher de maneira espontnea ter muito mais controle do que imaginvamos sobre o que ocorre no interior do crebro.
      O lado esquerdo de meu crebro tornou-se competente outra vez quando recuperou a capacidade de processar informao em alta velocidade. Agora que ele est totalmente conectado outra vez, tem a tendncia de reengajar-se com a vida num ritmo que me parece alucinante, a um milho de quilmetros por hora.  desnecessrio dizer que a competio natural entre os centros de linguagem do meu hemisfrio esquerdo e a experincia de paz interior do meu hemisfrio direito me colocaram de volta na condio humana normal. Parte de mim se alegra por eu ser to funcional novamente. Uma parte ainda maior est aterrorizada.
      A experincia de perder o lado esquerdo de meu crebro abriu minha mente para olhar de maneira mais positiva as pessoas que sofreram vrias formas de trauma cerebral. Sempre me pergunto, na ausncia da linguagem ou da capacidade de se comunicar com os outros de modo normal, que conhecimentos ou habilidades essa pessoa desenvolveu? No sinto pena das pessoas que so diferentes de mim ou que no so mais percebidas como normais. Percebo que pena no  uma resposta apropriada. Em vez de rejeitar algum que  diferente, aproximo-me dessas pessoas com bondade e curiosidade. Sinto-me fascinada por seu carter nico e quero estabelecer uma conexo significativa, mesmo que seja s um contato visual direto, um sorriso simptico ou um toque apropriado.
      Quando assumo a responsabilidade pelas circunstncias da minha vida, sento-me ao volante dela e ganho poder. Numa tentativa de preservar minha sanidade (um corao pacfico) em um mundo que sempre parece estar girando perigosamente depressa, continuo trabalhando duro para manter um relacionamento saudvel entre o que acontece no lado direito de minha mente e no esquerdo. Adoro saber que sou to grande quanto o Universo (dependendo do hemisfrio solicitado) quanto apenas um gro de poeira estelar.
      
      
      O crebro de cada um de ns  diferente, mas quero dividir com o leitor algumas coisas simples que descobri serem verdadeiras para o meu. Parece que, quanto mais tenho conscincia sobre como influencio as energias  minha volta, mais posso opinar e interferir no que acontece comigo. Para monitorar como as coisas esto acontecendo em minha vida, presto muita ateno a como tudo flui, ou no flui, no mundo a meu redor. Dependendo do que estou atraindo, assumo a responsabilidade por como as coisas ocorrem e fao ajustes conscientes ao longo do caminho. Isso no significa que estou completamente no controle de tudo que acontece comigo. Porm, estou no controle de como escolho pensar e sentir a respeito dessas coisas. At mesmo os eventos negativos podem ser percebidos como valiosas lies de vida, se me disponho a dar um passo  direita e experimentar a situao com compaixo.
      Agora que os centros de linguagem e o contador de histrias do lado esquerdo de minha mente voltaram a funcionar com normalidade, descobri que minha mente no s cria contos incrveis, mas tem tambm a tendncia a se ligar a padres negativos de pensamento. Descobri que o primeiro passo para sair desses grupos reverberantes de pensamento ou emoo negativa  reconhecer quando estou presa a eles. Para algumas pessoas, prestar ateno ao que o crebro diz  algo natural. Porm, muitos de meus alunos na faculdade reclamam com veemncia sobre ser necessrio muito esforo mental para que possam apenas observar o que o crebro est dizendo. Aprender a ouvir seu crebro na posio de testemunha, sem julgar, pode exigir prtica e pacincia, mas, quando voc domina essa habilidade, torna-se livre para ir alm dos preocupantes dramas e traumas criados por seu contador de histrias.
      Quando torno conscincia de que trilhas cognitivas meu crebro est percorrendo, foco em como essas trilhas me fazem sentir no nvel fisiolgico. Estou alerta? Minhas pupilas se dilataram? Minha respirao  superficial ou rpida? Sinto opresso no peito? Minha cabea roda? Meu estmago est embrulhado? Estou irritada ou ansiosa? Minhas pernas tremem? Trilhas neuronais (circuitos) de medo, ansiedade ou raiva podem ser desencadeadas por todo tipo de estmulo. Mas, uma vez disparadas, essas emoes distintas produzem uma resposta fisiolgica previsvel que voc pode observar conscientemente mediante treino.
      Quando meu crebro percorre trilhas que so julgadoras, rgidas, contraproducentes, ou que escapam ao controle, espero 90 segundos para que a resposta emocional/fisiolgica se dissipe, e ento falo com meu crebro como se me dirigisse a um grupo de crianas. Digo com sinceridade: "Reconheo sua capacidade de elaborar pensamentos e sentir emoes, mas no estou mais interessada em ter esses pensamentos ou sentir essas emoes. Por favor, pare de trazer  tona esse contedo". Em essncia, estou pedindo conscientemente ao meu crebro que pare de se prender a um padro especfico de pensamento. Pessoas diferentes fazem a mesma coisa de maneira diferente,  claro. Alguns indivduos usam a frase: "Cancelar! Cancelar!", ou exclamam para o prprio crebro: "Estou ocupado!", ou dizem: "Chega! Pare com isso!"
      Apenas ter esses pensamentos com minha autntica voz interior, porm,  sempre insuficiente para que eu transmita a mensagem ao meu contador de histrias, que est empenhado em colocar em prtica sua funo normal. Descobri que quando agrego um sentimento apropriado a essas frases, e as penso com afeto genuno, meu contador de histrias torna-se mais acessvel a esse tipo de comunicao. Se tenho dificuldade para fazer meu crebro me ouvir, acrescento um componente sinestsico  mensagem, como apontar um dedo para o ar, ou me colocar em p e firme com as mos na cintura. A me que censura a criana  mais eficiente quando diz o que est pensando com paixo e comunica sua mensagem de modo multidimensional.
      Acredito realmente que 99,999% das clulas do meu crebro e corpo querem que eu seja feliz, saudvel e bem-sucedida. Uma pequena poro do contador de histrias, porm, no parece estar incondicionalmente ligada  minha alegria, e  excelente em explorar padres de pensamento que tm o potencial de realmente dilapidar meu sentimento de paz interior. Esse grupo de clulas tem recebido muitos nomes: alguns dos meus favoritos so Galeria Amendoim, Conselho de Diretores e Pequeno Comit de M#*?!. Essas so as clulas de nossa mente verbal que tm grande habilidade e plenos recursos para percorrer as trilhas de tristeza e desespero. Essas clulas se atm aos atributos negativos da inveja, do medo e da ira. Prosperam quando esto choramingando, reclamando ou partilhando com todos sua viso de como tudo  horrvel.
      Em situaes extremas de desconsiderao celular, uso minha voz autntica para dar ao centro de linguagem Galeria Amendoim um cronograma bastante restritivo e rgido. Dou a meu contador de histrias permisso para choramingar bastante entre as 9 e as 9h30 da manh, e depois novamente entre as 9 e 9h30 da noite. Se ele, por acidente, perde a hora ao choramingo, no pode se dedicar a esse comportamento at a prxima hora marcada. Minhas clulas entendem com rapidez a mensagem de que estou falando srio a respeito de no me deixar arrastar por essas trilhas de pensamento negativo  mas isso s acontece se eu for persistente e determinada o bastante na ateno que dedico a quais circuitos esto ativos em meu crebro.
      Acredito piamente que prestar ateno  conversa mental  de vital importncia para a sade da mente.  Para mim, tomar a deciso de que abuso verbal interno no  um comportamento aceitvel  o primeiro passo para encontrar profunda paz interior. Para mim, tem sido incrivelmente fortalecedor perceber que a poro negativa do meu contador de histrias tem s o tamanho de um amendoim! Imagine como a vida era doce quando essas clulas rabugentas estavam em silncio! Recuperar o lado esquerdo de minha mente significou ter de dar voz a todas as minhas clulas de novo. Porm, aprendi que para proteger minha sade mental geral preciso cuidar do jardim da mente e manter essas clulas sob controle. Descobri que meu contador de histrias precisa apenas de um pouco de diretiva disciplinadora da mente consciente sobre o que eu quero em oposio ao que considero inaceitvel. Graas  nossa linha aberta de comunicao, meu eu autntico participa muito mais do que est acontecendo com esse grupo especfico de clulas; e eu passo pouco tempo ligada a padres de pensamento imprprios ou indesejados.
      Dito isso, porm, acabo sempre me divertindo com as tticas e as estratgias de meu contador de histrias em resposta a esse tipo de diretiva. Descobri que, como crianas pequenas, essas clulas podem desafiar a autoridade de minha voz autntica e testar minha convico. Se ordeno que se calem, elas param por um momento, mas voltam imediatamente a percorrer aquelas trilhas proibidas. Se no sou persistente no meu desejo de pensar sobre outras coisas, e iniciar com conscincia novos circuitos de pensamento, essas trilhas indesejadas podem gerar nova fora e comear outra vez a monopolizar minha mente. Para enfrentar essa atividade, mantenho sempre  mo uma lista de trs coisas disponveis para as quais direcionar minha conscincia quando for necessrio: 
      1) lembrar alguma coisa que considero fascinante e sobre a qual gostaria de refletir mais profundamente; 
      2) pensar em algo que me traga imensa alegria; ou 
      3) pensar em alguma coisa que eu gostaria de fazer. Quando estou desesperada para mudar de ideia, uso essas ferramentas.
      Tambm descobri que, quando menos espero  se estou fisicamente cansada ou emocionalmente vulnervel , aqueles circuitos negativos tm a tendncia de mostrar sua cara feia. Quanto mais me mantenho consciente sobre o que meu crebro est dizendo e como esses pensamentos me fazem sentir no plano fsico, mais detenho o poder de escolha sobre o que quero pensar e sentir. Se quero preservar minha paz interior, devo me dispor a cuidar do jardim da mente com persistncia e consistncia, momento a momento, e devo estar disposta a tomar a deciso mil vezes por dia.
      
      
      Nossos padres de pensamentos esto fundamentados em circuitos multidimensionais ricos que podemos aprender a analisar. Primeiro, cada padro de pensamento tem um assunto  algo sobre o que estou pensando cognitivamente. Por exemplo, digamos que esteja pensando na minha cachorrinha Nia, que passou boa parte de seus oito anos de vida sentada no meu colo, ajudando-me a escrever este livro. Pensar em Nia  um circuito especfico em meu crebro. Segundo, cada padro de pensamento pode ou no ser acompanhado por um circuito emocional adjacente do qual sou conhecedora. No caso de Nia, em geral sinto grande alegria quando penso nela, porque estou pensando em uma criatura muito amorosa. Em meu crebro, o circuito para o assunto Nia est intimamente ligado ao circuito emocional da alegria.
      Por fim, esses circuitos especficos de pensamento e emoo tambm podem estar ligados a alguns dos meus circuitos fisiolgicos mais complexos, que, com estimulao, resultariam em comportamento previsvel. Por exemplo: quando penso em Nia (circuito de pensamento), experimento o sentimento de alegria (circuito emocional) e, com frequncia, grande excitao (circuito fisiolgico), e me dedico ao comportamento apropriado  relao com o filhote (circuito multidimensional). Reverto minha voz de modo instantneo para um tom infantil e minhas pupilas se dilatam. Minha alegria torna-se palpvel, e balano com espontaneidade o corpo como se balanasse a cauda! Ainda, em adio a esse circuito de excitao e animao, em outras ocasies tambm me sinto inclinada a responder ao pensamento sobre Nia com tristeza avassaladora  porque lamento a perda da minha adorada amiga de quatro patas. No instante da mudana para esse determinado pensamento, e para seus circuitos subjacentes, emocional e fisiolgico, meus olhos podem se encher de lgrimas. Empurrada para a trilha do luto e da dor, sinto o peito oprimido, minha respirao se torna rpida, e fico deprimida. Sinto os joelhos fracos, minha energia diminui, e sucumbo  disposio sombria.
      Esses pensamentos e sentimentos passionais tm o potencial de saltar instantaneamente para o interior de minha mente. Mas, depois de seus 90 segundos, tenho o poder de escolher de forma consciente que trilhas emocionais e fisiolgicas desejo percorrer. Acredito que  vital para a sade que estejamos sempre atentos a quanto tempo passamos conectados ao circuito da raiva, ou do desespero. Manter a conexo com esses grupos de emoes carregadas por longos perodos pode ter consequncias devastadoras para o bem-estar fsico e mental, porque eles exercem grande poder sobre os circuitos emocionais e fisiolgicos. Porm, com tudo isso colocado,  igualmente importante que reconheamos essas emoes que surgem em ns. Quando sou movida por meu circuito automtico, agradeo s minhas clulas por sua capacidade de experimentar aquela emoo, e depois fao a escolha de trazer de volta meus pensamentos ao momento presente.
      Encontrar o equilbrio entre observar o circuito e se engajar nele  essencial para a cura. Embora comemore a capacidade de meu crebro de experimentar todas as minhas emoes, sou cautelosa com relao a quanto tempo sigo percorrendo qualquer trilha em particular. A maneira mais saudvel que conheo para superar com eficincia uma emoo  se render completamente a ela quando sua trilha de fisiologia se apresenta. Apenas resigno-me com a trilha e me deixo percorr-la por 90 segundos. Como crianas, emoes se acalmam quando so ouvidas e validadas. Com o tempo, a intensidade e a frequncia desses circuitos em geral diminuem.
      Pensamentos realmente poderosos so percebidos como tal porque percorrem ao mesmo tempo mltiplos circuitos de emoo e fisiologia. Pensamentos que definiramos como neutros so percebidos assim porque no esto estimulando circuitos complexos. Prestar ateno a quais conjuntos de circuitos estamos percorrendo nesse momento nos d grande conhecimento sobre como a mente  fundamentalmente conectada e, em consequncia disso, como podemos cuidar com maior eficincia do nosso jardim.
      
      
      Alm de passar muito tempo conversando com as clulas do meu crebro, tenho tido um grande caso de amor com os 50 trilhes de gnios moleculares que compem meu corpo. Sou to agradecida por eles estarem vivos e funcionando em harmonia que confio implicitamente na capacidade deles de me trazer sade. A primeira coisa que fao todas as manhs e a ltima todas as noites  abraar meu travesseiro, cruzar os dedos das mos e agradecer de maneira consciente s minhas clulas por mais um dia esplndido. Digo em voz alta:
       Obrigada, garotas. Obrigada a todas vocs por mais um grande dia!
      Digo essas palavras com um intenso sentimento de gratido em meu corao. Depois, suplico s minhas clulas: Por favor, curem-me, e visualizo as clulas imunolgicas respondendo.
      Amo de maneira incondicional minhas clulas, e manifesto esse sentimento com corao e mente abertos. Ao longo do dia, reconheo com naturalidade a existncia delas e as congratulo com grande entusiasmo, incentivando-as a prosseguir. Sou um ser vivo maravilhoso capaz de direcionar minha energia para o mundo, s por causa delas. Quando meu intestino se movimenta, aplaudo minhas clulas por limparem de meu corpo aqueles dejetos. Quando minha urina flui, admiro o volume que as clulas da minha bexiga so capazes de armazenar. Quando sinto fome e no h alimento prximo, lembro minhas clulas de que tenho combustvel (gordura) estocado no quadril. Quando me sinto ameaada, agradeo s minhas clulas pela capacidade de lutar, fugir ou se fingir de mortas.
      Ao mesmo tempo, ouo meu corpo quando ele fala comigo. Se me sinto cansada, durmo. Se me sinto agitada, me movimento. Se sinto dor, fico quieta, cuido da origem do desconforto, e me rendo conscientemente  dor, o que ajuda a dissip-la. A dor  o instrumento que as clulas usam para comunicar ao crebro que h trauma em alguma parte do corpo. As clulas estimulam os receptores de dor para fazer o crebro focar aquela rea e dar ateno a ela. Assim que o crebro reconhece a existncia de dor, ela serviu seu propsito; ento, ou diminui em intensidade, ou desaparece.
      Do meu ponto de vista, a mente humana focada  o instrumento mais poderoso do Universo, e, pelo uso da linguagem, o lado esquerdo do crebro pode direcionar (ou impedir) a cura fsica e a recuperao. O lado esquerdo de minha mente-ego verbal funciona como lder de torcida para os meus 50 trilhes de gnios moleculares, e, quando encorajo periodicamente minhas clulas como um  isso a, garotas!, no posso deixar de pensar que isso induz algum tipo de vibrao no interior do meu corpo que promove um ambiente propcio  cura. Acredito que, quando minhas clulas esto saudveis e felizes, eu estou saudvel e feliz.
      Nada disso significa que pessoas com verdadeira doena mental podem escolher por completo o que acontece no interior de seu crebro. Porm, creio que todos os sintomas de vrias enfermidades mentais derivam de uma base biolgica: que clulas se comunicam com que clulas, com quais substncias qumicas e em que quantidades dessas substncias. A pesquisa cerebral est caminhando com rapidez para a compreenso dos neurocircuitos que esto na base da doena mental, e,  medida que nosso conhecimento cresce, haver tambm maior compreenso sobre como podemos ajudar as pessoas a monitorar a sade da mente e cuidar dela de maneira mais eficiente.
      Com relao s opes de tratamento, temos a capacidade de influenciar as clulas cerebrais pelo uso de medicamento; eletricamente, pela estimulao eltrica; e cognitivamente, pela psicoterapia. O propsito do tratamento mdico deveria ser elevar a capacidade de partilhar uma realidade comum. Sou a favor de as pessoas explorarem que recursos podem ajud-las a se conectar com mais prontido aos outros. Infelizmente, 60% dos indivduos com diagnstico de esquizofrenia no reconhecem que esto doentes. Como resultado, no procuram nem do valor ao tratamento e sempre adotam automedicao na forma de abuso de drogas ou lcool. At mesmo o uso sem prescrio dessas substncias (por qualquer um) reduz a capacidade de partilhar uma realidade comum, e pode, portanto, ser contraproducente  sade de maneira geral.
      Embora alguns defendam o direito  insanidade, acredito que  direito civil de todos experimentar a sanidade e partilhar de uma realidade comum, seja qual for a causa da enfermidade ou do trauma cerebral.
      
      
      
      
    Captulo 17
    
    
    ENCONTRE SUA PAZ
    INTERIOR PROFUNDA
      
      
      Esse derrame de sabedoria me deu o valioso presente de saber que a paz interior profunda est a um pensamento (ou sentimento) de distncia. Experimentar a paz no quer dizer que a vida  sempre perfeita. Significa que voc  capaz de chegar ao estado mental de tranquilidade em meio ao caos normal de uma vida frentica. Percebo que para muitos a distncia entre a mente pensante e o corao piedoso s vezes parece ser quilomtrica. Algumas pessoas percorrem essa distncia com um comando. Outras esto to comprometidas com a falta de esperana, a raiva e a infelicidade que o mero conceito de um corao pacfico parece estranho e fictcio.
      Com base em minha experincia de perder o lado esquerdo da mente, acredito inteiramente que o sentimento de paz interior est localizado no circuito neurolgico do lado direito do crebro. Esse circuito est sempre ativo e disponvel para nos ligarmos a ele. O sentimento de paz  algo que acontece no momento presente. No  algo que trazemos conosco do passado ou um projeto para o futuro. O primeiro passo para experimentar a paz interior  a disponibilidade para estar presente no aqui, no agora.
      Quanto mais conscincia temos de quando percorremos a trilha de paz interior profunda, mais fcil  escolhermos com conscincia estabelecer ligao com esse circuito. Alguns tm dificuldade para reconhecer quando esto percorrendo esse circuito s porque tm a mente distrada por outros pensamentos. Isso faz sentido, uma vez que a nossa sociedade (ocidental) honra e recompensa as habilidades de "fazer" do lado esquerdo do crebro muito mais do que as habilidades de "ser" do hemisfrio direito. Assim, se voc tem dificuldade para acessar a conscincia do circuito do lado direito de sua mente, deve ser porque fez um trabalho estupendo aprendendo exatamente o que lhe ensinaram enquanto voc crescia. Congratule suas clulas pelo sucesso, e, como diz meu bom amigo, Dr. Kat Domingo: "Esclarecimento no  um processo de aprendizado;  um processo de desaprendizado".
      Como os dois hemisfrios trabalham juntos para gerar nossa percepo de realidade em uma base momento a momento, exercitamos o lado direito da mente o tempo todo. Assim que voc aprender a reconhecer os sentimentos sutis (e a fisiologia) que percorrem seu corpo quando est conectado ao circuito do momento presente, pode ento se treinar para reativar esse circuito sob demanda. Vou dividir com voc uma variedade de maneiras pelas quais eu me lembro de voltar  conscincia e  personalidade do lado direito, pacfico e presente, de meu crebro.
      A primeira coisa que fao para experimentar paz interior  lembrar que sou parte de uma estrutura maior  um eterno fluxo de energia e molculas do qual no posso ser separada (veja Captulo 19). Saber que fao parte do fluxo csmico me faz sentir segura e experimentar minha vida como o paraso na Terra. Como posso me sentir vulnervel quando no  possvel me separar do todo maior? O lado esquerdo de minha mente pensa em mim como um indivduo frgil capaz de perder a vida. O lado direito percebe que a essncia do meu ser tem vida eterna. Embora eu possa perder essas clulas e minha habilidade de perceber esse mundo tridimensional, minha energia vai simplesmente ser absorvida de volta para o tranquilo mar de euforia. Saber disso me faz sentir grata pelo tempo que tenho aqui e me sinto entusiasmada e comprometida com o bem-estar das clulas que constituem minha vida.
      Para voltar ao momento presente, devemos reduzir com conscincia a velocidade da mente. Para isso, primeiro afirme que voc no est com pressa. O lado esquerdo de sua mente pode estar apressando voc, pensando, deliberando e analisando, mas o lado direto da mente  muito moderado.
      Agora, alm de ler este livro, o que voc est fazendo? Est percorrendo alguma trilha cognitiva alm de fazer sua leitura? Est olhando para o relgio ou sentado em um lugar movimentado? Tome conscincia de seus pensamentos externos, agradea a eles pelo servio, e pea que se calem por algum tempo. No estamos pedindo a eles que partam;  s para pressionar o boto pausa por alguns poucos minutos. Fique tranquilo; eles no iro a lugar nenhum. Quando estiver pronto para se religar ao seu contador de histrias, ele se conectar novamente sem demora.
      Quando estamos ligados a pensamentos cognitivos e percorrendo trilhas mentais, do ponto de vista tcnico no estamos no momento presente. Podemos estar pensando sobre algo que j aconteceu ou sobre alguma coisa que ainda no aconteceu, e, apesar de nosso corpo estar aqui, agora, a rnente est em outro lugar. Para voltar  experincia do momento presente, permita que sua conscincia se desvie daquelas trilhas cognitivas que o distraem do que est acontecendo agora.
      Pense em sua respirao, se quiser. Como est lendo este livro,  provvel que esteja sentado numa posio relaxada. Inspire profundamente. V em frente,  bom. Leve o ar ao peito e veja sua barriga inchar. O que est acontecendo no interior de seu corpo? Ele est em posio confortvel? Seu estmago est calmo ou agitado? Voc est com fome? Tem a bexiga cheia? A boca est seca? Suas clulas parecem cansadas ou renovadas? Como est sua nuca? Faa uma pausa de todos os pensamentos que possam distra-lo e observe sua vida por um momento. Onde voc est sentado? Como  a iluminao? Como voc se sente em relao ao local onde est sentado? Inspire profundamente mais uma vez. E de novo. Relaxe dentro de seu corpo, suavize esse momento; voc  um ser humano vivo e prspero! Deixe esse sentimento de celebrao e gratido inundar sua conscincia.
      Para me ajudar a encontrar o caminho de volta para o lado direito pacfico de minha mente, olho para como meu corpo organiza informao em sistemas e lida com ela de acordo com circuitos j estabelecidos. Descubro que prestar ateno  informao sensorial no momento em que ela penetra meu corpo  uma ferramenta muito til. Porm, no foco somente informao sensorial, mas me conecto conscientemente  experincia fisiolgica na base desse circuito sensorial. Pergunto a mim mesma repetidamente: Qual  a sensao de estar aqui fazendo isso?
      Comer, beber e sentir alegria so coisas que acontecem no presente momento. A boca contm vrios tipos de receptores sensoriais que nos permitem no s sentir diferentes sabores, mas perceber texturas nicas e temperaturas variadas. Tente observar com mais ateno como  diferente o sabor dos alimentos. Preste ateno  textura de comidas distintas e qual  a sensao de t-las na boca. Que alimentos voc classificaria como divertidos, e por qu? Adoro perseguir aquelas pequeninas bolas de gelatina no sagu. Espaguete tambm  uma excelente textura para brincar. Porm, o que considero mais divertido em matria de comida  extrair o interior de ervilhas congeladas e esmagar pur de batatas por entre os dentes. Sei que sua me deve ter expurgado esses comportamentos do seu repertrio quando voc ainda era pequeno, mas na privacidade da sua casa no h nada de mais em se divertir.  realmente difcil ser tomada por pensamentos estressantes quando voc est se divertindo com comida!
      Alm dos atributos fsicos do consumo de alimentos,  de vital importncia considerarmos o impacto fisiolgico que o alimento tem sobre corpo e mente. Saindo do foco do valor nutricional, tente prestar ateno a como determinados alimentos fazem seu corpo se sentir. Acar e cafena me deixam agitada minutos depois do consumo.  uma sensao que no aprecio, por isso tento evit-los. Comer coisas que contm triptofano (leite, bananas e peru) eleva com rapidez os nveis de serotonina em meu crebro, tornando-me mais afvel. Escolho deliberadamente esses alimentos quando quero me concentrar e me sentir calma.
      Em geral, carboidratos transformam-se imediatamente em acar e fazem meu corpo se sentir letrgico, e minha mente, espstica. Tambm no gosto de como os carboidratos provocam minha resposta acar/insulina e depois me deixam com forte desejo de consumir mais desses alimentos. Gosto de como as protenas me do energia sem estimular altos e baixos emocionais. Voc pode ter respostas diferentes a esses alimentos, e isso  comum. Uma dieta balanceada  importante, mas prestar ateno a como voc queima calorias e como essas comidas fazem voc se sentir por dentro deve ser uma prioridade.
      Uma das maneiras mais fceis de mudar a disposio de quase todo mundo (para melhor ou pior)  estimular o olfato. Se voc  muito sensvel, a vida no mundo real pode ser insuportvel. Tirar proveito do nariz para voltar ao momento presente  fcil. Acenda uma vela perfumada e deixe a fragrncia de baunilha, rosa ou amndoa elev-lo alm de sua percepo de estresse. Quando aromas aleatrios passam por voc, conec-te-se a essa trilha cognitiva e dedique um tempo de qualidade ao esforo de identificar o cheiro. Pontue-o em uma escala de um a dez com os extremos representando prazer ou repugnncia. Lembre-se de sentir a fisiologia que est na base dos diferentes aromas. Deixe-os mov-lo para o aqui e agora.
      Se voc tem problema com o olfato, acredito que, a menos que os circuitos tenham sido interrompidos de modo permanente,  possvel elevar sua sensibilidade. Quando voc presta ateno deliberadamente aos cheiros que o cercam, est enviando ao crebro uma mensagem dizendo que valoriza aquela conexo. Se quiser melhorar o olfato, passe mais tempo sentindo cheiros diferentes e conversando com suas clulas! Deixe-as saber que voc deseja que elas aprimorem essa habilidade. Se estiver disposto a mudar seu comportamento de maneira a passar mais tempo pensando conscientemente sobre os cheiros que est sentindo, e estiver disposto a focar a mente no ato de cheirar, as conexes neuronais sero reforadas e se tornaro bem mais fortes.
      Com relao  viso, h basicamente duas maneiras de usar os olhos. Agora, por exemplo, olhe para a paisagem  sua frente. O que voc v? O lado direito de sua mente registra o panorama mais amplo. Enxerga a imagem como um todo, onde tudo  relativo. Observa toda a amplitude sem se focar em nenhum detalhe. O lado esquerdo foca imediatamente o contorno dos objetos individuais e delineia as entidades especficas que compem o panorama.
      Quando me coloco sobre o topo de uma montanha e deixo meus olhos relaxarem, o hemisfrio direito absorve a magnitude da paisagem em aberto. Do ponto de vista fisiolgico, sinto a majestade daquela viso geral no fundo do meu ser, e sinto-me humilde diante da beleza esplndida do planeta. Posso recordar esse momento reconstruindo a viso ou recordando o sentimento que ela provoca. O lado esquerdo da mente, contudo,  completamente diferente. Ele foca a ateno nos tipos especficos de rvores, nas cores do cu, e analisa os sons de diferentes aves. Discrimina os tipos de nuvens, delineia os desenhos das rvores e registra a temperatura do ar. 
      Agora, por exemplo, faa uma pausa na leitura. Feche os olhos e identifique trs sons que voc ouve. V em frente. Relaxe a mente e expanda a percepo. O que voc ouve? Preste ateno e amplie a audio. Estou aqui sentada perto de uma montanha, ao lado de um conservatrio, e meus ouvidos captam os sons de um riacho que passa do lado de fora da janela. Quando foco a mente em sons distantes, ouo fragmentos de msica clssica produzida por crianas que praticam com seus instrumentos. Focando a audio mais perto de mim, registro o ronco do aquecedor, bem aqui na sala, e ele me aquece.
      
      
      Ouvir msica que voc aprecia, na ausncia de anlise cognitiva ou julgamento,  outra excelente maneira de voltar ao aqui e agora. Deixe o som mov-lo no apenas emocional, mas fisicamente. Deixe o corpo balanar e danar no ritmo da cano. Perca as inibies e deixe o corpo ser levado pelo fluxo da msica.
       claro, a ausncia de som pode ser igualmente bela. Adoro colocar os ouvidos sob a gua na banheira e criar um espao de vcuo sonoro. lambem foco os rudos do meu corpo, quando ocorrem, e elogio minhas clulas por seu esforo contnuo. Descobri que minha mente se distrai facilmente quando h muito estmulo auditivo, por isso sempre trabalho, ou viajo, usando protetores auriculares. Acredito que impedir a estimulao que sobrecarrega meu crebro  minha responsabilidade, e protetores auriculares tm sido verdadeiros defensores da minha sanidade em muitas ocasies.
      Nosso maior e mais diversificado rgo sensorial  a pele. Como o crebro roda ao mesmo tempo vrios circuitos que pensam, experimentam emoo ou envolvem combinaes especficas de reatividade fisiolgica, a pele  coberta por pequeninos receptores capazes de detectar vrias formas especficas de estmulo. Como ocorre com os outros sentidos, somos todos nicos em relao  sensibilidade ao recebermos um toque suave,  presso, ao calor, ao frio,  vibrao e  dor. Alguns se adaptam mais depressa que outros. Embora muitos no passem muito tempo pensando sobre as roupas depois de vesti-las, outros permanecem to sensveis que tm a mente obcecada pelo peso ou a textura das peas. Agradeo sempre a minhas clulas por sua capacidade de adaptao ao estmulo. Imagine como teramos a mente sempre preocupada se no pudssemos nos adaptar.
      Vamos fazer mais uma experincia. Interrompa novamente a leitura e, desta vez, feche os olhos e pense sobre a informao que voc est detectando pela pele. Qual  a temperatura do ar? Qual  a textura de suas roupas? Suave, spera, leve, pesada? Alguma coisa o pressiona? Um travesseiro, ou animal de estimao encostado em seu corpo? Pense em sua pele por um momento. Voc consegue sentir o relgio, ou os culos sobre o nariz? E os cabelos caindo sobre os ombros?
      Da perspectiva teraputica, talvez no haja nada mais ntimo que o toque, seja ele a ligao fsica com outro ser humano, com um amigo peludo ou mesmo com as plantas de casa. Os benefcios fsicos de nutrir e ser nutrido por esse contato so incomensurveis. Tomar um banho e sentir a gua correr por seu corpo  uma excelente maneira de traz-lo de volta ao momento presente. Sentir a presso da gua sobre a pele, seja durante um banho de banheira ou na piscina,  uma excelente forma de estmulo por presso e temperatura. Permita a essas formas de atividade o poder de traz-lo de volta ao aqui e agora. Treine-se para prestar mais ateno a quando seus diferentes circuitos so estimulados. Enquanto isso, encoraje-os a funcionar.
      A massagem corporal tambm  tima por vrias razes. Ela no s alivia a tenso nos msculos, como tambm aumenta a movimentao de fluidos no ambiente celular. O mundo interno do seu corpo  o meio pelo qual as clulas obtm nutrio e eliminam seus dejetos. Apoio com entusiasmo qualquer tipo de estmulo que eleve o padro de vida que elas tm.
      Uma das minhas alternativas favoritas de usar o toque para voltar ao aqui e agora  pelos pingos de chuva. Caminhar na chuva  uma experincia multidimensional que me toca profundamente. Gotas de gua atingindo meu rosto levam-me de maneira instantnea para a beleza e a inocncia do lado direito de minha mente enquanto me sinto envolvida por um profundo sentimento de purificao. Sentir o calor do sol em meu rosto conecta-me diretamente com uma parte de mim que se sente unificada com tudo que h. Adoro ficar na beira do oceano com os braos abertos, voando no vento. Recordando os cheiros, sons, sabores, e como me senti por dentro, posso me levar de volta ao nirvana em um instante.
      Quanto mais ateno prestamos aos detalhes de como as coisas parecem, soam, cheiram e so sentidas pela pele e fisiologicamente no interior do corpo, mais fcil  para o crebro recriar qualquer momento. Substituir padres indesejados de pensamento por imagens vvidas pode nos ajudar a desviar a conscincia para a paz interior profunda. Embora seja timo utilizar os sentidos para recriar uma experincia, acredito que o verdadeiro poder na recriao experimental esteja na habilidade de lembrar como sentimos a fisiologia por trs disso tudo.
      No posso encerrar esta seo sobre o uso da estimulao sensorial para conduzir-nos de volta ao momento presente sem mencionar os tpicos da energia dinmica e da intuio. Aqueles que tm hemisfrios direitos muito sensveis certamente entendero o que estou dizendo. Ao mesmo tempo, entendo que, para muitos, se o lado esquerdo da mente no consegue cheirar, saborear, ouvir, ver ou tocar,  inevitvel reagir com ceticismo  existncia de determinado objeto. O lado direito do crebro  capaz de detectar energia alm das limitaes do lado esquerdo devido  maneira como ele  desenhado. Espero que seu nvel de desconforto com relao a coisas como energia dinmica e intuio tenha diminudo na medida em que voc aumentou sua compreenso sobre as diferenas fundamentais na maneira pela qual os dois hemisfrios colaboram para criar uma percepo nica de realidade.
      Lembrar que somos seres de energia projetados para perceber e traduzir energia em cdigo neural pode ajudar o leitor a ter mais conscincia da prpria dinmica energtica e intuio. Voc consegue sentir o clima ao entrar em um ambiente? s vezes estranha o fato de se sentir contente num minuto, e cheio de medo no instante seguinte? O hemisfrio direito  criado para perceber e decifrar a sutil dinmica de energia que percebemos de maneira intuitiva.
      Desde o derrame, direciono minha vida quase inteiramente para essa ateno focada, a fim de descobrir como pessoas, lugares e coisas me fazem sentir em nvel energtico. Porm, para ouvir a sabedoria intuitiva do lado direito de meu crebro, tenho de reduzir conscientemente a velocidade do lado esquerdo da mente evitando assim me deixar levar pela correnteza de meu falastro contador de histrias. Intuitivamente, no questiono por que me sinto atrada em nvel subconsciente por algumas pessoas e situaes, mas rejeito outras. Apenas ouo meu corpo e confio em meus instintos.
      Ao mesmo tempo, o hemisfrio direito honra o fenmeno de causa e efeito. Em um mundo de energia, onde tudo influencia tudo, parece ingnuo que eu desconsidere as percepes e o conhecimento do lado direito de minha mente. Se estou atirando com arco e flecha, por exemplo, no foco apenas o centro do alvo, mas trao o caminho entre a ponta da flecha e o centro do alvo. Visualizo a perfeita quantidade de fora exercida por meus msculos quando eles impulsionam a flecha, e foco a mente na fluidez do processo, no s na finalidade do produto final. Descubro que, quando minha percepo se expande e imagino a experincia, minha preciso aumenta. Se voc est envolvido com alguma prtica esportiva, tem o poder de escolher como quer perceber-se em relao ao alvo ou objetivo. Voc pode se ver como uma entidade separada  posiciona-se como ponto A e seu alvo  o ponto Z  ou pode se ver unificado ao alvo e no fluxo com todos os tomos e molculas no espao entre um extremo e outro.
      O hemisfrio direito percebe a imagem maior e reconhece que tudo que nos cerca, envolve, cobre e preenche  feito de partculas de energia, que so tecidas numa trama universal. Como tudo  conectado, h um relacionamento ntimo entre o espao atmico em torno e dentro de mim, e o espao atmico em torno e dentro de voc  no importa onde estamos. Em nvel energtico, se penso em voc ou oro por voc, envio boas vibraes em sua direo e estou, de modo consciente, enviando-lhe minha energia com inteno curativa. Se medito com voc ou imponho minhas mos sobre sua ferida, estou direcionando deliberadamente a energia do meu ser para ajudar em seu processo de cura. Como o Reiki, o Feng Shui, a acupuntura ou a orao (s para mencionar alguns exemplos) funcionam ainda  um mistrio para os mdicos. Isso acontece basicamente porque o hemisfrio esquerdo e a cincia ainda no captaram o que entendemos ser verdade sobre as funes do hemisfrio direito. Porm, acredito que o lado direito da mente  perfeitamente claro sobre como percebe com a intuio e interpreta a dinmica da energia.
      
      
      Deixando de lado o assunto dos sistemas sensoriais, tambm podemos usar as habilidades do sistema motor para alterar a perspectiva para o aqui e agora. Relaxar propositalmente os msculos que voc costuma manter tensos pode ajud-lo a liberar energia represada e promover bem-estar. Estou sempre verificando a tenso em minha testa e, de maneira inevitvel, se no consigo dormir  noite, relaxo a mandbula e adormeo em seguida. Pensar no que ocorre com seus msculos  uma excelente maneira de trazer a mente para o presente. Comprimi-los e relax-los de forma sistemtica pode ajud-lo a voltar ao aqui e agora.
      Muitas pessoas utilizam movimento e exerccio para controlar a mente. Ioga, tcnica Feldenkrais e tai chi so ferramentas fabulosas para desenvolvimento pessoal, relaxamento e crescimento. Esportes que no envolvem competio tambm so excelentes para lev-lo de volta ao corpo e afast-lo do hemisfrio esquerdo. Caminhar na natureza, cantar, criar e tocar msica ou mergulhar nas artes pode alterar facilmente sua perspectiva, trazendo-o de volta ao momento presente.
      Outro caminho para mudar o foco e afast-lo das trilhas envolventes do lado esquerdo da mente cognitiva  o uso proposital da voz para interromper esses padres de pensamento que consideramos preocupantes ou que nos distraem. Utilizar padres repetitivos de som como um mantra (que literalmente significa "lugar para descansar a mente")  muito til. Respirando profundamente e repetindo a frase Neste momento eu recupero minha alegria, ou Neste momento sou perfeito, inteiro e belo, ou Sou um inocente e pacfico filho do Universo, conduzo minha conscincia de volta ao hemisfrio direito.
      Ouvir a meditao verbal que me guia para um padro de pensamento com emoo e fisiologia  outra excelente opo para desviar minha mente das trilhas indesejadas. A prece, pela qual usamos a mente para substituir intencionalmente padres de pensamento indesejados por outros escolhidos,  outra forma de guiarmos a mente de modo consciente para longe da incessante repetio verbal e para um lugar mais pacfico.
      Adoro usar a voz em sintonia com o som de recipientes variados. Existem alguns bem grandes de delicado cristal de quartzo. Quando tocados, esses recipientes ressonam de maneira to poderosa que posso sentir a vibrao at nos meus ossos. Minhas preocupaes no tm a menor chance de ocupar a mente quando esses sons so produzidos.
      Tambm utilizo o Angel Cards1 (Baralho dos Anjos) vrias vezes por dia para me ajudar a permanecer focada no que acredito ser importante na vida. O baralho original Angel Cards vem com conjuntos de cartas de tamanhos variados com uma nica palavra escrita em cada uma delas. Todas as manhs, quando me levanto, convido um anjo a entrar em minha vida e tiro uma carta. Ento, foco minha ateno naquele anjo especfico durante todo o dia. Se me sinto estressada ou tenho de fazer um telefonema importante, tiro outra carta do baralho e invoco outro anjo para me ajudar a mudar minha disposio mental. Estou sempre tentando me manter aberta ao que o Universo vai me trazer. Uso o Angel Cards para me conduzir a um estado de generosidade de esprito, uma vez que realmente aprecio o que atraio quando estou aberta. Alguns anjos so: Entusiasmo, Abundncia, Educao, Clareza, Integridade, Diverso, Liberdade, Responsabilidade, Harmonia, Graa e Nascimento. Extrair as cartas dos anjos  uma das ferramentas mais simples e eficientes que encontrei para me ajudar a desviar a mente do julgamento do hemisfrio esquerdo. 
      Se tivesse de escolher uma palavra de efeito (ao) para o lado direito de meu crebro, escolheria compaixo. Sugiro que voc se pergunte: o que significa ter compaixo? Em que circunstncias se v inclinado a sentir isso e como percebe a compaixo no interior de seu corpo?
      Em geral, muitos tm compaixo por aqueles que percebem como seus semelhantes. Quanto menos ligados estamos  inclinao do ego para a superioridade, mais generosos de esprito podemos ser com os  outros. Quando nos comportamos com compaixo, consideramos as circunstncias dos outros com amor, em vez de utilizarmos o julgamento. 
      
1. Disponvel em www.innerlinks.com.
      Vemos um sem-teto ou um psictico e nos aproximamos com o corao aberto, em vez de sentirmos medo, repulsa ou agressividade. Pense na ltima vez em que voc se aproximou de algum ou de alguma coisa com compaixo genuna. Que sersao voc experimentou em seu corpo? Ter compaixo  se mover para o hemisfrio direito do crebro, para o aqui e agora, com o corao aberto e a disponibilidade para apoiar.
      Se tivesse de escolher uma palavra para descrever o que experimento na essncia do lado direito de minha mente, escolheria alegria. O hemisfrio direito fica eufrico por estar vivo! Sinto-me fascinada quando considero que sou simultaneamente capaz de estar unificada com o Universo e manter uma identidade individual com a qual me movimento pelo mundo e manifesto progresso.
      Se voc perdeu a capacidade de sentir alegria, esteja certo de que o circuito ainda est a. Ele est apenas inibido por outro circuito mais ansioso e/ou temeroso. Como eu gostaria que voc pudesse se desfazer de sua bagagem emocional, como eu perdi a minha, e retornar a seu estado natural de alegria! O segredo para conectar-se a um desses estados pacficos  a disposio para interromper as trilhas de pensamento cognitivo, a preocupao e quaisquer ideias que o distraiam da experincia sensorial e cinestsica de estar no aqui e agora. Porm, mais importante  que nosso desejo por paz seja mais forte do que nossa ligao com a infelicidade, com o ego e com a necessidade de estar certo. Adoro aquele velho ditado: "Voc quer ter razo, ou quer ser feliz?"
      Pessoalmente, gosto muito da sensao da felicidade em meu corpo e, portanto, escolho me conectar com regularidade a esse circuito. Sempre me perguntei: Se isso  uma escolha, ento por que algum escolheria outra coisa que no a felicidade? Posso apenas especular, mas suponho que muitos apenas no percebam que temos a possibilidade de escolher e, portanto, no exercitam essa capacidade de escolha. Antes do derrame, eu pensava ser um produto do meu crebro e no tinha ideia de que podia opinar sobre como respondia s emoes que surgiam em mim. Em nvel intelectual, percebi que podia monitorar e mudar meus pensamentos cognitivos, mas nunca imaginei que tivesse alguma influncia sobre como percebia minhas emoes. Ningum jamais me havia dito que so necessrios apenas 90 segundos para a bioqumica capturar-me e, depois, me libertar. Que enorme diferena essa conscincia tem feito em como conduzo minha vida.
      Outra razo pela qual podemos no escolher a felicidade  que, ao sentir emoes intensas e negativas, como raiva, inveja ou frustrao, estamos rodando ativamente programas complexos no crebro que sentimos como familiares e que nos fazem sentir fortes e poderosos. Conheo pessoas que escolhem exercitar seus circuitos de raiva com regularidade apenas porque isso as ajuda a lembrar como  se sentirem elas mesmas.
      Tenho a mesma facilidade para acionar o circuito da felicidade. De fato, da perspectiva biolgica, a felicidade  o estado natural de ser do lado direito de minha mente. Como tal, esse circuito est sempre ativo e disponvel para meu uso. Meu circuito da raiva, por outro lado, nem sempre est ativo, mas pode ser disparado quando sinto algum tipo de ameaa. Assim que a resposta fisiolgica passa pela corrente sangunea, posso retomar minha alegria.
      
      
      Em ltima anlise, tudo que experimentamos  um produto de nossas clulas e dos respectivos circuitos. Quando voc se coloca em sintonia com como sente cada um dos diferentes circuitos em seu corpo, pode escolher como quer ser no mundo. Pessoalmente, tenho uma espcie de alergia s sensaes de medo e/ou ansiedade. Quando essas emoes me inundam, sinto tamanho desconforto que gostaria de poder abandonar meu corpo. Por no gostar da sensao fisiolgica gerada por essas emoes, tenho a tendncia de evitar conectar-me a esses circuitos com regularidade.
      Minha definio favorita de medo  "expectativas falsas que parecem reais", e, quando me permito lembrar que todos os meus pensamentos so apenas fugaz fisiologia, sou menos afetada quando meu contador de histrias fica desordenado e meu circuito  desencadeado. Ao mesmo tempo, quando lembro que estou unificada com o Universo, o conceito de medo perde seu poder. Para me proteger de uma resposta de raiva ou medo, assumo a responsabilidade por quais circuitos exercito e estimulo. Numa tentativa de reduzir o poder de minha resposta de medo/raiva, escolho intencionalmente no assistir a filmes de terror ou me envolver com pessoas cujos circuitos de raiva sejam desencadeados com facilidade. Fao escolhas que causam impacto direto nos meus circuitos. Como gosto de ser alegre, prefiro me relacionar com pessoas que valorizem minha alegria.
      Como mencionei antes, a dor fsica  um fenmeno fisiolgico especificamente projetado para alertar o crebro da ocorrncia de dano a algum tecido do corpo.  importante perceber que somos capazes de sentir dor fsica sem nos conectarmos ao circuito emocional do sofrimento. Lembro como as crianas pequenas so corajosas quando esto gravemente enfermas. Os pais podem percorrer a trilha emocional do medo e do sofrimento, enquanto a criana parece se adaptar a doena sem o mesmo drama emocional negativo. Experimentar a dor pode no ser uma escolha, mas sofrer  uma deciso cognitiva. Quando uma criana adoece,  sempre mais difcil para ela lidar com o sofrimento dos pais do que suportar a enfermidade.
      O mesmo pode valer para qualquer indivduo doente. Por favor, tome cuidado com que circuitos voc estimula quando vai visitar algum que no est bem. A morte  um processo natural pelo qual todos vamos passar. Perceba que no fundo do lado direito de sua mente (a essncia da conscincia do seu corao) h paz eterna. A maneira mais fcil que encontrei para retornar a um estado de paz e graa foi pelo ato da gratido. Quando me sinto grata, a vida  tima!
      
      
      
      
    Captulo 18
    
    
    CUIDAR DO JARDIM
   
      Aprendi tanto com essa experincia do derrame, que me sinto afortunada por ter realizado essa jornada. Graas a esse trauma, tive a chance de testemunhar em primeira mo algumas coisas sobre meu crebro que, de outra forma, nunca teria imaginado. Por esses insights simples serei eternamente grata, no s por mini, mas pela esperana que essas possibilidades podem trazer a como ns, como indivduos, escolhemos ver e nutrir nosso crebro, e, em decorrncia, nos comportamos no planeta.
      Sou grata por sua disponibilidade para se juntar a mim nessa intensa jornada. Espero sinceramente que, quaisquer que tenham sido as circunstncias que o levaram a ler este livro, voc siga em frente levando agora algum conhecimento sobre seu crebro ou o crebro de outro indivduo. Confio com a conscincia de meu hemisfrio direito que este livro agora passar das suas mos para as de algum que dele possa se beneficiar.
      Sempre termino meus e-mails com uma citao de Einstein. Acredito que ele acertou quando disse: "Preciso me dispor a desistir do que sou para me tornar o que serei". Aprendi da maneira mais difcil que minha habilidade de estar no mundo depende por completo da integridade do meu neurocircuito. Clula por clula, circuito por neurocircuito, a conscincia que experimento no interior de meu crebro  a conscincia coletiva estabelecida por aquelas maravilhosas pequenas entidades que tecem a rede que chamo de minha mente. Graas  sua plasticidade neural,  habilidade de mudar e transferir suas conexes a outras clulas, voc e eu andamos pela terra com a capacidade de sermos flexveis em nosso pensamento, adaptveis ao ambiente e capazes de escolher quem e como queremos ser no mundo. Felizmente, quem escolhemos ser hoje no  predeterminado por quem fomos ontem.
      Vejo o jardim de minha mente como uma propriedade csmica que o Universo me confiou e da qual espera que eu cuide e conserve ao longo dos anos de vida. Como agente independente, s eu, em conjuno com o gnio molecular do meu DNA e os fatores ambientais a que estou exposta, decorarei o espao interior do meu crnio. Nos primeiros anos, tenho pouca influncia sobre que circuitos crescem em meu crebro, porque sou o produto da terra e das sementes que herdei. Mas, para nossa sorte, o gnio de nosso DNA no  um ditador, e, graas  plasticidade dos neurnios, do poder do pensamento e das maravilhas da medicina moderna, poucos desfechos so absolutos.
      No importa o jardim que herdei; assim que assumo de maneira consciente a responsabilidade de cuidar de minha mente, escolho nutrir os circuitos que quero fazer crescer, e realizo a poda consciente daqueles sem os quais prefiro viver. Embora seja mais fcil arrancar uma erva daninha quando ela ainda est brotando da terra, com determinao e perseverana, at as trepadeiras mais robustas, quando privadas de nutrientes, acabaro perdendo a fora e sucumbindo.
      A sade mental de nossa sociedade  estabelecida pela sade mental dos crebros que a formam, e devo admitir que a civilizao ocidental  um ambiente muito desafiador para meu pacfico e amoroso personagem do lado direito do crebro. Obviamente, no estou sozinha no que sinto, como me sugerem os milhes de indivduos que escolheram escapar da realidade comum valendo-se de drogas ilcitas e lcool.
      Creio que Ghandi estava certo ao dizer: "Devemos ser a mudana que queremos ver no mundo". Percebo que a conscincia de meu hemisfrio direito est ansiosa, esperando que a humanidade d aquele salto gigantesco e d um passo  direita, de forma que possamos fazer o planeta evoluir e transformar-se no lugar de paz e amor que queremos que ele seja.
      Seu corpo  a fora de vida de cerca de 50 trilhes de gnios moleculares. Voc e eu escolhemos momento a momento quem e como queremos ser no mundo. Eu o incentivo a prestar ateno ao que acontece em seu crebro. Assuma o comando e se mostre para a vida. Brilhe!
      E, quando sua fora de vida se exaurir, espero que voc d ao mundo o presente da esperana e doe seu belo crebro.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 19
    
    
    CINCIA SIMPLES
      
      
      Para que dois indivduos se comuniquem um com o outro, devem ter em comum certa poro de realidade. Portanto, o sistema nervoso deve ser virtualmente idntico na capacidade de perceber informao do mundo externo, processar e integrar essa informao no crebro, e ter ainda sistemas similares de expresso, entre eles pensamento, linguagem ou ao.
      A emergncia de vida foi um evento muito impressionante. Com o advento do organismo unicelular, surgiu uma nova era de processamento de informao em nvel molecular. Pela manipulao de tomos e molculas em sequncias de DNA e RNA, a informao pde ser penetrada, codificada e estocada para uso futuro. Momentos no tempo j no vm e vo sem um registro e, interligando um continuum de momentos sequenciais num fio comum, a vida da clula evoluiu como uma ponte sobre o tempo. No muito depois, as clulas encontraram um jeito de se manter e trabalhar juntas, cujo resultado foi a minha e a sua produo.
      De acordo com o American Heritage Dictionary, evoluir biologicamente significa "desenvolver-se por processos evolucionrios de uma forma primitiva para outra bem mais organizada"1. O crebro molecular do DNA da Terra  um poderoso e bem-sucedido programa gentico, no s porque se adapta a constantes mudanas, mas tambm porque espera, aprecia e tira proveito das oportunidades de se transformar em algo ainda mais magnfico.
      
         1. Second College Edition. Boston: Houghton Mifflin Company, 1985.
      
       talvez interessante notar que o cdigo gentico humano  construdo pelos mesmos exatos quatro nucleotdeos (molculas complexas) de todas as outras formas de vida do planeta. Tomando como base nosso DNA, somos parentes das aves, dos rpteis, dos anfbios, de outros mamferos e at das plantas. Da perspectiva puramente biolgica, ns, seres humanos, somos o exemplo claro da possibilidade gentica de mutao da espcie.
      Por mais que gostemos de pensar que a vida humana alcanou a perfeio biolgica, apesar de nosso desenho sofisticado, no representamos um cdigo gentico terminado e/ou perfeito. O crebro humano existe em permanente estado de mudana. At o crebro de nossos ancestrais de 2 mil ou 4 mil anos atrs no parecia idntico ao crebro do homem de hoje. O desenvolvimento da linguagem, por exemplo, alterou a estrutura anatmica e as redes celulares do crebro humano.
      Boa parte dos diferentes tipos de clulas no nosso corpo morre e  substituda num espao de algumas semanas ou meses. Porm, neurnios, a clula primria do sistema nervoso, no se multiplicam (em sua maioria) depois de nascermos. Isso significa que a maior parte dos neurnios do seu crebro hoje  to velha quanto voc. Essa longevidade dos neurnios responde de maneira parcial  dvida de por que nos sentimos praticamente os mesmos interiormente aos 10 anos e aos 30, ou aos 77. As clulas do crebro so as mesmas, embora, com o tempo, as conexes mudem de acordo com as experincias pelas quais passamos.
      O sistema nervoso humano  uma entidade maravilhosamente dinmica composta de um nmero estimado de l trilho de clulas. Para lhe dar uma ideia de como esse nmero  enorme, considere que h aproximadamente 6 bilhes de pessoas no planeta, e teremos de multiplicar todos esses 6 bilhes de indivduos por 166 apenas para somarmos o nmero de clulas que se combinam para criar um nico sistema nervoso!
       claro, nosso corpo  muito mais que um sistema nervoso. De fato, o corpo humano adulto tpico  composto por, aproximadamente, 50 trilhes de clulas. Isso seria 8,333 vezes os 6 bilhes de habitantes do planeta! O que  espantoso  que esse imenso conglomerado de clulas sseas, clulas musculares, clulas de tecido conectivo, clulas sensoriais etc. tende a se entender e trabalhar em conjunto para gerar a sade perfeita.
      A evoluo biolgica em geral ocorre de um estado de menos complexidade para um de maior complexidade. A natureza garante a prpria eficincia por no ter de reinventar a criao toda cada vez que cria uma nova espcie. Normalmente, quando a natureza identifica um padro no cdigo gentico que funciona para a sobrevivncia da criatura, como um miolo de flor para a transmisso do nctar, um corao para bombear sangue, uma glndula sudorpara para ajudar a regular a temperatura do corpo, ou um globo ocular para a viso, ela tende a utilizar esse trao em futuras permutaes daquele cdigo especfico, acrescentando um novo nvel de programao a um j bem estabelecido conjunto de instrues. Cada nova espcie contm uma forte estrutura de sequncias de DNA testadas pelo tempo. Essa  uma das maneiras simples pelas quais a natureza transmite a experincia e a sabedoria passadas pela vida ancestral a sua prole.
      Outra vantagem desse tipo de engenharia gentica  aprimorar um projeto j existente   que manipulaes muito pequenas das sequncias genticas podem resultar em grandes transformaes evolucionrias. Em nosso perfil gentico, creia ou no, a evidncia cientfica indica que ns, os seres humanos, partilhamos 99,4% do total de sequncias de DNA com o chimpanz2.
      Isso no significa,  claro, que os humanos sejam descendentes diretos dos amigos das rvores, mas enfatiza que o gnio do cdigo molecular  sustentado por eras do maior esforo evolucionrio da natureza. 
2. Derek E. Wildman et ai. Center for Molecular Medicine and Genetics Department of Anatomy and Cell Biology, Wayne State University School of Medicine. Disponvel em http://www.pnas.org/cgi/content/full/100/12/7181, acesso em 10 set. 2006.
      O cdigo humano no foi um ato aleatrio, pelo menos no em sua totalidade; em vez disso,  mais bem descrito como a jornada sempre em evoluo da natureza por um corpo de perfeio gentica.
      Como membros da mesma espcie humana, voc e eu s no dividimos 0,01% (1/100 de 1%) de sequncias genticas idnticas. Assim, do mbito biolgico, como espcie, voc e eu somos praticamente idnticos em relao a nossos genes (99,99%). Observando a diversidade da raa humana ao redor,  bvio que 0,01% conta como uma significativa diferena em como somos fisicamente, em como pensamos e nos comportamos.
      
      
      A poro de nosso crebro que nos separa de todos os outros mamferos  o ondulado e convoluto crtex cerebral  a camada externa. Embora outros mamferos tenham crtex cerebral, o crtex humano tem cerca do dobro da espessura e, acredita-se, o dobro da funo. Nosso crtex cerebral  dividido em dois grandes hemisfrios, que se complementam no funcionamento.
      Os dois hemisfrios se comunicam pela estrada de transferncia de informao  o corpo caloso. Embora cada hemisfrio seja nico nos tipos especficos de informao que processa, quando os dois hemisfrios esto conectados um ao outro, eles trabalham juntos para gerar uma percepo nica e sem emendas do mundo.
      Com relao  intrincada anatomia microscpica de como nosso crtex cerebral  finamente enredado, a variao  a regra, no a exceo. Essa variao contribui com as preferncias individuais e os diversos tipo de personalidade. Porm, a grande (ou macroscpica) anatomia de nosso crebro  muito consistente, e seu crebro parece muito semelhante ao meu. As salincias (giros) e ranhuras (sulcos) do crtex cerebral so especificamente organizadas de maneira que nosso crebro seja idntico ao do vizinho em aparncia, estrutura e funo. Por exemplo, cada um dos hemisfrios do crebro humano contm um giro temporal superior, giros pr e ps-central, um giro parietal superior e um giro occipital lateral, s para mencionar alguns. Cada um desses giros  constitudo de grupos muito especficos de clulas que tm conexes e funes tambm muito especficas.
      Por exemplo, as clulas do giro ps-central nos capacitam a reconhecer de modo consciente a estimulao sensorial, enquanto as clulas no giro pr-central controlam a habilidade de mover voluntariamente partes do corpo. Os principais caminhos para transferncia de informao entre os vrios grupos corticais de clulas (tratos fibrosos) dentro de cada um dos hemisfrios tambm so consistentes entre ns e, como resultado, em geral somos capazes de pensar e sentir de forma comparvel.
      Os vasos sanguneos que levam nutrientes aos hemisfrios cerebrais tambm exibem um padro definido. As artrias cerebrais anterior, mdia e posterior levam sangue a cada um dos dois hemisfrios. O dano a qualquer ramo especfico de uma dessas importantes artrias pode resultar em sintomas, de certa maneira previsveis, de severo prejuzo ou completa eliminao da capacidade de realizar funes cognitivas especficas. ( claro que h diferenas nicas entre dano no hemisfrio direito e no esquerdo.) A artria cerebral mdia do hemisfrio esquerdo foi a localizao do meu derrame. Dano a quaisquer ramos primrios da artria cerebral mdia resultar em sintomas mais ou menos previsveis, no importa a quem se relaciona o problema.
      
      
      As camadas superficiais do crtex, que vemos quando olhamos para a superfcie externa do crebro, so cheias de neurnios que, segundo acreditamos, servem to-somente  espcie humana. Esses neurnios "adicionados" mais recentemente criam circuitos que possibilitam a capacidade de pensar com linearidade  como a linguagem complexa e a capacidade de pensar em sistemas abstratos, simblicos, como a matemtica. As camadas mais profundas do crtex cerebral constituem as clulas do sistema lmbico. Essas so as clulas corticais que temos em comum com outros mamferos.
      O sistema lmbico funciona com a adio de um afeto, ou emoo, a uma informao adquirida por intermdio dos sentidos. Por dividirmos essas estruturas com outras criaturas, as clulas do sistema lmbico so com frequncia chamadas "crebro rptil" ou "crebro emocional". Quando somos recm-nascidos, essas clulas se tornam interligadas em resposta ao estmulo sensorial.  interessante notar que, embora o sistema lmbico funcione ao longo de toda a vida, ele no amadurece. Em resultado, quando nossos "botes" emocionais so pressionados, guardamos a habilidade de reagir  estimulao como se fssemos crianas de dois anos de idade, mesmo que sejamos adultos.
      Quando nossas clulas corticais mais altas amadurecem e se integram em redes complexas com outros neurnios, adquirimos a capacidade de tirar "novas fotos" do momento presente. Se compararmos a nova informao da mente pensante com a reatividade automtica da mente lmbica, podemos reavaliar a situao corrente e escolher propositalmente uma resposta mais madura.
      Pode ser interessante notar que todas as tcnicas atuais de "aprendizado baseado no crebro" usadas do ensino fundamental ao ensino mdio abrangem o que os neurocientistas entendem sobre o funcionamento do sistema lmbico. Com tais tcnicas de aprendizado, tentamos transformar salas de aula em ambientes que sejam percebidos como seguros e familiares. O objetivo  criar um ambiente no qual a resposta de medo/raiva do crebro (amgdala cerebral) no seja desencadeada. O trabalho primrio da amgdala  examinar toda estimulao que chega nesse momento imediato e determinar o nvel de segurana. Um dos trabalhos do giro cingulato do sistema lmbico  focar a ateno do crebro.
      Quando o estmulo que chega  percebido como familiar, a amgdala se mantm calma e o hipocampo posicionado nas adjacncias  capaz de aprender e memorizar nova informao. Porm, assim que a amgdala  disparada por um estmulo desconhecido ou, talvez, ameaador, ela eleva o nvel de ansiedade do crebro e foca a ateno da mente na situao imediata. Sob tais circunstncias, a ateno  desviada do hipocampo e se volta para o comportamento de autopreservao em torno do momento presente.
      A informao sensorial chega pelos sistemas sensoriais e  imediatamente processada pelo sistema lmbico. Quando uma mensagem alcana o crtex cerebral para o pensamento superior, j adicionamos um "sentimento" sobre como vemos esse estmulo; isso  dor, ou  prazer? Embora muitos possam acreditar que somos criaturas pensantes que sentem, biologicamente somos criaturas sensveis que pensam.
      Pelo fato de "sentimento" ser um termo usado de maneira muito ampla, gostaria de esclarecer onde ocorrem diferentes experincias no crebro humano. Primeiro, quando experimentamos sentimentos de tristeza, alegria, raiva, frustrao ou excitao, essas emoes so geradas pelas clulas do sistema lmbico. Segundo, sentir algo nas mos refere-se  experincia ttil ou cinestsica de sentir pela ao da palpao. Esse tipo de sentimento ocorre por intermdio do sistema sensorial do tato e envolve o giro ps-central do crtex cerebral. Finalmente, quando algum contrape o que sente intuitivamente a algo (sempre expresso como uma "intuio") que pensa sobre um assunto, essa conscincia criteriosa  uma cognio superior que tem razes no hemisfrio direito do crtex cerebral. (No Captulo 20 discutiremos de forma mais ampla as diferentes maneiras pelas quais os hemisfrios direito e esquerdo do crebro operam.)
      
      
   
   
   
   
   
   
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      Como mquinas de processar informao, nossa habilidade de processar dados sobre o mundo externo comea no nvel da percepo sensorial. Embora muitos raramente tenham conscincia disso, os receptores sensoriais so projetados para detectar informao em nvel energtico. Porque tudo a nossa volta  o ar que respiramos, e at as matrias-primas que usamos para construir alguma coisa   composto por partculas atmicas vibrantes e giratrias; voc e eu literalmente nadamos em um mar turbulento de campos eletromagnticos. Somos parte dele. Somos envolvidos por ele, e, por intermdio de nosso aparato sensorial, experimentamos o que ele .
      Cada um dos sistemas sensoriais do ser humano  feito de uma complexa cascata de neurnios que processa o cdigo neural recebido do nvel do receptor para reas especficas no interior do crebro. Cada grupo de clulas ao longo da cascata altera ou aprimora o cdigo, e o transmite para o prximo conjunto de clulas no sistema, que define e refina ainda mais a mensagem. Quando o cdigo atinge a poro mais externa do crebro  os nveis superiores do crtex cerebral , tornamo-nos conscientes do estmulo. Porm, se alguma das clulas ao longo do caminho falha em sua habilidade de funcionar com normalidade, a percepo final  distorcida da realidade normal.
      Nosso campo visual  toda a viso que podemos apreender ao olharmos para o mundo   dividido em bilhes de pequeninos pontos ou pixels. Cada pixel  composto de vrios tomos e molculas em vibrao. As clulas da retina no fundo do olho detectam o movimento dessas partculas atmicas. tomos que vibram em diferentes frequncias emitem variados comprimentos de onda de energia, e essa informao  eventualmente codificada como cores diferentes pelo crtex visual na regio occipital do crebro. Uma imagem visual  construda pela habilidade do crebro de reunir grupos de pixels na forma de margens. Diferentes margens com diferentes orientaes  vertical, horizontal e oblqua  combinam-se para formar imagens complexas. Diferentes grupos de clulas no crebro acrescentam profundidade, cor e movimento ao que vemos. A dislexia, na qual algumas letras escritas so percebidas de modo diferente do que o normal,  um grande exemplo de anormalidade funcional que pode ocorrer quando a cascata normal de estmulos sensoriais  alterada.
      Semelhante  viso, nossa capacidade de ouvir sons tambm depende de detectarmos a energia que viaja em diferentes comprimentos de onda. O som  produto de partculas atmicas que colidem entre si no espao e emitem padres de energia. Os comprimentos de ondas da energia, criados pelo bombardeio de partculas, atingem a membrana do tmpano no ouvido. Diferentes comprimentos de onda de som vibram no tmpano com propriedades nicas. Semelhantes s clulas da retina, as clulas capilares do rgo de Corti auditivo traduzem a vibrao de energia no ouvido para um cdigo neural. Esse cdigo chega ao crtex auditivo (na regio temporal do crebro) e ento podemos ouvir o som.
      A habilidade mais evidente de sentir informao atmica/molecular ocorre por meio dos sentidos qumicos do olfato e do paladar. Embora esses receptores sejam sensveis a partculas eletromagnticas individuais que passam pelo nariz ou provocam as papilas gustativas, somos nicos no sentido de que  necessria muita estimulao antes de podermos sentir o cheiro ou o sabor de alguma coisa. Cada um desses sistemas sensoriais tambm  composto de complexas cascatas de clulas, e o dano a qualquer poro desse sistema pode resultar em capacidade anormal de percepo.
      Finalmente, a pele  o maior rgo sensorial, e  pontilhada por receptores sensoriais muito especficos criados para experimentar presso, vibrao, toque suave, dor ou temperatura. Esses receptores so precisos no tipo de estimulao que percebem, de maneira que um estmulo frio s pode ser percebido por receptores sensoriais para frio, e a vibrao s pode ser determinada por receptores de vibrao. Devido a essa especificidade, a pele  uma superfcie finamente mapeada de recepo sensorial.
      As diferenas inatas com relao a quanto cada um de ns  sensvel a cada diferente tipo de estmulo contribuem muito para como percebemos o mundo. Se temos dificuldade para ouvir quando as pessoas falam, ouviremos apenas trechos e fragmentos de conversas, e tomaremos decises e faremos julgamentos com base em informao mnima. Se nossa viso  pobre, vamos focar menos detalhes e nossa interao com o mundo ser afetada. Se o olfato  deficiente,  possvel que no sejamos capazes de discriminar entre um ambiente seguro e outro que cause prejuzo  sade, o que nos torna mais vulnerveis. No extremo oposto, se somos muito sensveis  estimulao, podemos evitar interagir com o ambiente e perdemos os prazeres simples da vida.
      
      
      As patologias e as doenas do sistema nervoso dos mamferos em geral envolvem o tecido do crebro que distingue essa espcie de outras. Como consequncia, no caso do sistema humano, as camadas externas do crtex cerebral so vulnerveis  doena. O derrame  o incapacitante nmero um de nossa sociedade, e o terceiro na lista dos que mais matam. Como a doena neurolgica sempre envolve as camadas mais elevadas de cognio do crtex cerebral, e ocorrendo o derrame com frequncia quatro vezes maior no hemisfrio esquerdo, a capacidade de criar e compreender a linguagem  quase sempre comprometida. O termo "derrame" refere-se a um problema com os vasos sanguneos que transportam oxignio s clulas do crebro e h basicamente dois tipos: isqumico e hemorrgico.
      De acordo com a Associao Americana de Derrames, o derrame isqumico responde por aproximadamente 83% de todas as ocorrncias. As artrias que levam sangue ao crebro vo ficando cada vez menores na medida em que se afastam do corao. Essas artrias transportam o oxignio vital necessrio para a sobrevivncia das clulas, inclusive os neurnios. No caso do derrame isqumico, um cogulo de sangue viaja pela artria at o dimetro reduzido tornar-se pequeno demais para a passagem do cogulo. O cogulo bloqueia o fluxo de sangue rico em oxignio para as clulas que esto alm do ponto de obstruo. Em decorrncia, as clulas cerebrais sofrem trauma e morrem. Como os neurnios no se regeneram, os que morrem no so substitudos. A funo das clulas mortas pode se perder em carter permanente, a menos que outros neurnios se adaptem com o passar do tempo e assumam essa funo. Por ser nica em sua ligao neurolgica, toda clula cerebral  tambm nica na capacidade de se recuperar do trauma.
      O derrame hemorrgico ocorre quando o sangue escapa das artrias e inunda o crebro. Dezessete por cento de todos os derrames so hemorrgicos. O sangue  txico para os neurnios quando entra em contato direto com eles, de modo que qualquer vazamento ou rompimento vascular pode ter efeitos devastadores para o crebro. Um tipo de derrame, o aneurisma, se forma quando h enfraquecimento na parede do vaso sanguneo que, em consequncia, se expande. A rea enfraquecida se enche de sangue e pode romper prontamente, vertendo grande volume de sangue para o interior do crnio. Qualquer tipo de hemorragia  sempre um risco  vida.
      A m-formao arteriovenosa (MAV)  uma forma rara de derrame hemorrgico.  uma desordem congnita segundo a qual um indivduo nasce com uma configurao anormal de artria. Normalmente, o corao bombeia sangue pelas artrias com alta presso, enquanto o sangue  recolhido pelas veias, que tm baixa presso. O leito capilar age como um sistema de amortecimento ou zona neutra entre as artrias de alta presso e as veias de baixa presso.
      No caso da MAV, uma artria  diretamente conectada a uma veia sem o leito capilar amortecedor entre elas. Com o tempo, a veia no suporta a presso mais alta da artria e a conexo entre artria e veia se rompe, causando derramamento de sangue para o crebro. 
      Embora a MAV responda por apenas 2% dos derrames hemorrgicos3,  a forma mais comum de derrame entre as pessoas jovens (entre 25 e 45 anos). Eu tinha 37 quando minha MAV explodiu.
      Sem levar em conta a natureza mecnica do problema vascular, seja ele um cogulo sanguneo ou uma hemorragia, no h dois derrames idnticos em relao a sintomas, porque no existem dois crebros absolutamente idnticos em relao a estrutura, conexes ou capacidade de recuperao. Ao mesmo tempo,  impossvel falar sobre os sintomas resultantes do derrame sem ter uma conversa sobre as diferenas inatas entre os hemisfrios cerebrais direito e esquerdo. Apesar de a  estrutura anatmica dos dois hemisfrios ser relativamente simtrica, eles so totalmente distintos, no s em como processam a informao, mas tambm no tocante aos tipos de informao que processam.
      Quanto melhor entendermos a organizao funcional dos dois hemisfrios cerebrais, mais fcil  prever os dficits que podem ocorrer quando reas especficas so danificadas. Talvez mais importante: podemos obter algum conhecimento sobre o que podemos fazer para ajudar os sobreviventes de um derrame a recuperar funes perdidas.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
3. National Instituto of Neurological Disorders and Stroke. Disponvel em http://www.ninds.nih.gov, acesso em 10 set. 2006.



Captulo 20


ASSIMETRIAS HEMISFRICAS

      
      Os cientistas estudam as assimetrias funcionais do crebro humano h mais de 200 anos. Que eu saiba, a primeira pessoa a sugerir que cada hemisfrio tem vida prpria foi Meinard Simon Du Pui. Em 1780, Du Pui afirmou que a humanidade era Homo Duplex  uma aluso ao crebro duplo com uma mente dupla1. Quase um sculo depois, no final dos anos 1800, Arthur Ladbroke Wigan assistiu  autpsia de um homem que podia andar, falar, ler, escrever e agir como um homem normal. Porm, ao examinar seu crebro, Wigan descobriu que esse homem tinha apenas um hemisfrio cerebral. Wigan concluiu que, como esse homem, que s tinha "metade" de um crebro, possua uma mente inteira e podia funcionar como um homem inteiro, ento aqueles que tinham os dois hemisfrios deviam ter duas mentes. Wigan defendeu com entusiasmo a teoria da dualidade da mente2.
      Ao longo dos sculos, vrias concluses foram tiradas sobre as diferenas e semelhanas entre como os dois hemisfrios processam informao e aprendem novo material. Esse assunto ganhou tremenda populari dade nos Estados Unidos na dcada de 1970, depois de uma srie de experincias de diviso cerebral nas quais o Dr. Roger W. Sperry cortava cirurgicamente as fibras do corpo caloso de indivduos que sofriam severos surtos de epilepsia. No discurso do Prmio Nobel em 1981, Sperry comentou:
      
        1.  G. J. C. Lokhorst, Hemispheric Differences before 1800. Disponvel em http://www.tbm.tudelft.nl/webstaf/gertjanl/bbsl985/html, acesso em 10 set. 2006.
         2. Ibid.
      
Sob as condies de comissurotomia nas quais fatores pregressos so equalizados e em que comparaes direita-esquerda tornaram-se possveis com o mesmo sujeito trabalhando o mesmo problema, at as menores diferenas laterais tornam-se importantes. O mesmo indivduo pode ser observado empregando de maneira consistente uma ou outra das duas formas distintas de abordagem mental e de estratgia, como duas pessoas diferentes, dependendo se  o hemisfrio esquerdo ou o direito que est em uso3.


Desde aqueles primeiros estudos com pacientes em que se aplicava a diviso cerebral, os neurocientistas tm aprendido que os dois hemisfrios tm desempenho diferente quando esto conectados um ao outro e quando so cirurgicamente separados4. Quando normalmente conectados, os dois hemisfrios complementam e aprimoram as habilidades um do outro. Quando cirurgicamente separados, os dois hemisfrios funcionam como dois crebros independentes, com personalidades nicas, circunstncia com frequncia descrita como fenmeno O Mdico e o Monstro.
      Usando tcnicas modernas e no invasivas que incluem imagens funcionais, os cientistas so agora capazes de visualizar que neurnios especficos esto envolvidos na execuo de determinada funo em tempo real. Os dois hemisfrios so integrados no nvel neuronal pelo corpo caloso, por isso todo comportamento cognitivo que exibimos envolve atividade nos dois hemisfrios, que apenas executam de maneira diferente.
      
        3.  Discurso de Roger W. Sperry em 8 de dezembro de 1981. Disponvel em: http://nobelprize.org/riobel_prizes/medicine/laureates/1981/sperry-lecture.html, acesso em 10 set. 2006.
        4. Sperry, M. S. Gazzaniga e J. E. Bogen, "Interhemispheric Relationships: The Neurocortical Commissures; Syndromes of Hemisphere Disconnection", em P. J. Vinken e G. W. Bruyn (eds.), Hcmdbook of Clinicai Neurology. Amster-d: North-Holland Publishing, 1969, p. 177-184.
      Como resultado, o mundo da cincia apoia a ideia de que o relacionamento entre os dois hemisfrios cerebrais  mais apropriadamente visto como duas metades complementares de um todo, em vez de duas entidades ou identidades individuais.
      Faz sentido, portanto, pensar que ter dois hemisfrios cerebrais que processem informao de maneiras singularmente diferentes aumentaria a capacidade do crebro de experimentar o mundo a nossa volta bem como aumentariam nossas chances de sobrevivncia como espcie. Por serem os dois hemisfrios to adeptos de tecerem, juntos, uma percepo nica e sem emendas do mundo, do ponto de vista terico  impossvel distinguirmos de maneira consciente entre o que acontece no hemisfrio esquerdo e no hemisfrio direito.
      
      
      Para comear,  importante entender que dominncia hemisfrica no deve ser confundida com dominncia manual. A dominncia no crebro  determinada por qual hemisfrio abriga a capacidade de criar e entender a linguagem verbal. Embora a estatstica varie dependendo de quem voc questiona, de modo geral todos os destros (mais de 85% da populao dos Estados Unidos) tm dominncia cerebral do hemisfrio esquerdo. Ao mesmo tempo, mais de 60% dos canhotos so tambm classificados como indivduos de dominncia cerebral do hemisfrio esquerdo. Aprofundemos o assunto sobre assimetrias dos dois hemisfrios.
      O hemisfrio direito (que controla a metade esquerda do corpo) funciona como um processador paralelo. Fluxos independentes de informao chegam simultaneamente ao crebro atravs de cada um dos sistemas sen-soriais. Momento a momento, o lado direito da mente cria um painel do que esse momento no tempo parece, de como soa, que sabor tem, qual  seu cheiro, e que sensao ttil provoca. Momentos no vo e vm num ato, mas, em vez disso, so ricos em sensaes, pensamentos, emoes e, no raro, em respostas fisiolgicas. A informao processada dessa maneira nos permite fazer um inventrio imediato sobre o espao a nossa volta e o relacionamento que temos com ele.
      Graas s habilidades do lado direto da mente, podemos lembrar momentos isolados com clareza e preciso assombrosas. Muitos conseguem lembrar onde estavam e o que sentiam quando ouviram a notcia do assassinato do presidente Kennedy ou quando viram a queda do World Trade Center. Voc lembra o momento em que disse o "sim" ou viu pela primeira vez o sorriso de seu beb? O hemisfrio direito  projetado para lembrar coisas que se relacionam umas s outras. Fronteiras entre entidades especficas so suavizadas, e complexos painis mentais podem ser lembrados em sua totalidade como combinaes de imagens, movimentos e fisiologia.
      Para o lado direito da mente, no existe outro tempo como o momento presente, e cada momento  vibrante de sensao. Vida ou morte correm no presente momento. A experincia da alegria acontece no momento presente. A percepo e a experincia de conexo com alguma coisa que  maior que ns acontecem no momento presente. Para o lado direito da mente, o momento do agora  atemporal e abundante.
      Na ausncia de todas as regras e regulamentaes que j foram definidas como a maneira correta de fazer algo, o lado direito da mente tem a liberdade de pensar intuitivamente alm dos limites e explorar de maneira criativa as possibilidades que traz cada novo momento. Por sua natureza, o lado direito da mente  espontneo, despreocupado e imaginativo. Ele permite que nossa seiva artstica flua livre de inibies ou julgamento.
      O momento presente  um tempo em que tudo e todos esto conectados como um. Como resultado disso, o lado direito da mente percebe cada um de ns como membro igual da famlia humana. Ele identifica nossas similaridades e reconhece nosso relacionamento com este maravilhoso planeta que sustenta a vida. Ele percebe o panorama geral, a maneira como tudo est relacionado e como nos unimos para criar o todo. A capacidade de empatia, de nos colocarmos no lugar do outro e sentir seus sentimentos,  produto do crtex frontal direito.
      Por outro lado, o hemisfrio esquerdo  completamente diferente na forma de processar informao. Ele toma cada um daqueles momentos ricos e complexos criados pelo hemisfrio direito e os une em uma sucesso temporal. Depois, ele compara sequencialmente os detalhes que compem esse momento com os detalhes colhidos do detalhe anterior. Organizando detalhes em uma configurao linear e metdica, o lado esquerdo do crebro manifesta o conceito do tempo, dividindo assim nossos momentos em passado, presente e futuro. Dentro da estrutura dessa previsvel cadncia temporal, podemos concluir que algo deva ocorrer antes que aquilo possa acontecer. Olho para meus sapatos e meias, e  o lado esquerdo do crebro que compreende que devo calar as meias antes de pr os sapatos. Ele pode olhar para os detalhes de um quebra-cabea e usar as dicas de cor, forma e tamanho para reconhecer padres de arranjo. Ele constri uma compreenso de tudo usando um raciocnio dedutivo de forma que, se A  maior que B, e B  maior que C, ento A deve ser maior que C.
      Exatamente o oposto do hemisfrio direito, que pensa em quadros e percebe o grande panorama do momento presente, o lado esquerdo da mente tem sucesso com detalhes, detalhes e mais detalhes sobre aqueles detalhes. A linguagem do hemisfrio esquerdo centraliza o uso das palavras para descrever, definir, categorizar e comunicar todas as coisas. Ele quebra o panorama maior do momento presente em fragmentos administrveis e comparveis de dados sobre os quais possa falar. O hemisfrio esquerdo olha para uma flor e d nomes s diferentes partes que compem o todo: ptala, caule, estame e plen. Ele disseca a imagem de um arco-ris nas palavras vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, ndigo e violeta. Descreve o corpo humano como braos, pernas, um tronco e todos os detalhes anatmicos, fisiolgicos e bioqumicos que se possa imaginar. O lado esquerdo do crebro  bom em tecer fatos e detalhes para compor uma histria. Excede em procedimentos acadmicos e, assim, manifesta um senso de autoridade sobre os detalhes que domina.
      Por intermdio dos centros de linguagem do hemisfrio esquerdo, a mente fala conosco constantemente, um fenmeno a que me refiro como "papo do crebro".  aquela voz lembrando que voc precisa comprar as bananas no caminho de casa e aquela inteligncia calculista que sabe quando voc tem de lavar a roupa. H uma vasta variao individual na velocidade com que a mente funciona. Para alguns, essa conversa do crebro  to acelerada que mal se podem acompanhar os prprios pensamentos. Outros pensam em linguagem to lenta que  preciso muito tempo para se compreender o pensamento. Outros ainda tm um problema para manter o foco e a concentrao por tempo suficiente para agir de acordo com os pensamentos. Essas variaes no processamento normal esto relacionadas s clulas cerebrais e em como cada crebro  intrinsecamente ligado.
      Uma das funes do centro de linguagem do lado esquerdo do crebro  definir nosso eu dizendo "Eu sou". Pelo uso do papo do crebro, a mente repete muitas vezes os detalhes de nossa vida de maneira que possamos nos lembrar deles.  o lar do centro do ego, que d ao indivduo uma conscincia interna de qual  seu nome, quais so suas credenciais e onde mora. Sem essas clulas realizando seu trabalho, nos esqueceramos de quem somos e perderamos de vista nossa vida e identidade.
      Alm do pensamento em linguagem, o hemisfrio esquerdo pensa em respostas padronizadas ao estmulo que chega. Ele estabelece circuitos neurolgicos que funcionam de maneira relativamente automtica  informao sensorial. Esses circuitos nos permitem processar grandes volumes de informao sem ter de passar muito tempo focando os fragmentos individuais de informao. Do ponto de vista neurolgico, toda vez que um circuito de neurnios  estimulado,  necessrio menos estmulo externo para esse circuito particular funcionar. Como resultado desses circuitos reverberantes, o hemisfrio esquerdo cria o que eu chamo de "grupos de padres de pensamento", que ele usa para interpretar com rapidez grandes volumes de estmulo com um mnimo de ateno e clculo.
      O lado esquerdo do crebro  cheio desses programas impregnados de reconhecimento de padro, por isso  excelente em prever o que vamos pensar, como vamos agir ou o que vamos sentir no futuro, tendo por base a experincia passada. Eu, pessoalmente, adoro a cor vermelha e tenho propenso a colecionar vrios objetos vermelhos. Dirijo um carro vermelho e uso roupas vermelhas. Gosto do vermelho porque h em meu crebro um circuito que fica muito agitado e funciona de maneira relativamente automtica quando algo vermelho vem em minha direo. Da perspectiva puramente neurolgica, gosto de vermelho porque as clulas do lado esquerdo de meu crebro me dizem que gosto de vermelho.
      Entre outras coisas, o hemisfrio esquerdo categoriza informao em hierarquias incluindo coisas que nos atraem (que gostamos) ou repelem (que desgostamos). Ele coloca o julgamento de bom nessas coisas de que gostamos e de mau nas coisas que desgostamos. Pela ao de julgamento crtico e anlise, o lado esquerdo do crebro nos compara constantemente com todas as outras pessoas. Ele nos mantm  frente de onde estamos na escala financeira, na acadmica, na escala da honestidade, da generosidade de esprito, e em todas as outras que imaginarmos. A mente do ego se alegra com a individualidade; honra a singularidade e luta por independncia.
      
   
   
   
   
   
   
   
   
   
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      Embora cada hemisfrio do crebro processe informao de maneira nica e distinta, os dois trabalham em conjunto e com intimidade em relao a praticamente todas as aes que executamos. Com a linguagem, por exemplo, o hemisfrio esquerdo entende os detalhes que criam a estrutura e a semntica da sentena, e o significado das palavras.  o lado esquerdo do crebro que entende o que so as letras e como elas se encaixam para criar um som (palavra) que tem um conceito (significado) ligado a ele.  ele que une as palavras em uma sequncia linear para criar frases e pargrafos capazes de transmitir mensagens complexas.
      O hemisfrio direito complementa a ao dos centros de linguagem do hemisfrio esquerdo interpretando a comunicao no verbal. O lado direito da mente avalia os sinais mais sutis de linguagem, entre eles o tom de voz, a expresso facial e a linguagem corporal. O hemisfrio direito olha para o grande cenrio da comunicao e avalia a congruncia da expresso geral. Qualquer inconsistncia entre como algum sustenta o corpo em oposio  expresso verbal, o tom de voz, a mensagem que est comunicando, pode indiciar ou uma anormalidade neurolgica em como essa pessoa se expressa ou pode ser um sinal revelador de que a pessoa no est dizendo a verdade.
      Pessoas que sofrem dano no hemisfrio esquerdo normalmente no conseguem criar ou entender a fala porque as clulas do centro de linguagem foram prejudicadas. Porm, essas pessoas podem ser geniais para determinar se algum est dizendo a verdade, graas s clulas no hemisfrio direito. Por outro lado, se algum sofre dano no hemisfrio direito, pode no avaliar de maneira apropriada o contedo emocional de uma mensagem. Por exemplo, se estou jogando vinte-e-um em uma festa e digo: "me acerta!", uma pessoa com o hemisfrio direito danificado pode pensar que estou pedindo para que algum me acerte fisicamente, quando, na verdade, estou s pedindo mais uma carta. Sem o hemisfrio direito e sua capacidade de avaliar a comunicao no contexto do panorama maior, o hemisfrio esquerdo tende a interpretar tudo literalmente.
      A msica  outro grande exemplo de como os dois hemisfrios se complementam em funo. Quando repetimos metdica e meticulosamente a escala inmeras vezes, quando aprendemos a ler a linguagem das partituras e quando memorizamos que dedo deve ser pressionado em qual corda do instrumento para criar determinada nota, estamos utilizando de maneira primria as habilidades do lado esquerdo do crebro. O lado direito do crebro funciona mais rapidamente quando estamos fazendo coisas no momento presente  como improvisar, tocar de ouvido ou nos apresentarmos.
      Voc j parou para considerar como o crebro sabe definir as dimenses do seu corpo no espao?  espantoso, mas h clulas na rea de associao e orientao no hemisfrio esquerdo que definem os limites do corpo, onde comeamos e onde terminamos em relao ao espao ao redor. Ao mesmo tempo, h clulas na rea de associao e orientao no hemisfrio direito que orientam nosso corpo no espao. Como resultado, o hemisfrio esquerdo ensina onde o corpo comea e termina, e o direito ajuda a coloc-lo aonde desejamos ir5.
      Sugiro que o leitor explore a ampla gama de literatura atual sobre ensino e aprendizado do crebro bem como assimetrias dos dois hemisfrios corticais. Acredito que quanto mais entendermos como os hemisfrios trabalham juntos para criar a percepo que temos da realidade, maior ser nosso sucesso na compreenso dos dons naturais do crebro, e maior ser a eficincia com que poderemos ajudar pessoas em recuperao de trauma neurolgico.
        
        
        
        
        
         5. Andrew Newber, Eugene D'Aquili e Vince Rause, Why God Won't Go Away. Nova Yorlt: Ballantine, 2001, p. 28.
        
        
      O tipo de derrame que sofri foi uma severa hemorragia no hemisfrio esquerdo do crebro devido a uma MAV no diagnosticada. Na manh do derrame, essa hemorragia intensa me deixou to completamente incapacitada que me descrevo como um beb em corpo de mulher. Duas semanas e meia depois do derrame, fui submetida a uma cirurgia para a remoo de um cogulo do tamanho de uma bola de golfe que obstrua a habilidade do meu crebro de transmitir informao.
      Depois da cirurgia, levei oito anos para recuperar completamente todas as funes fsicas e mentais. Acredito que me recuperei de modo completo porque tive uma vantagem. Como neuroanatomista experiente, acreditei na plasticidade do meu crebro, em sua capacidade de reparar, substituir e treinar novamente o circuito neural. Alm disso, graas  minha formao acadmica, eu tinha um "mapa" para compreender como minhas clulas cerebrais precisavam ser tratadas para que se recuperassem.
      A histria seguinte  meu derrame de sabedoria sobre a beleza e a capacidade de resistncia do crebro humano.  um relato pessoal, sob o olhar de uma neurocientista, sobre como foi experimentar a deteriorao do lado esquerdo de meu crebro e depois recuper-lo.
       Espero que este livro oferea conhecimento sobre como o crebro funciona na sade e na doena. Embora ele tenha sido escrito para o pblico em geral, espero que vocs o compartilhem com pessoas que desejem ajudar a se recuperar de um trauma cerebral e queles que cuidam delas.
      
      
      
      
      
      
      
    APNDICE
      
    RECOMENDAES PARA
    RECUPERAO
      
    POR JILL BOLTE TAYLOR, PH.D.
      
      
      
      
    DEZ QUESTES DE AVALIAO
      
      
      1.  Voc examinou meus olhos e ouvidos para saber o que posso ver e ouvir?
      2.  Posso discriminar cor?
      3.  Percebo trs dimenses?
      4.  Tenho noo de tempo?
      5.  Posso identificar todas as partes do meu corpo como minhas?
      6.  Posso discriminar voz de rudo de fundo?
      7.  Posso ter acesso  comida? Minhas mos conseguem abrir embalagens? Tenho fora e habilidade adequadas para me alimentar?
      8.  Estou confortvel? Estou suficientemente aquecido? Com sede? Com dor?
      9.  Sou excessivamente sensvel  estimulao sensorial (luz ou som)? Se sim, tragam-me protetores auriculares para que eu possa dormir, e culos de sol para que eu consiga manter os olhos abertos. 
      10. Sou capaz de pensar com linearidade? Sei o que so meias e sapatos? Sei que devo colocar as meias antes dos sapatos?
      
    QUARENTA COISAS DE
    QUE EU MAIS PRECISAVA
      
      1.  No sou estpida, estou ferida. Por favor, respeitem-me.
      2.  Chegue perto, fale devagar e pronuncie as palavras com clareza.
      3.  Seja repetitivo. Presuma que eu no sei nada e comece do incio, muitas e muitas vezes.
      4.  Seja to paciente comigo na vigsima vez em que me ensinar alguma coisa quanto foi na primeira.
      5.  Aproxime-se de mim com o corao aberto e controle a ansiedade. No tenha pressa.
      6.  Tenha conscincia do que sua linguagem corporal e expresses faciais esto comunicando para mim.
      7.   Faa contato visual comigo. Estou aqui; venha a meu encontro. Incentive-me.
      8.   Por favor, no levante a voz. No sou surda, apenas estou ferida.
      9.  Toque-me apropriadamente e faa conexo comigo.
      10.  Respeite o poder de cura do sono.
      11.  Proteja minha energia. Nada de locuo de rdio, televiso ou visitantes nervosos! Pea s visitas que sejam breves (cinco minutos).
      12.  Estimule meu crebro quando eu tiver energia para aprender algo novo, mas saiba que uma pequena quantidade pode me esgotar rapidamente.
      13.  Use ferramentas educacionais apropriadas (pr-escolares) e livros para me ensinar.
      14.  Apresente-me ao mundo sinestesicamente. Deixe-me sentir tudo. (Sou uma criana novamente.)
      15.  Use comportamentos de imitao para me ensinar.
      16.  Acredite, estou tentando. Apenas no no seu nvel de habilidade e no seu tempo.
      17.  Formule questes de mltipla escolha. Evite perguntas cujas respostas sejam sim/no.
      18.  Formule questes que tenham respostas especficas. D-me tempo para procurar a resposta.
      19.  No avalie minha habilidade cognitiva pela velocidade com que posso pensar.
      20.  Lide comigo com delicadeza, como faria com um recm-nascido.
      21.  Fale comigo diretamente; no fale sobre mim com os outros, como se eu no estivesse ali.
      22.  Incentive-me. Espere que eu me recupere completamente, mesmo que leve vinte anos!
      23.  Acredite que meu crebro possa continuar aprendendo sempre.
      24.  Fragmente todas as aes em pequenos passos de ao.
      25.  Verifique que obstculos me impedem de alcanar sucesso em uma tarefa.
      26.  Esclarea para mim qual  o prximo nvel ou passo para que eu possa saber a qual objetivo estou me dirigindo.
      27.  Lembre-se de que tenho de ser proficiente em um nvel de funo antes de poder me mover para o nvel seguinte.
      28.  Comemore todos os meus pequenos sucessos. Eles me inspiram.
      29.  Por favor, no termine minhas frases nem fornea as palavras que no consigo encontrar. Preciso exercitar meu crebro.
      30.  Se no consigo encontrar um arquivo antigo, crie um novo para mim.
      31.   Posso querer que voc pense que entendo mais do que realmente entendo.
      32.  Foque o que eu posso fazer, em vez de lamentar aquilo de que no sou capaz.
      33.  Apresente-me  minha velha vida. No presuma que, porque no posso mais tocar como antes, no vou apreciar um instrumento, ou msica em geral.
      34.  Lembre-se de que, na ausncia de algumas funes, conquistei outras habilidades.
      35.  Mantenha-me  vontade com a famlia, os amigos, e me d apoio emocional. Construa um mural de cartes e fotos que eu possa ver. Identifique-os para que eu possa rev-los.
      36.  Convoque as tropas! Crie uma equipe de cura para mim. Mande notcias a todos de forma que eles possam me mandar amor. Mantenha-os informados sobre minha condio e pea-lhes que faam determinadas coisas para me ajudar, como me visualizar conseguindo engolir com facilidade ou balanando meu corpo at me sentar sozinha.
      37.  Ame-me pelo que sou hoje. No me faa ser a pessoa que fui antes. Agora tenho um crebro diferente.
      38.  Seja protetor, mas no se ponha no caminho do meu progresso.
      39.  Mostre-me velhos vdeos nos quais eu aparea fazendo coisas que me lembrem como eu falava, caminhava e gesticulava.
      40.  Lembre-se de que minha medicao provavelmente me faz sentir cansada, e tambm mascara minha capacidade de saber como  me sentir eu mesma.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

      
      
